
A composição da comunidade de bactérias que habitam o intestino pode ser afetada por até oito anos depois do tratamento com antibióticos, segundo um estudo publicado na revista Nature Medicine. A consequência de um desequilíbrio de longo prazo na microbiota vai desde uma diarreia a risco aumentado de condições como diabetes 2, alertam os autores, da Universidade de Uppsala, na Suécia.
- Grafeno ajuda a regenerar até 90% de ossos fraturados, mostra pesquisa
- 'Passei de me sentir sozinha 24 horas por dia a nunca mais estar só': as mulheres que escolheram viver com outras mulheres ao envelhecer
Embora salvem vidas em graves infecções, antibióticos usados em excesso já foram associados, em estudos epidemiológicos, ao desenvolvimento de doenças crônicas. As razões não são totalmente conhecidas, mas acredita-se que alterações no microbioma intestinal desempenhem um importante papel.
"A microbiota regula, em grande parte, a função imunológica. Por isso, a disbiose — alteração do equilíbrio da flora — pode levar ao aumento de inflamações sistêmicas, maior susceptibilidade a infecções e alteração da tolerância imunológica", explica Ana Clara Alves Costa, médica especialista em nutrição enteral e parenteral do Hospital Brasília. "Podem ainda acontecer consequências metabólicas como maior risco de resistência à insulina, alterações no metabolismo dos lipídios e doenças como obesidade, inflamações intestinais e alergias."
Segundo Gabriel Baldanzi, primeiro autor do estudo e ex-aluno de doutorado da Universidade de Uppsala, essas associações levantam questões importantes sobre o impacto dos antibióticos a longo prazo no microbioma intestinal. "Nós conhecemos o grande impacto a curto prazo, mas a duração dessas alterações ainda era incerta", conta. O resultado da pesquisa, porém, mostra que mesmo um único ciclo de tratamento com essa classe de medicamentos pode deixar marcas no organismo.
"Podemos ver que o uso de antibióticos quatro ou oito anos atrás está ligado à composição do microbioma intestinal de uma pessoa hoje. Mesmo um único tratamento com certos tipos de antibióticos deixa vestígios", afirma Baldanzi. O pesquisador diz que, na Suécia, apesar das regras rigorosas de prescrição e venda, o uso desses medicamentos é alto. No Brasil, o consumo sistêmico de antibióticos vem aumentando desde 2014, segundo um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ). A pesquisa constatou que, em seis anos, mais de 4,5 trilhões de doses foram consumidas no país.
Registros
No estudo sueco, os pesquisadores analisaram dados de registros de medicamentos juntamente com um mapeamento detalhado do microbioma intestinal de 14.979 adultos residentes no país nórdico. A composição da flora foi comparada entre participantes que receberam diferentes tipos de antibióticos e aqueles que não receberam nenhum durante o período analisado.
Baldanzi esclarece que o estudo foi possível graças ao abrangente registro de medicamentos prescritos da Suécia, que contém informações sobre todos os antibióticos vendidos em farmácias. Os pesquisadores conseguiram, então, vincular esses dados a biobancos suecos nas universidades de Uppsala e Lund, que contêm dados sobre o microbioma intestinal.
Os pesquisadores descobriram que os resultados variavam bastante, dependendo do tipo de antibiótico utilizado. As associações mais fortes foram observadas para clindamicina, fluoroquinolonas e flucloxacilina. Em contrapartida, a penicilina V foi relacionada a alterações pequenas e de curta duração no microbioma. "A forte ligação entre a flucloxacilina de espectro restrito e o microbioma intestinal foi inesperada, e gostaríamos de ver essa descoberta confirmada em outros estudos", afirmou, em nota, Tove Fall, professora de epidemiologia molecular da Universidade de Uppsala. "No entanto, acreditamos que os resultados do nosso estudo podem ajudar a fundamentar futuras recomendações sobre o uso de antibióticos, especialmente na escolha entre dois antibióticos igualmente eficazes, sendo que um deles tem um impacto menor no microbioma intestinal."
