
A ciência deu um passo decisivo para entender por que a cetamina consegue aliviar rapidamente sintomas de depressão em pacientes que não respondem aos tratamentos tradicionais. Um estudo publicado nesta quinta-feira (5/3) na revista científica Molecular Psychiatry revelou, pela primeira vez em humanos, o mecanismo molecular que explica o efeito antidepressivo da substância.
A pesquisa foi conduzida por uma equipe liderada pelo fisiologista Takuya Takahashi, da Yokohama City University Graduate School of Medicine, no Japão, com colaboração de cientistas da Keio University School of Medicine. O trabalho utilizou uma técnica avançada de imagem cerebral para observar mudanças moleculares no cérebro de pacientes com depressão resistente ao tratamento.
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A descoberta ajuda a preencher uma lacuna que há anos intrigava a psiquiatria. Embora a cetamina já seja conhecida por produzir efeitos antidepressivos rápidos, o funcionamento exato desse processo no cérebro humano ainda não havia sido comprovado diretamente.
Segundo a equipe japonesa, a chave está em proteínas chamadas receptores AMPA, estruturas responsáveis por facilitar a comunicação entre neurônios e que desempenham papel fundamental na plasticidade cerebral.
Para investigar o fenômeno, os pesquisadores utilizaram tomografia por emissão de pósitrons, conhecida como PET, com um traçador desenvolvido pela própria equipe. Essa tecnologia permite visualizar em tempo real, a distribuição dos receptores AMPA na superfície das células do cérebro humano vivo.
O estudo reuniu dados de três ensaios clínicos realizados no Japão. Participaram 34 pacientes diagnosticados com depressão resistente ao tratamento e 49 voluntários saudáveis que serviram como grupo de comparação. Durante duas semanas, os pacientes receberam infusões intravenosas de cetamina ou placebo, enquanto exames de imagem eram realizados antes e depois do tratamento.
Os resultados mostraram que pessoas com depressão resistente apresentam alterações na densidade dos receptores AMPA em diferentes regiões do cérebro. Após o tratamento com cetamina, essas estruturas passaram por mudanças específicas que estavam diretamente associadas à melhora dos sintomas.
A pesquisa observou aumento da densidade dos receptores em áreas corticais ligadas ao processamento cognitivo e emocional, enquanto regiões associadas ao sistema de recompensa, especialmente a habenula, uma pequena estrutura do diencéfalo que funciona como um “ponto central” entre áreas emocionais e o tronco cerebral, apresentaram redução dessa atividade. Essa modulação regional foi correlacionada com a diminuição dos sintomas depressivos.
De acordo com Takahashi, os resultados confirmam que a ação antidepressiva da cetamina está relacionada a mudanças dinâmicas nesses receptores. Segundo o pesquisador, a equipe conseguiu visualizar como a substância altera a distribuição dos receptores AMPA em regiões específicas do cérebro e como essas alterações acompanham a melhora clínica dos pacientes.
A descoberta é considerada relevante porque cerca de 30% das pessoas com depressão maior desenvolvem a chamada depressão resistente ao tratamento, condição em que os antidepressivos convencionais não produzem efeito satisfatório. Nesses casos, opções terapêuticas eficazes ainda são limitadas.
O estudo também abre caminho para avanços na medicina personalizada. Os pesquisadores indicam que exames de imagem focados nesses receptores podem se tornar biomarcadores capazes de prever quais pacientes têm maior probabilidade de responder ao tratamento.
Especialistas apontam que compreender esse mecanismo também pode acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos com ação semelhante, mas potencialmente mais seguros e direcionados.
Ao demonstrar em humanos a ligação direta entre a modulação dos receptores AMPA e a melhora da depressão, o estudo aproxima descobertas da pesquisa básica das aplicações clínicas e pode ajudar a redefinir o futuro do tratamento da depressão.
* Estagiária sob supervisão de Roberto Fonseca

Ciência e Saúde
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