
Durante décadas, o centro da Via Láctea permaneceu praticamente invisível para os astrônomos devido a densas nuvens de poeira cósmica que impedem a observação com telescópios comuns. Agora, cientistas conseguiram atravessar essa barreira e produzir a imagem mais detalhada do chamado “coração” da galáxia.
O retrato foi obtido por meio do projeto ALMA CMZ Exploration Survey (confira na íntegra), um levantamento internacional que utilizou o Atacama Large Millimeter/submillimeter Array, conjunto de radiotelescópios localizado no deserto do Atacama, no Chile.
O resultado é um mapa gigantesco que revela, com um nível de detalhe inédito, os cerca de 326 anos luz mais centrais da galáxia. A imagem permite observar desde enormes nuvens de gás até pequenas regiões onde novas estrelas podem surgir.
Uma das principais descobertas está ligada a um antigo mistério da astronomia. O centro da Via Láctea possui enormes quantidades de gás, que é o principal ingrediente para a formação de estrelas. Mesmo assim, poucas estrelas estão nascendo ali.
O novo mapa mostra que o ambiente no núcleo da galáxia é extremamente turbulento. O gás se move de forma caótica, sob forte influência de radiação e campos magnéticos. Esse cenário pode dificultar o colapso do material necessário para o nascimento de novas estrelas.
No centro dessa região está o buraco negro supermassivo SagittariusA*, cuja enorme gravidade influencia toda a dinâmica do local.
Uma nuvem que não forma estrelas
A imagem também revelou detalhes de uma nuvem molecular conhecida como G0.253+0.016, apelidada de “O Tijolo”. Essa nuvem é uma das mais densas da galáxia e possui massa suficiente para formar milhares de estrelas. Mesmo assim, quase nenhuma estrela está surgindo ali no momento.
Para os cientistas, entender por que essa nuvem permanece praticamente “inativa” pode ajudar a explicar como a formação de estrelas acontece em ambientes extremos. Outro detalhe curioso é um objeto extremamente compacto que emite sinais de rádio incomuns. Ele recebeu o apelido de MUBLO, sigla em inglês para Millimeter Ultra Broad Line Object. O fenômeno apresenta características que não se encaixam perfeitamente em nenhum modelo conhecido. Os pesquisadores ainda investigam o que pode estar por trás desse comportamento.
O mapa também identificou um grande anel de gás em expansão que pode ser o vestígio de uma hipernova. Esse tipo de explosão ocorre quando uma estrela muito massiva colapsa e libera uma quantidade elevada de energia.
Se confirmada, isso indicaria que eventos “extremamente violentos” já aconteceram no coração da Via Láctea.
Um novo mapa do centro da galáxia
Além dessas descobertas, o levantamento também ajudou os cientistas a entender melhor a estrutura da região central da galáxia. A imagem mostra enormes correntes e braços de gás orbitando o núcleo galáctico, algo que antes aparecia apenas como um emaranhado confuso nas observações.
Para os pesquisadores, o novo mapa representa um avanço importante para compreender como funcionam as regiões mais extremas das galáxias. Estudar o centro da Via Láctea também ajuda a entender o passado do universo, já que ambientes semelhantes eram comuns em galáxias jovens bilhões de anos atrás, afirmam os cientistas.
*Estagiária sob supervisão de Ronayre Nunes

Ciência e Saúde
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