MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Tubarões e atuns sofrem nova ameaça com o aquecimento dos oceanos

Pesquisa mostra que peixes de sangue quente parcial gastam quase quatro vezes mais energia e podem perder habitat com o aquecimento dos oceanos

Um rol de predadores mais eficientes do oceano está entre os mais vulneráveis às mudanças climáticas. Um estudo liderado pelo Trinity College Dublin, da Irlanda, publicado na prestigiosa revista Science na semana passada, concluiu que peixes chamados mesotérmicos, grupo raro que inclui tubarões, como o branco, e certas espécies de atum, enfrentam uma “dupla ameaça” com o aquecimento dos mares.

Esses animais precisam de muita energia para manter o estilo de vida acelerado e, ao mesmo tempo, correm maior risco de superaquecimento à medida que a temperatura da água sobe. Segundo os pesquisadores, isso pode reduzir as áreas onde conseguem viver e forçá-los a migrar para regiões mais frias ou profundas.

A maioria dos peixes é ectotérmica, ou seja, depende da temperatura do ambiente para regular o corpo. Já os mesotérmicos conseguem reter parte do calor gerado pelo metabolismo e manter algumas regiões do corpo mais quentes que a água ao redor. Essa característica é rara. Menos de 0,1% das espécies de peixes conhecidas têm essa capacidade, segundo o estudo.

O benefício é grande. Manter o corpo mais aquecido melhora a velocidade de nado, favorece longas migrações e aumenta a eficiência na caça. Isso ajuda a explicar por que tubarões e atuns desse grupo estão entre os caçadores mais rápidos e poderosos do mar.

Principais descobertas do estudo

Os cientistas descobriram que peixes mesotérmicos consomem, em média, 3,8 vezes mais energia do que peixes de sangue frio de tamanho semelhante.
Isso significa que precisam se alimentar muito mais para sustentar o organismo. Além disso, um aumento de 10°C na temperatura corporal mais que dobra a taxa metabólica rotineira, elevando ainda mais a necessidade de comida.

Mas o problema não para aí. À medida que crescem, esses peixes produzem calor mais rapidamente do que conseguem dissipá-lo. Em corpos maiores, o calor tende a ficar retido com mais facilidade. Esse desequilíbrio aumenta o risco de superaquecimento.

Os pesquisadores calcularam limites teóricos de equilíbrio térmico, que indicam temperaturas acima das quais o animal não consegue perder calor com rapidez suficiente. Um exemplo citado no estudo mostra que um tubarão mesotérmico de 1 tonelada pode ter dificuldade para manter a temperatura estável em águas acima de 17°C.

Quando isso ocorre, o peixe pode precisar nadar mais devagar, alterar o fluxo sanguíneo ou mergulhar em águas mais frias. Todas essas estratégias têm custo energético e podem dificultar a busca por alimento.

Como os cientistas fizeram as observações

A equipe desenvolveu uma nova forma de estimar o metabolismo de peixes em vida livre. Para isso, analisou dados de sensores instalados nos animais, capazes de registrar a temperatura corporal e a temperatura da água. Com essas informações, os pesquisadores calcularam quanto calor os peixes produziam e perdiam em tempo real.

O conjunto de dados reuniu desde larvas de apenas 1 miligrama até grandes tubarões filtradores de até 3,5 toneladas. Os resultados também foram combinados com centenas de medições laboratoriais feitas anteriormente em espécies menores.

O que isso significa para a ciência

O estudo ajuda a explicar um padrão observado há muito tempo: grandes peixes predadores costumam viver em águas frias, em altas latitudes ou em maiores profundidades. Também reforça a previsão de que o aquecimento global pode reduzir o habitat adequado para essas espécies, especialmente no verão.

Segundo os autores, isso é ainda mais preocupante porque muitos desses animais já sofrem pressão da sobrepesca, tanto deles próprios quanto de suas presas. Como precisam de muita energia, ficam mais vulneráveis quando a comida escasseia.

A pesquisa também sugere uma ligação com o passado. Evidências fósseis indicam que gigantes marinhos de corpo quente, como o extinto megalodon, sofreram de forma desproporcional em mudanças climáticas anteriores.

Para os cientistas, entender esse “orçamento de calor” pode ser decisivo para prever quais espécies correm mais risco e como os ecossistemas marinhos devem mudar nas próximas décadas.

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