SAÚDE MENTAL

Mitos e verdades: especialista detalha a síndrome de Tourette

Síndrome de Tourette voltou ao debate após polêmica no BAFTA. Psicóloga Anna Liberato explica que o preconceito e a desinformação ainda são os maiores obstáculos para o convívio social e o tratamento dos pacientes

Movimentos repetitivos, sons involuntários e palavras ditas sem controle. Já imaginou estar tranquilo e, de repente, piscar excessivamente, fazer um gesto brusco ou até xingar alguém sem querer? Os sintomas englobam a condição da síndrome de Tourette.

Trata-se de um transtorno neuropsiquiátrico crônico, caracterizado por múltiplos tiques motores e vocais, que surgem na infância, geralmente antes dos 18 anos. Estudos indicam que cerca de 1 a cada 162 crianças podem apresentar a síndrome, sendo assim, é considerada uma condição rara e cercada de desinformação.

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A condição voltou aos holofotes após John Davidson — diagnosticado com síndrome de Tourette aos 25 anos e cuja história inspirou o filme I Swear — ter gritado termos racistas durante a 79ª cerimônia do British Academy Film Awards (BAFTA).

A psicóloga Anna Liberato, pós-graduada em psicanálise, saúde coletiva, comunitária e neuropsicologia, explica que a síndrome vai muito além do que costuma aparecer na mídia. 

Mitos X Verdades

  • Pessoas com Tourette xingam o tempo todo? Mito.

    A coprolalia (falar palavrões involuntariamente) ocorre apenas em uma minoria dos casos. A maioria apresenta tiques motores (piscar, movimentos faciais) e ou vocais (pigarrear, repetir sons).

  • As palavras ditas são “pensamentos soltos”? Mito.

    Os tiques não são expressão inconsciente ou desejos reprimidos, mas manifestações neurológicas involuntárias ligadas a alterações nos circuitos cerebrais.

  • A pessoa pode parar se quiser? Mito.

    A supressão é limitada e desgastante. Segurar o tique gera forte tensão interna, como uma pressão que precisa ser liberada.

  • A síndrome é causada por trauma ou criação dos pais? Mito.

    A origem é neurobiológica, não relacionada a traumas ou falhas parentais.

  • A pessoa não pode ter vida normal? Mito.

    Com acompanhamento adequado, pessoas com Tourette estudam, trabalham e têm vida social ativa. O maior obstáculo costuma ser o preconceito.

  • A pessoa sente o tique antes de acontecer? Verdade.

    Muitos relatam uma sensação premonitória, como tensão ou coceira, que só melhora após o tique.

  • Os tiques pioram com estresse? Verdade.

    Estresse, ansiedade e cansaço intensificam os sintomas, por isso o manejo emocional é essencial.

Tratamento 

A Síndrome de Tourette não tem cura, mas tem tratamento e manejo eficaz, com foco na redução do sofrimento e no impacto funcional dos sintomas. O acompanhamento é individualizado e depende da intensidade dos tiques e do quanto interferem na vida social, acadêmica ou profissional da pessoa. 

  • Psicoterapia: identificação das sensações que antecedem os tiques, estratégias de manejo, regulação emocional, redução da ansiedade e enfrentamento do estigma social
  • Acompanhamento médico: em casos moderados ou graves, pode haver indicação de apoio psiquiátrico, especialmente quando há comorbidades como TDAH ou TOC.
  • Psicoeducação: orientar família, escola e ambiente de trabalho é fundamental para diminuir cobranças e preconceito.

Sobre o episódio no BAFTA, Anna explica que os termos racistas utilizados estão relacionados à coprolalia, sintoma presente apenas em uma minoria dos casos de Tourette. Quando ocorre, não reflete intenção, opinião ou posicionamento moral da pessoa.

“A síndrome de Tourette não é visível, o que pode levar quem presencia um episódio a interpretar as manifestações como ofensas intencionais. Embora seja compreensível que palavras ofensivas causem impacto. O ponto central é a importância da informação e da empatia, lembrando que nem todo comportamento resulta de uma escolha consciente", explica a especialista.

Segundo a especialista, pessoas com Tourette podem estudar, trabalhar, ocupar espaços públicos e exercer suas profissões plenamente. O maior obstáculo, na maioria das vezes, não é a síndrome em si, mas o preconceito e a desinformação.

*Estagiária sob supervisão de Ronayre Nunes

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