Os pesquisadores reconhecem que o estudo se refere a prescrições apenas dos últimos oito anos e que um período de acompanhamento mais longo forneceria informações mais conclusivas. Outra limitação é que a microbiota intestinal foi amostrada apenas uma vez por participante. "Atualmente, estamos coletando uma segunda amostra de quase metade dos participantes", afirma Fall. "Isso nos permitirá compreender ainda melhor o tempo de recuperação e identificar quais microbiotas intestinais são mais suscetíveis a alterações após o tratamento com antibióticos."
A médica reumatologista Sylvana Braga, pós-graduada em fisiatria ortomolecular pela Pontifícia Universidade Católica, observa que algumas estratégias podem ajudar a restaurar a microbiota após o tratamento com antibióticos. "A principal é a iniciação da dieta para restaurar a microbiota intestinal evitando frituras, carnes gordurosas, álcool e ultraprocessados, como enlatados, embutidos e refrigerantes." Ela recomenda iniciar o regime alimentar com fibras, carnes brancas magras, cereais integrais, legumes e folhas cozidas, evitando frutas cítricas.
"Antibióticos devem ser sempre utilizados com cautela, na menor duração eficaz e com espectro mais estreito possível", destaca Ana Clara Alves Costa, do Hospital Brasília. "Uma vida saudável, baseada em alimentação rica em alimentos naturais e bem diversificada, além do contato com microbiota ambiental, como contato com solo e animais, podem favorecer o aumento da diversidade dessa microbiota."
Saiba Mais
Três perguntas para Danilo Munhóz, coloproctologista da clínica Primazo
Como os antibióticos alteram o equilíbrio da microbiota intestinal?
Os antibióticos são fundamentais quando bem indicados, porque salvam vidas e tratam infecções bacterianas importantes. O problema é que eles não atingem apenas a bactéria causadora da infecção. Muitas vezes, acabam reduzindo também bactérias benéficas que vivem no intestino e ajudam a manter o equilíbrio da microbiota. Com isso, o intestino perde diversidade bacteriana, que é justamente um dos sinais de um ecossistema intestinal mais saudável e estável. Na prática, isso pode trazer consequências digestivas bem concretas, como diarreia, distensão abdominal, alteração do ritmo intestinal e maior vulnerabilidade a infecções oportunistas, especialmente por C. difficile, que pode causar colite importante.
As alterações na microbiota são sempre temporárias?
Nem sempre. Em muitos pacientes, a microbiota consegue se reorganizar ao longo de semanas ou meses, pelo menos em parte. Mas hoje já sabemos que essa recuperação não é igual para todo mundo. Há casos em que a composição intestinal volta perto do que era antes, e há casos em que a recuperação é incompleta, com perda persistente de algumas espécies e mudança mais duradoura no ecossistema intestinal. Estudos anteriores já mostravam que, mesmo quando a microbiota começa a se recompor após o fim do antibiótico, esse retorno pode ser incompleto e bastante variável entre as pessoas.
Quais fatores determinam a recuperação da diversidade bacteriana?
A recuperação depende de vários fatores. O primeiro é o próprio antibiótico, qual foi usado, se era de amplo espectro, por quanto tempo, em que dose, e quantos ciclos a pessoa recebeu ao longo da vida recente. O segundo ponto é o terreno onde esse antibiótico age. Cada pessoa parte de uma microbiota diferente. Estudos mostram que a resposta aos antibióticos é bastante personalizada e depende do perfil da microbiota antes do tratamento. Também entram nessa conta fatores como alimentação, especialmente ingestão de fibras, idade, imunidade, doenças associadas e até o ambiente ao redor, porque a recuperação da microbiota também depende da capacidade de recolonização por bactérias benéficas. Quanto melhor o estado geral do paciente, mais equilibrada a microbiota de base e mais adequado o estilo de vida, maior a chance de recuperação. Mas essa recuperação nem sempre é completa, e é por isso que, como coloproctologista, eu sempre reforço: antibiótico é remédio sério, importante e muitas vezes indispensável, mas precisa ser usado com critério. (PO)

Economia
Cidades DF
Esportes