SAÚDE

A doença transmitida pela água que ameaça todos nós

O médico infectologista Fernando Silveira explicou ao Correio que a doença, muitas vezes subnotificada e confundida com diarreias comuns, representa risco grave para crianças e idosos

Especialista alerta para os riscos da Shigelose em cenários de saneamento precário e a importância do diagnóstico precoce para evitar complicações graves -  (crédito: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
Especialista alerta para os riscos da Shigelose em cenários de saneamento precário e a importância do diagnóstico precoce para evitar complicações graves - (crédito: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)

A água é essencial para a vida, porém esse recurso natural enfrenta um cenário crescente de escassez e riscos de contaminação. Mais do que nunca, é preciso atenção à sua origem e qualidade, já que sem o cuidado adequado, doenças podem ser transmitidas através do consumo. Uma das bactérias que atinge o recurso é a Shigella.

A bactéria desencadeia uma doença chamada de ShigeloseEm um cenário de mudanças climáticas e saneamento básico precário, o Dr. Fernando Silveira, infectologista e Coordenador da Infectologia do Grupo Mantevida, explica ao Correio como a contaminação pode ameaçar a saúde pública.

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Apesar da gravidade, a shigelose vive à sombra de outras enfermidades. Muitas vezes os sintomas da doença são confundidos, tornando o registro subnotificado no Brasil. Segundo o Dr. Fernando, muitos casos leves sequer chegam aos consultórios ou acabam "diluídos" nas estatísticas gerais de diarreias infecciosas.

O Perigo Além do "Mal-Estar"

Embora qualquer pessoa possa se infectar, o Dr. Fernando destaca que o grupo de risco é bem definido: crianças pequenas, idosos e imunossuprimidos — pessoas com o sistema imunológico enfraquecido. O contágio ocorre principalmente em locais com higiene precária. Segundo o médico, é necessário ficar atento se a diarreia vir acompanhade de:

  •  Febre alta;
  •  Presença de sangue ou muco nas fezes;
  •  Sinais de desidratação (boca seca, fraqueza extrema e redução da urina);
  •  Persistência dos sintomas por mais de 48 a 72 horas.

"Não é só a frequência das evacuações que importa, mas o estado geral do paciente. Esses sinais sugerem uma infecção bacteriana que pode evoluir com gravidade", pontua o médico.

O Dr. Fernando lista falhas comuns como a falta de lavagem das mãos após o uso do banheiro e a contaminação cruzada, como utilizar a mesma faca ou tábua para cortar carne crua e, logo em seguida, preparar uma salada.

Somado a isso, o Brasil enfrenta o desafio dos eventos climáticos extremos. Enchentes e falhas no abastecimento facilitam a contaminação da água por resíduos fecais, que é a principal via de transmissão da bactéria Shigella.

Um ponto que preocupa a comunidade médica é a resistência bacteriana já que existem variações genéticas da Shigella no Brasil que não respondem aos antibióticos comuns. "O país tem protocolos para tratar a doença, mas o uso inadequado de medicamentos e a desigualdade no acesso ao diagnóstico dificultam o combate. Estamos parcialmente preparados, mas a vigilância precisa ser contínua", alerta o infectologista.

Prevenção simples 

A solução mais eficaz é a mais antiga e a mais óbvia: higiene rigorosa das mãos. O médico explica que em ambientes coletivos, como creches e escolas, o cuidado deve ser redobrado, já que o contato fecal-oral entre crianças é o principal motor de surtos.

Educação sanitária, acesso a saneamento básico e o hábito de lavar as mãos antes de comer são as barreiras definitivas contra uma doença que, em pleno século 21, ainda não deveria fazer parte do nosso cotidiano.

*Estagiária sob supervisão de Luiz Felipe

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postado em 25/03/2026 14:42 / atualizado em 25/03/2026 14:47
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