A equipe da missão Artemis II conversou ontem com os colegas astronautas que estão na Estação Espacial Internacional (ISS). Durante a chamada, a tripulação da cápsula Órion comentou sobre questões gerais da viagem e, sobretudo, a respeito do que observaram tão longe no espaço, com ênfase no Earthset, ou "pôr da Terra". Ainda ontem, a Nasa divulgou fotos desse momento, que foi considerado um dos mais simbólicos da missão. A imagem histórica foi feita mais de 57 anos após o icônico Earthrise, ou "nascer da Terra", capturado em 24 de dezembro de 1968 pelo astronauta americano Bill Anders, da Apollo 8. A nova fotografia mostra o planeta se ocultando no horizonte lunar, invertendo a perspectiva clássica que marcou o início da exploração espacial.
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Em uma série de fotos publicadas pela agência, o azul da Terra se destaca na imensidão do espaço, com o horizonte desabitado da Lua no primeiro plano, em tons que vão do cinza ao marrom. A Nasa postou a imagem com a seguinte descrição: "A humanidade, vista do outro lado. Primeira foto do lado oculto da Lua. Capturada da Orion enquanto a Terra desaparece além do horizonte lunar".
Ao mesmo tempo, a tripulação observou fenômenos raros, como um eclipse solar visto do espaço profundo, além de crateras, fluxos de lava e regiões pouco exploradas da superfície lunar, incluindo áreas próximas aos polos.
Durante cerca de sete horas, os astronautas se revezaram nas janelas da cápsula, descrevendo formações geológicas e coletando imagens inéditas. A experiência foi descrita como "avassaladora", com relatos de forte impacto emocional ao observar a Lua de tão perto. "Sempre vamos escolher a Terra. Sempre vamos escolher uns aos outros", afirmou Christina Koch após a retomada do contato com o controle da missão.
O presidente da Sociedade Astronômica Brasileira, Helio Jacques Rocha Pinto, ressalta a qualidade das imagens feitas pelos astronautas. "Uma das fotos corresponde a um eclipse solar total, em que a Terra bloqueia a luz do Sol. Nessa imagem, é possível ver até mesmo estrelas no céu. Se houver precisão suficiente, é possível supor que essa captura servirá para estudar a deflexão da luz das estrelas devido à presença de dois corpos de grande massa: o Sol e a Terra, alinhados no campo de visão, tal como foi feito durante o eclipse solar de 1919."
Mais perto de casa
Após concluir com sucesso seus objetivos no espaço, a Artemis II está a caminho de casa. Essa é a etapa mais crítica e aguardada de toda a operação espacial, reunindo expectativa, tensão e um alto grau de complexidade técnica. Depois de completar o sobrevoo da Lua e alcançar um recorde histórico de distância — 406,7 mil km do planeta —, a cápsula Orion iniciou a viagem de volta em uma trajetória chamada de "retorno livre".
Apesar do sucesso da missão até aqui, especialistas destacam que a reentrada na atmosfera continua sendo o momento mais arriscado, quando a nave atinge velocidades superiores a 32 mil km/h e enfrenta temperaturas extremas. Problemas registrados em missões anteriores, como danos no escudo térmico durante a Artemis I, levaram a ajustes no ângulo de reentrada para reduzir riscos. Além disso, a tripulação enfrentou desafios já esperados durante o voo, como os cerca de 40 minutos sem comunicação com a Terra ao passar pelo lado oculto da Lua.
Conforme Naelton Araújo, astrônomo do Planetário do Rio de Janeiro, a missão parece estar indo muito bem até o momento. "Até pequenos contratempos que ocorreram, como o defeito no vaso sanitário, foram resolvidos de forma brilhante. É um momento de muito aprendizado, vários procedimentos novos e antigos foram testados. Geralmente, o retorno tem como momento mais crítico a reentrada. Enfrentar a resistência do ar envolve toda a estrutura da cápsula Órion. Apesar disso já ter sido testado na Artemis I, sempre é um momento de tensão."
Direto da base terrestre
Em entrevista à AFP, a astronauta canadense Jenni Gibbons, que atuou no controle da missão em Houston, descreveu a atmosfera vivida durante o sobrevoo lunar. Segundo ela, o ambiente era de emoção intensa, com lágrimas, abraços e um sentimento coletivo de realização. "A emoção na sala com as descrições que a tripulação transmitia era enorme. É provável que todos os controladores de voo tenham sido inspirados pelas missões Apollo e tenham trabalhado a vida inteira para ver isto", afirmou. Ela destacou, ainda, a quebra do recorde de distância como um dos momentos mais marcantes, ressaltando o significado histórico do feito para toda a comunidade espacial.
Gibbons também enfatizou a importância científica e simbólica da missão. Segundo a astronauta, o fato de a tripulação ter alcançado regiões mais distantes do que qualquer missão anterior permitiu observar a Lua sob perspectivas inéditas, incluindo áreas nunca iluminadas durante as missões Apollo. Ela também destacou observações raras, como clarões de impacto na superfície lunar durante o eclipse, considerados eventos de alto valor científico. "Essa é a primeira vez que as câmeras mais sensíveis do mundo, que são os olhos humanos, puderam observá-los", afirmou, ressaltando que a missão não apenas quebrou recordes, mas ampliou significativamente o conhecimento sobre o ambiente lunar e o espaço profundo.
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