EXPLORAÇÃO ESPACIAL

Por que ainda não achamos aliens? Novo estudo revela o motivo

Cientistas descobrem "guardião oculto" que distorce sinais de rádio antes que eles saiam de seus sistemas solares, tornando-os invisíveis para nós

Um estudo publicado no The Astrophysical Journal, nesta segunda-feira (9/3), elenca uma série de motivos para o silêncio existente até agora na busca por sinais de civilizações extraterrestres. Segundo a pesquisa Dispersão Exo-IPM como um guardião oculto de tecnoassinaturas de banda estreita, o espaço ao redor de estrelas ajuda a distorcer sinais de rádio antes que eles escapem de seus sistemas planetários, dificultando a detecção por telescópios na Terra.

Os cientistas Vishal Gajjar, do Instituto Seti, e Grayce C. Brown, da Universidade Berkeley (Califórnia, Estados Unidos), identificaram esse efeito no chamado Meio Interplanetário Exoplanetário (Exo-IPM). Trata-se do ambiente formado por partículas e campos magnéticos liberados pelas estrelas, principalmente por meio de ventos estelares e grandes explosões conhecidas como ejeções de massa coronal.

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Esse meio turbulento pode alterar sinais de rádio produzidos por possíveis tecnologias alienígenas, reduzindo a chance de serem detectados.

O problema do “alargamento” dos sinais

Há mais de 60 anos, a busca por inteligência extraterrestre, conhecida como SETI, procura principalmente sinais de rádio extremamente estreitos, com largura inferior a 1 hertz. Esse tipo de sinal é considerado artificial porque raramente ocorre de forma natural no universo.

O novo estudo mostra que a turbulência no ambiente ao redor das estrelas pode modificar esses sinais. O processo, chamado alargamento espectral, espalha a energia do sinal por uma faixa maior de frequências.

Na prática, o sinal chega mais fraco para os instrumentos de detecção. Um sinal originalmente concentrado pode perder grande parte da intensidade ao se espalhar.

Simulações indicam que um sinal que se alarga para 10 hertz mantém apenas cerca de 6% da força original, o que representa uma redução de 94% na intensidade detectável.

Simulação com um milhão de estrelas

Para medir a dimensão do problema, os pesquisadores realizaram simulações de Monte Carlo com 1 milhão de estrelas próximas. Cerca de 25% eram semelhantes ao Sol e 75% eram anãs M, um tipo de estrela menor e mais comum na nossa galáxia.

Os resultados indicam que, na frequência de 1 gigahertz, cerca de 70% dos sistemas estelares produzem alargamento superior a 1 hertz. Mais de 30% podem ampliar o sinal para além de 10 hertz.

Em frequências mais baixas, como 100 megahertz, o efeito é ainda mais intenso. Nesse caso, 90% dos sistemas apresentam algum grau de alargamento e mais de 60% ultrapassam 100 hertz, tornando os sinais praticamente invisíveis para os métodos atuais de busca.

Estrelas mais comuns são as mais turbulentas

O impacto é especialmente relevante nas anãs M, que representam cerca de 75% das estrelas da Via Láctea e são consideradas alvos prioritários na busca por vida fora da Terra.

Essas estrelas podem ter ventos estelares até oito vezes mais rápidos que o vento solar, chegando a velocidades próximas de 3.200 quilômetros por segundo.

Além disso, a turbulência no plasma ao redor dessas estrelas pode ser de 0,3 a 150 vezes mais intensa do que no ambiente do nosso Sol. Outro fator é a proximidade da zona habitável, região onde um planeta pode ter água líquida.

Nesses sistemas, os planetas potencialmente habitáveis ficam muito próximos da estrela, geralmente entre 10 e 100 raios estelares, o que faz com que qualquer sinal de rádio precise atravessar a parte mais turbulenta do espaço local.

Explosões estelares podem ampliar ainda mais o efeito

Eventos extremos também podem distorcer sinais. As chamadas ejeções de massa coronal, grandes explosões de plasma das estrelas, podem aumentar o alargamento espectral em mais de mil hertz.

Apesar de a chance de um sinal atravessar uma dessas explosões durante uma observação ser relativamente baixa, inferior a 3%, quando isso ocorre o efeito pode ser suficiente para impedir completamente a detecção.

Essas explosões podem lançar material a velocidades entre 80 e 2.300 quilômetros por segundo, criando ambientes altamente turbulentos.

Uma possível explicação para o “Grande silêncio”

Os resultados sugerem que a ausência de sinais detectados até hoje, conhecida como “Grande silêncio”, pode não significar necessariamente que civilizações tecnológicas não existam.

Segundo o estudo, parte dos sinais pode simplesmente estar sendo distorcida antes de deixar seus sistemas planetários, tornando-se invisível para os algoritmos atuais, que procuram sinais extremamente estreitos.

Novas estratégias de busca

Os pesquisadores sugerem que futuras buscas por sinais extraterrestres adotem métodos de detecção mais flexíveis, capazes de identificar sinais mais largos.

Uma das recomendações é o uso de algoritmos que considerem diferentes graus de alargamento e variações de frequência causadas pelo movimento dos planetas e estrelas.

Instrumentos da próxima geração, como o radiotelescópio SKA-Low, podem aplicar essas estratégias para ampliar a sensibilidade das buscas.

Se confirmada, a descoberta indica que a dificuldade em encontrar sinais de outras civilizações pode estar menos relacionada à ausência de transmissões e mais às limitações das técnicas usadas para procurá-las.

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