Cada hora adicional do dia em frente às telas na primeira infância reduz em 10% as chances de a criança apresentar um bom desempenho em leitura e matemática anos depois, no ensino fundamental. A conclusão é de um amplo estudo canadense publicado na revista Jama Network Open, que acompanhou meninas e meninos por mais de uma década e analisou a relação entre exposição precoce a conteúdo audiovisual e resultados em testes padronizados aplicados no 3º e no 6º ano da escola.
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A pesquisa, conduzida por cientistas da rede TARGet Kids!, vinculada a centros de atenção primária em Ontário, no Canadá, incluiu 3.322 crianças com dados disponíveis para o 3º ano e 2.084 para o 6º. O tempo de tela foi medido, em média, aos 5,5 anos (para quem fez o teste no 3º ano) e aos 7,5 anos (para o 6º ano).
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Após ajuste para fatores como renda familiar, escolaridade materna e ano da prova, os pesquisadores encontraram um padrão consistente. Cada hora a mais do dia em frente às telas esteve associada a uma redução de 9% a 10% nas chances de a criança alcançar um nível mais alto de desempenho em leitura e matemática no 3º ano e em matemática no 6º.
Cotidiano
"O tempo gasto em frente às telas faz parte do cotidiano da maioria das famílias", comenta Catherine Birken, autora principal, pediatra e cientista senior do programa de Ciências Avaliativas da Saúde Infantil do Hospital SickKids, em Ontário. "Altos níveis de exposição, principalmente à TV e às mídias digitais, podem ter um impacto mensurável no desempenho acadêmico das crianças."
Uma das constatações que chamaram atenção foi a relação entre videogames e desempenho escolar. No conjunto da amostra, o uso de jogos eletrônicos esteve associado a piores notas em leitura no 3º ano. Quando os dados foram analisados separadamente por sexo, surgiu uma diferença que chamou a atenção dos pesquisadores: entre meninas, a atividade relacionou-se a notas mais baixas tanto em leitura quanto em matemática. Isso não foi observado em relação aos meninos.
Os autores ressaltam que a maioria das crianças avaliadas era muito jovem no momento da medição do tempo de tela, e o uso de videogames ainda era relativamente baixo, o que pode limitar a interpretação dos resultados. Além disso, o estudo não detalhou o tipo de jogo, o conteúdo ou o contexto de uso.
"A primeira infância é um período crítico de formação de hábitos. Padrões de uso de telas estabelecidos cedo tendem a persistir ao longo da vida", diz Catherine Birken. A pesquisadora destaca que o tempo dedicado aos eletrônicos pode substituir atividades essenciais ao desenvolvimento cognitivo e acadêmico, como leitura compartilhada, brincadeiras e interação social.
A psicopedagoga Luciana Brites, do Instituto NeuroSaber, no Paraná, ressalta que, além da cognição, nessa fase, a exposição a telas também pode prejudicar o desenvolvimento motor. "O aumento do uso de tablets e celulares reduz o tempo de brincadeiras físicas. Por esse motivo, temos notado que muitas crianças estão perdendo habilidades motoras. Essas habilidades são fundamentais na infância e impactam desde tarefas simples, como escrever, até a prática de esportes", ressalta. Mestre e doutoranda em distúrbios do desenvolvimento, Brites esclarece que o período ideal para trabalhar a coordenação motora global é a primeira infância.
Sono
No artigo canadense, os pesquisadores argumentam que um dos possíveis componentes da associação entre tempo de tela e pior desempenho acadêmico é o impacto do uso dos audiovisuais no sono. "A luz azul emitida por esses dispositivos inibe a liberação da melatonina, hormônio fundamental para sinalizar ao organismo que é hora de dormir", explica Lucas Padial, especialista em distúrbios do sono do Hospital Paulista, em São Paulo. "Além disso, o conteúdo das telas — como jogos, vídeos curtos e séries — estimula a liberação de neurotransmissores ligados à recompensa e à excitação, o oposto do que o corpo precisa para relaxar. O resultado é um sono mais tardio, fragmentado e de pior qualidade, o que impacta diretamente o desempenho escolar no dia seguinte."
Para os autores do estudo publicado na revista Jama, as constatações da pesquisa reforçam a necessidade de intervenções precoces para promover hábitos saudáveis de uso de telas. Eles destacam que diversas diretrizes atuais já recomendam limites diários de exposição e, cada vez mais, enfatizam não apenas a duração, mas também a qualidade e o contexto do conteúdo consumido.
Desenvolvimento
Estudos anteriores já haviam demonstrado que o uso precoce de telas repercute além da infância e pode impactar no desenvolvimento do cérebro. Um artigo publicado no ano passado na revista The Lancet com crianças de 4 a 7 anos mostrou que, entre aquelas mais expostas ao conteúdo audiovisual, foram identificadas alterações nas redes associadas à tomada de decisão. "A tela precoce não é inócua. O cérebro em formação é altamente sensível aos estímulos do ambiente, e o excesso de telas nessa fase pode levar a mudanças que não são facilmente revertidas", explica a pediatra Anna Dominguez Bohn, de São Paulo.
A médica cita outra pesquisa, divulgada na Elsevier, que acompanhou mais de 2 mil crianças entre 3 e 5 anos, avaliando o impacto do tempo de tela sobre funções executivas, como foco, atenção, autocontrole e capacidade de organização emocional. Os pesquisadores descobriram que, quanto maior a dedicação a computador, celular, tablet e TV, piores os indicadores cognitivos. "Não é algo que dá para compensar mais tarde. O cérebro infantil ainda não tem capacidade de se autorregular diante da tecnologia. Quem define o tempo de tela são os adultos e o ambiente", destaca Anna Dominguez Bohn.
