ESTUDO GIGANTESCO

Vegetarianos têm risco menor de câncer

Estudo com quase 1,8 milhão de pessoas mostra associação entre o estilo alimentar que exclui carne e frutos do mar e redução na incidência de cinco tipos de tumores, incluindo de próstata e mama

Vegetais e grãos 
integrais fornecem 
fibras, fitoquímicos, antioxidantes 
e menor exposição a compostos 
potencialmente 
cancerígenos  -  (crédito: EdiCase/Divulgação)
Vegetais e grãos integrais fornecem fibras, fitoquímicos, antioxidantes e menor exposição a compostos potencialmente cancerígenos  - (crédito: EdiCase/Divulgação)

A dieta vegetariana, que exclui qualquer tipo de carne e frutos do mar, mas inclui ovos e laticínios, reduz significativamente cinco tipos de câncer, segundo um dos maiores estudos a avaliar a associação entre alimentação e risco de tumores. Publicado no British Journal of Cancer, do grupo editorial Nature, o artigo mostra que, comparado aos carnívoros, os adeptos do padrão alimentar têm uma incidência menor de câncer de pâncreas (-21%), próstata (-12%), mama (-9%), rins (-28%) e mieloma múltiplo (-31%). Juntos, eles contribuíram com 39% da mortalidade por doenças oncológicas no Brasil em 2021, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer. 

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Os pesquisadores, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, usaram dados de aproximadamente 1,8 milhão de pessoas, rastreadas por uma média de 16 anos. O mesmo estudo constatou, porém, que os casos de carcinoma escamoso do esôfago são quase duas vezes maiores entre vegetarianos. Já os veganos, que excluem da alimentação qualquer produto de origem animal, apresentaram uma incidência 40% maior de tumor colorretal comparado aos carnívoros. O número absoluto de casos entre aqueles que se abstém de carnes, ovos e laticínios, porém, foi pequeno, ressaltaram os cientistas. 

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Os pesquisadores lembram que o estudo é observacional, ou seja, não estabelece uma relação de causa e efeito. Algumas pistas, porém, podem explicar as descobertas, dizem. Para Tim Key, professor de epidemiologia da Universidade de Oxford e coautor do estudo, as reduções observadas em cinco tipos de câncer entre os vegetarianos reforçam uma tendência já sugerida por pesquisas epidemiológicas anteriores de que dietas baseadas em plantas podem ter um efeito protetor em relação a certos cânceres, possivelmente por meio de maior ingestão de fibras, fitoquímicos, antioxidantes e menor exposição a compostos potencialmente cancerígenos encontrados em carnes processadas. 

O coordenador do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital Santa Marcelina (SP), Roberto Odebrecht Rocha, destaca que outras pesquisas têm associado a alimentação saudável com a prevenção do câncer. "Estudos mostram que dietas baseadas no consumo de açúcar, gorduras saturadas, gorduras trans e alimentos ultraprocessados contribuem para o aumento dos índices de câncer de várias formas", ressalta. "Desta forma, recomenda-se a ingestão de uma dieta rica em alimentos nutritivos, como grãos integrais, vegetais, frutas e feijões", diz. 

A Organização Mundial da Saúde já alertou que o consumo de carnes processadas, como salsicha, linguiça, presunto e bacon, aumenta significativamente o risco de alguns tipos de câncer. A OMS também destaca que a carne vermelha em excesso é um possível fator cancerígeno. 

Micronutrientes

Aurora Pérez-Cornago, principal autora do estudo, disse, em nota, que o risco aumentado de carcinoma escamoso em vegetarianos e de câncer colorretal em veganos pode estar associado a deficiências de micronutrientes, como vitaminas do complexo B e minerais como o zinco. Na população do Reino Unido, um dos países onde a pesquisa foi conduzida, a ingestão de cálcio por adeptos de dietas baseadas em estritamente em vegetais é de 590 mg por dia, quando o valor recomendado é 700 mg. "Mas mais pesquisa é necessária para compreender o que levou a essas diferenças encontradas", afirmou. 

