DEFESA DO PLANETA

Cerrado é grande 'armazém' de carbono

Bioma dá imensa ajuda para o combate ao aquecimento global ao segurar cerca de 1.200 toneladas métricas do gás por hectare. Esse número é cerca de seis vezes superior à densidade média de carbono na biomassa da Floresta Amazônica

Um estudo liderado por cientistas brasileiros e publicado ontem na revista New Phytologist revela que um dos maiores ecossistemas de armazenamento de carbono da América do Sul está localizado no Cerrado brasileiro. O trabalho é a primeira avaliação aprofundada dos estoques do gás nas regiões alagadas do bioma, conhecidas localmente como campos úmidos e veredas. Esses sumidouros impedem que grandes quantidades de gás carbônico sejam soltas na atmosfera e agravem a crise climática.

As medições feitas pelos pesquisadores indicam que os solos turfosos dessas áreas alagadas armazenam cerca de 1.200 toneladas métricas de carbono por hectare. "Esse valor é cerca de seis vezes maior que a densidade média de carbono da biomassa na Floresta Amazônica", destaca Larissa Verona, cientista do Instituto Cary de Estudos de Ecossistemas, nos Estados Unidos, ex-aluna da Universidade Estadual de Campinas e líder do estudo.

O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupando 26% do território brasileiro. A savana mais biodiversa do mundo abriga papagaios, tucanos, pumas, antas, lobos-guará, tamanduás-bandeira e muitos outros animais, além de mais de 4 mil espécies de plantas nativas. Com base no mapeamento da distribuição potencial de áreas úmidas realizado pela equipe, estima-se que essas áreas possam armazenar o equivalente a cerca de 20% do carbono presente na vegetação amazônica.

Os solos turfosos e encharcados dessas nascentes são ricos em carbono proveniente de plantas parcialmente decompostas e outras matérias orgânicas. Segundo os cientistas, condições úmidas criam falta de oxigênio, o que retarda a decomposição. "Como resultado, a matéria orgânica se acumula ao longo do tempo, permitindo que esses pântanos armazenem grandes quantidades de carbono em seus solos, potencialmente por milhares de anos", destaca a coautora da pesquisa Amy Zanne, especialista do Instituto Cary de Estudos de Ecossistemas.

Excepcionalmente alta

Para medir a quantidade de carbono armazenada nos pântanos, os pesquisadores extraíram amostras de solo com até quatro metros de profundidade. A descoberta de uma densidade média de 1.200 toneladas métricas de carbono por hectare é considerada excepcionalmente alta. Conforme a equipe, as veredas e os campos úmidos estão dispersos em manchas relativamente pequenas por todo o Cerrado, o que dificulta estimar quanto carbono eles poderiam estar armazenando em escala regional. 

Dados de sensoriamento remoto combinados com aprendizado de máquina sugerem que as áreas úmidas podem cobrir 16,7 milhões de hectares, ocupando uma área pelo menos seis vezes maior do que se pensava anteriormente. Essa área representa aproximadamente 8% do Cerrado e 2% do Brasil. A equipe continua aprimorando seu mapeamento e estimativas. 

Ao Correio, Larissa Verona sublinha que as mudanças climáticas podem colocar em risco essa função do Cerrado, pois a manutenção desse carbono no solo depende das condições de alagamento. "Alterações na quantidade de chuva na região e mudanças no uso da terra que podem esgotar a água que sustenta esse sistema são uma grande ameaça. Caso a dinâmica hídrica das áreas úmidas seja alterada, esse solo pode se decompor, liberando esse carbono para a atmosfera na forma de CO? e contribuindo para a intensificação dos extremos climáticos."

Verona ainda destaca que grande parte das áreas úmidas do Cerrado continua desprotegida e passa por processos de drenagem ou barramento. "Além disso, o avanço do agronegócio, que tem uma alta demanda por irrigação, pode comprometer a manutenção da dinâmica da água. Precisamos reconhecer a importância desses ecossistemas tão valiosos para podermos encontrar caminhos possíveis para sua conservação."

Carbono antigo

Membros da equipe do Instituto Max Planck, na Alemanha, usaram uma técnica chamada datação por radiocarbono para determinar por quanto tempo o gás vinha tem se acumulado na região. A idade média do carbono era de 11.185 anos, mas parte dele estava depositada nos pântanos há mais de 20 mil anos.


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