SAÚDE

Doença do sono é decifrada após 40 anos e revela estratégia de parasita

Estudo liderado pela Universidade de York identifica mecanismo que permite ao parasita enganar o sistema imunológico e aponta novos caminhos para tratamento

Um enigma que atravessou gerações de cientistas acaba de ganhar uma resposta. Pesquisadores conseguiram explicar como o parasita responsável pela Doença do Sono consegue permanecer “invisível” dentro do corpo humano, escapando do sistema imunológico por longos períodos.

A descoberta foi liderada pela cientista Joana Faria, na Universidade de York, no Reino Unido, e publicada nesta terça-feira (30/3) na revista Nature Microbiology. O estudo identifica o papel de uma proteína chamada ESB2, peça-chave no mecanismo que garante a sobrevivência do parasita Trypanosoma brucei na corrente sanguínea.

Transmitida pela picada da mosca tsé-tsé, a Doença do Sono afeta principalmente populações da África subsaariana. Sem tratamento, a infecção pode atingir o sistema nervoso central, causando alterações neurológicas graves, distúrbios do sono, confusão mental e em casos mais avançados, levando ao coma e à morte.

O que sempre intrigou os pesquisadores foi a capacidade do parasita de escapar continuamente das defesas do organismo. Para isso, ele usa uma espécie de “disfarce biológico”, trocando constantemente as proteínas que cobrem sua superfície, dificultando o reconhecimento pelo sistema imunológico.

Mas havia uma contradição nesse processo que permanecia sem explicação há cerca de 40 anos. O parasita possui um conjunto de instruções genéticas que, em teoria, deveriam produzir diferentes tipos de proteínas em quantidades semelhantes. Porém, na prática, ele produz quase exclusivamente as proteínas que garantem sua camuflagem.

A nova pesquisa mostrou que o segredo não está apenas no que o parasita produz, mas no que ele elimina. A proteína ESB2 atua como um tipo de “filtro molecular”, apagando partes do próprio manual genético antes que sejam usadas. Com isso, apenas as instruções responsáveis pelo disfarce continuam ativas.

Esse processo acontece em tempo real, enquanto o material genético está sendo processado dentro da célula. Na prática, o parasita edita suas próprias instruções para garantir sua sobrevivência, mantendo-se sempre um passo à frente do sistema imunológico.

A descoberta não apenas resolve um mistério científico, como também abre novas possibilidades para o desenvolvimento de tratamentos. Os pesquisadores ao identificar esse ponto específico de funcionamento, passam a ter um alvo mais claro para tentar interromper o ciclo de infecção.

Além disso, o estudo sugere uma mudança na forma como a ciência entende a sobrevivência de microrganismos. Alguns organismos podem depender da capacidade de eliminar informações genéticas de forma estratégica. Embora ainda seja cedo para aplicação clínica, o avanço dá um passo importante no enfrentamento de uma doença que segue negligenciada em diversas regiões do mundo.

*Estagiária sob supervisão de Luiz Felipe

Mais Lidas