
A diferença entre o desempenho de leitura de meninos e meninas aumenta quando as escolas estão fechadas. A conclusão é de um estudo publicado recentemente na revista científica PNAS. Durante o trabalho, os pesquisadores acompanharam os hábitos de mais de 200 mil crianças dinamarquesas em idade escolar nas férias e nos períodos de confinamento da pandemia. Segundo os autores, garotas normalmente leem mais que garotos, e essa diferença aumenta quando não vão para a aula.
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Segundo a socióloga Ea Hoppe Blaabæk, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca , que conduziu o estudo, os resultados indicam que os garotos, em particular, dependem da estrutura fornecida pelas instituições de ensino para manter o hábito da leitura. "Nossos dados mostram claramente que os meninos perdem mais terreno do que as meninas quando as escolas estão fechadas. Isso se aplica tanto aos períodos de férias normais quanto aos lockdowns inesperados da covid", detalha.
"Em outras palavras, a escola desempenha um papel importante como uma estrutura padronizada que ajuda os meninos a ler. Quando essa estrutura desaparece, são os meninos que ficam mais para trás", completa a líder do estudo.
Para o estudo, os pesquisadores usaram uma base de dados nacional de empréstimos de livros em bibliotecas para 200.431 alunos do 3º ao 5º ano do ensino fundamental, bem como informações da utilização do aplicativo de leitura BookBites para 24.539 estudantes em 15 municípios dinamarqueses. Conforme os cientistas, essa análise fornece informações sobre o comportamento real das crianças e não apenas sobre o que elas dizem fazer quando questionadas. Eles descobriram, entre outras coisas, que as meninas geralmente passam mais tempo lendo no BookBites e pegam mais livros emprestados das bibliotecas do que os meninos.
Série de diferenças
Segundo Miguel Bunge, psicólogo clínico, especialista em terapia cognitivo-comportamental e referência no atendimento de crianças e adolescentes, a diferença entre meninos e meninas sobre o hábito da leitura costuma ser resultado de um conjunto de fatores sociais, culturais e educacionais. "Desde cedo, meninas são mais incentivadas a atividades associadas à linguagem, à expressão emocional e à imaginação, enquanto meninos, muitas vezes, são direcionados para brincadeiras mais físicas ou competitivas. Isso impacta diretamente o vínculo com a leitura."
Além disso, o especialista destaca que meninos não se veem representados nas histórias que chegam até eles ou associam a leitura a uma atividade escolar obrigatória, e não a um momento de prazer. "Além disso, quando figuras masculinas de referência não demonstram hábito de leitura, isso pode reduzir o interesse dos meninos. É fundamental, primeiro, desconstruir a ideia de que leitura tem um formato único. Quadrinhos, livros de aventura, histórias de ação, esportes ou até temas ligados a curiosidades científicas podem ser excelentes portas de entrada. O importante é partir do interesse da criança, não impor um padrão. Outra estratégia eficaz é integrar a leitura ao cotidiano de forma leve, sem cobrança excessiva. Ler junto, criar momentos de leitura em família e permitir que a criança escolha seus próprios livros aumenta o engajamento."
A equipe também notou uma discrepância no tempo que os dois grupos dedicam aos livros. Durante o isolamento social em razão da pandemia, as meninas continuaram lendo. "Isso sugere que o interesse e as habilidades de leitura lhes conferem uma vantagem quando a estrutura habitual proporcionada pela escola desaparece", detalha Blaabæk.
Conforme Daniella Licursi, psicóloga clínica, especialista em gestalt-terapia e pós-graduada em terapia cognitivo-comportamental, a escola acaba sustentando o gosto pela leitura. "A escola não ensina somente a ler, ela sustenta emocionalmente esse ato. muitas vezes, os meninos parecem depender mais dessa estrutura externa para manter o hábito. Não porque não conseguem, mas porque se engajam de outro jeito. Outra coisa que eu acho importante é pensar que nem toda criança aprende da mesma forma. Muitos meninos precisam mais do corpo, do movimento, da ação. Então, quando a leitura fica muito parada, muito silenciosa, ela pode acabar não fazendo tanto sentido para eles."
"Não vejo como uma questão de 'meninas gostam mais de ler'. Para mim, tem muito mais a ver com como essa relação com a leitura foi construída. Com os estímulos que a criança recebeu, com o que é esperado dela, com o tipo de experiência que ela teve com a linguagem", completa.
Saiba Mais
A importância de ler
Aprender a ler remodela a forma como o cérebro processa a linguagem. A conclusão é de um estudo recente, liderado pela Universidade de São Paulo em parceria com a Baycrest, uma organização canadense líder em saúde cerebral, envelhecimento e pesquisa em demência. O trabalho mostra que aprender a ler muda fundamentalmente a forma como o cérebro responde à linguagem falada, mesmo quando não há palavras escritas presentes. Embora estudos anteriores de neuroimagem tenham demonstrado que a alfabetização afeta fortemente a forma como o cérebro responde às palavras escritas, o novo trabalho é um dos primeiros a mostrar diferenças na atividade cerebral quando a audição está sendo usada. Os resultados confirmam que, à medida que as pessoas aprendem a ler, desenvolvem uma habilidade conhecida como consciência fonêmica, a capacidade de ouvir e manipular os sons individuais que compõem as palavras faladas, um fundamento essencial da leitura. Esse processo, por sua vez, fortalece a memória verbal de curto prazo, auxiliando na capacidade de aprender habilidades complexas e lidar com as demandas cognitivas da vida diária.

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