O estudo também incluiu categorias intermediárias de dietas: pessoas que comem peixe, mas não carne vermelha, e quem consome apenas aves. Embora menor, também houve redução no risco de câncer de cólon, mama, rim e próstata, em comparação aos carnívoros.

Os pesquisadores alertam, porém, que as descobertas devem ser interpretadas com cautela e que ajustes nutricionais precisam ser feitos com acompanhamento de um profissional de saúde. Dagfinn Aune, professor do Departamento de Epidemiologia e Bioestatística do Imperial College London, na Inglaterra, também reforça que, embora amplo, o estudo pode não ter força estatística suficiente para detectar associações claras em todos os tipos de câncer pesquisados.

"Surpreendentemente, não houve redução no risco de câncer de cólon ou colorretal entre os vegetarianos no estudo, o que diverge de vários estudos anteriores (a maioria relatou reduções no risco de 10% a 40%", pondera Aune.  Os resultados nulos para câncer colorretal também divergem de um grande conjunto de evidências que mostram que a carne vermelha e processada aumenta o risco de câncer colorretal, enquanto uma maior ingestão de fibras e grãos integrais reduz o risco", observa. 

Três perguntas para

Rayanne Marques, nutricionista em Brasília 

Quais mecanismos nutricionais ou biológicos podem explicar a associação entre dieta vegetariana e menor risco de alguns cânceres?

Como nutricionista, avaliamos esse tipo de resultado olhando para o padrão alimentar como um todo. Dietas vegetarianas costumam ser naturalmente mais ricas em fibras, antioxidantes, fitoquímicos e compostos anti-inflamatórios presentes em frutas, verduras, leguminosas e grãos integrais. Esses nutrientes ajudam a modular processos metabólicos importantes, como controle glicêmico, microbiota intestinal e inflamação crônica, fatores que sabemos estar relacionados ao desenvolvimento de diversos tipos de câncer. Outro ponto relevante é a menor ingestão de carnes processadas e, muitas vezes, de carnes vermelhas, que estão associadas a compostos potencialmente carcinogênicos formados no processamento e em métodos de cocção em altas temperaturas. Além disso, pessoas vegetarianas frequentemente apresentam menor índice de massa corporal, e o excesso de gordura corporal é um fator de risco conhecido para vários tumores, especialmente os hormonais, como o câncer de mama.

O estudo também encontrou maior risco de alguns tumores em vegetarianos e veganos. Isso pode estar ligado a deficiências nutricionais?

Esse é um ponto que precisa ser interpretado com cautela. Em alguns casos específicos, como o carcinoma escamoso de esôfago observado em vegetarianos e o maior risco de câncer intestinal em veganos, os próprios pesquisadores destacam que o número de casos foi pequeno, o que limita conclusões definitivas. Do ponto de vista nutricional, é plausível que dietas restritivas mal planejadas apresentem ingestão insuficiente de certos micronutrientes, como cálcio, vitamina B12, zinco ou riboflavina, que participam de funções importantes para integridade celular, imunidade e manutenção de tecidos. Por exemplo, no caso dos veganos, uma ingestão baixa de cálcio pode ocorrer se não houver consumo adequado de alimentos fortificados ou fontes vegetais ricas nesse mineral. Ou seja, não é a ausência de carne em si que determina risco, mas sim a qualidade e o equilíbrio nutricional da dieta.

É possível afirmar que é a alimentação, e não outros hábitos, que explica a diferença de risco em alguns tipos de câncer?

Não totalmente. Estudos desse tipo mostram associação, não causalidade direta. Pessoas que seguem dietas vegetarianas muitas vezes também têm outros comportamentos de saúde positivos, como praticar mais atividade física, consumir menos álcool, fumar menos e ter maior cuidado com exames preventivos. Mesmo com ajustes estatísticos, sempre existe a possibilidade de fatores de estilo de vida influenciarem os resultados. Portanto, a principal leitura clínica é que padrões alimentares ricos em vegetais e com menor presença de ultraprocessados tendem a ser protetores. Mas isso não significa que apenas retirar carne seja suficiente, o mais importante continua sendo a qualidade global da alimentação. (PO)

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postado em 28/02/2026 05:02
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