
Alimentos ultraprocessados seguem sendo vistos como parte de uma infância feliz por muitas famílias brasileiras, mesmo com os alertas sobre os impactos negativos à saúde. É o que mostra o estudo publicado em março, conduzido pelo Unicef em parceria com a Novo Nordisk, que investigou hábitos alimentares em comunidades de diferentes regiões do país. (confira aqui na íntegra)
A pesquisa ouviu 694 pessoas e identificou que esses produtos, frequentemente associados à praticidade e ao prazer, ainda ocupam um espaço simbólico importante, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. Em muitos casos, o consumo é interpretado como sinal de acesso e melhoria de vida.
Os dados também mostram que há confusão sobre o valor nutricional desses alimentos. Produtos como iogurtes com sabor foram considerados saudáveis por mais da metade dos entrevistados. Já itens como nuggets preparados em airfryer também aparecem como opções vistas de forma positiva, mesmo sendo classificados como ultraprocessados.
Segundo os pesquisadores, essa percepção está diretamente ligada à forma como os produtos são apresentados ao consumidor. Informações nos rótulos nem sempre são compreendidas e acabam sendo ignoradas por grande parte da população. Mais da metade dos participantes afirmou não ter o hábito de ler embalagens, enquanto uma parcela diz não entender as informações disponíveis.
Outro ponto de atenção é a interpretação equivocada de símbolos de advertência. A lupa presente em alguns rótulos, que indica excesso de nutrientes críticos como sódio, açúcar ou gordura, é vista por parte dos consumidores como um sinal positivo, o que reforça a desinformação.
O estudo também destaca o papel do marketing, especialmente voltado ao público infantil. Embalagens coloridas, personagens conhecidos e mensagens que destacam vitaminas e benefícios contribuem para a construção de uma imagem mais saudável do que a realidade desses produtos.
A influência desse cenário aparece com mais força nos lanches intermediários das crianças. De acordo com o levantamento, esse é o momento do dia com maior consumo de ultraprocessados, superando café da manhã, almoço e jantar.
A pesquisa analisou comunidades em diferentes regiões do país, incluindo áreas do Rio de Janeiro, Recife e Belém, e encontrou padrões semelhantes entre elas.
Diante dos resultados, o Unicef defende medidas como restrições à venda e à publicidade desses produtos em ambientes escolares, além da inclusão de educação alimentar no currículo. A proposta é ampliar o entendimento sobre alimentação saudável desde a infância e reduzir o consumo precoce de produtos ultraprocessados.
O levantamento reforça que, além da oferta, a forma como esses alimentos são percebidos pelas famílias ainda é um dos principais desafios para mudanças nos hábitos alimentares no país.
*Estagiária sob supervisão dePaulo Leite

Ciência e Saúde
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