ESTUDO

Vacina nasal experimental mostra proteção ampla em teste em estudo

Imunizante experimental protegeu contra vírus, bactérias e alérgeno por ao menos três meses; estudo foi publicado na revista Science

Estudo aponta efeito amplo de vacina nasal experimental -  (crédito: Freepik)
Estudo aponta efeito amplo de vacina nasal experimental - (crédito: Freepik)

Um estudo publicado no último dia 19 na revista Science descreve uma vacina experimental em spray nasal que demonstrou proteção ampla contra vírus, bactérias e um alérgeno comum em testes realizados com camundongos. Apesar dos resultados promissores, o imunizante ainda precisa passar por estudos clínicos em humanos para que sua segurança e eficácia sejam comprovadas.

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A pesquisa investigou a possibilidade de desenvolver uma vacina capaz de oferecer proteção contra diferentes ameaças respiratórias, incluindo vírus, bactérias causadoras de doenças e alérgenos. Diferentemente das vacinas tradicionais, que treinam o sistema imunológico a reconhecer um antígeno específico, como uma proteína presente na superfície de um vírus, o novo imunizante também estimula a chamada imunidade inata, considerada a primeira linha de defesa do organismo.

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Em geral, vacinas convencionais induzem uma resposta robusta, mas direcionada a um alvo específico. Essa estratégia pode perder eficácia caso o antígeno sofra mutações ao longo do tempo. Alguns pesquisadores buscam contornar esse problema ao desenvolver vacinas que atinjam antígenos “altamente conservados”, comuns a diferentes variantes de um vírus, como ocorre em estudos voltados para influenza e coronavírus.

No caso da nova formulação, a proposta foi ampliar a resposta imunológica ao ativar simultaneamente os sistemas inato e adaptativo. “O notável do sistema inato é que ele pode proteger contra uma ampla gama de microrganismos”, afirmou o autor sênior do estudo, Bali Pulendran, professor de microbiologia e imunologia da Escola de Medicina da Universidade Stanford, em comunicado.

A ideia de estimular ambas as frentes do sistema imunológico não é inédita. A vacina contra a tuberculose Bacillus Calmette-Guérin (BCG), por exemplo, é conhecida por induzir esse tipo de resposta. Durante os primeiros meses da pandemia de Covid-19, pesquisadores investigaram se a BCG poderia oferecer proteção mais ampla contra o novo coronavírus.

Pulendran e sua equipe já haviam estudado a BCG em camundongos e observaram que o imunizante levava células imunológicas nos pulmões a liberar sinais específicos. Esses sinais mantinham células da imunidade inata ativas por meses, em vez de apenas alguns dias.

A nova vacina nasal foi desenvolvida para mimetizar esses sinais. A formulação utiliza uma combinação lipossomal com ligantes dos receptores e inclui a ovalbumina — uma proteína do ovo considerada inofensiva — como antígeno modelo, ajudando a recrutar as células imunológicas adequadas para os pulmões.

Nos experimentos, camundongos receberam três doses do imunizante ao longo de três semanas. Segundo os pesquisadores, os animais apresentaram proteção por pelo menos três meses contra o SARS-CoV-2 (vírus causador da Covid-19), outros coronavírus, as bactérias Staphylococcus aureus e Acinetobacter baumannii, além de um alérgeno derivado de ácaros da poeira doméstica.

De acordo com o estudo, a proteção foi mediada por células T de memória CD4+ e CD8+ específicas para ovalbumina, que influenciaram macrófagos alveolares e aprimoraram a apresentação de antígenos e a resposta antiviral. Após a exposição aos agentes infecciosos ou ao alérgeno, os camundongos vacinados apresentaram resposta rápida de células T e produção de anticorpos, além da formação de estruturas linfoides nos pulmões.

Em comparação, animais não vacinados tiveram inflamação pulmonar mais intensa, maior perda de peso e maior risco de morte quando expostos a vírus e bactérias. No caso do alérgeno, apresentaram reações alérgicas mais acentuadas e maior acúmulo de muco.

Os autores ressaltam, contudo, que os testes foram realizados exclusivamente em modelos animais. “Se, ao final, ela se mostrar segura e eficaz em humanos, o impacto potencial pode ser transformador, simplificando a vacinação sazonal e melhorando a preparação para novas ameaças respiratórias”, declarou Pulendran ao site Genetic Engineering and Biotechnology News. Segundo comunicado da Universidade Stanford, o pesquisador avalia que duas doses possam ser suficientes para proteção em pessoas.

Os resultados apontam para uma possível nova classe de vacinas com potencial de proteção ampla contra diferentes ameaças respiratórias. Ainda assim, a aplicação clínica dependerá de estudos adicionais em humanos.

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postado em 24/02/2026 13:06
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