Hipertensão

De partir o coração

Com a proximidade da Copa do Mundo, especialistas da Sociedade Brasileira de Cardiologia lembram que eventos esportivos altamente estressantes podem desencadear problemas cardiovasculares em pessoas vulneráveis

 02/05/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Colecionadores de figurinhas para a copa do mundo de futebol. Banca na 106 Norte. -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
02/05/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Colecionadores de figurinhas para a copa do mundo de futebol. Banca na 106 Norte. - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

A emoção de um gol no último minuto, uma disputa de pênaltis ou uma derrota dramática do time do coração podem provocar mais do que lágrimas, euforia ou frustração. Estudos sugerem que assistir a eventos esportivos altamente estressantes — especialmente partidas decisivas de futebol — pode desencadear infartos, arritmias e outros eventos cardiovasculares graves em pessoas vulneráveis.

A relação entre emoções intensas e o coração vem sendo estudada há décadas, mas ganhou destaque mundial após a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Pesquisadores acompanharam atendimentos cardíacos de emergência durante o torneio e observaram um aumento expressivo de casos nos dias em que a seleção alemã entrava em campo. 

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O trabalho, publicado no tradicional New England Journal of Medicine, mostrou que o risco de eventos cardiovasculares agudos chegou a ser 2,66 vezes maior nesses dias em comparação com períodos normais. Entre homens, o risco ultrapassou três vezes o habitual. O pico de ocorrências acontecia principalmente nas duas horas antes das partidas mais tensas, sugerindo que a antecipação emocional também exerce impacto importante sobre o organismo.  

SUS

No Brasil, uma pesquisa conduzida pela Universidade de São Paulo (USP) encontrou resultados semelhantes ao analisar dados do Sistema Único de Saúde (SUS) durante Copas do Mundo entre 1998 e 2010. Segundo os pesquisadores, os registros de infarto agudo do miocárdio aumentaram entre 4% e 8% durante jogos da seleção brasileira.  

O mecanismo biológico por trás desse fenômeno envolve uma descarga intensa de adrenalina e outros hormônios do estresse. Em situações de forte tensão emocional, o organismo reage como se estivesse diante de uma ameaça física: a frequência cardíaca sobe, a pressão arterial aumenta e o coração passa a exigir mais oxigênio. Em pessoas com placas de gordura nas artérias coronárias, hipertensão, diabetes ou predisposição cardiovascular, essa resposta pode precipitar um infarto ou uma arritmia.  

Os cardiologistas alertam que o problema não está apenas na emoção do jogo. O contexto costuma reunir outros fatores de risco: consumo excessivo de álcool, cigarro, alimentos gordurosos, privação de sono e interrupção de medicamentos. Durante grandes competições, muitos torcedores ainda passam horas em ambientes lotados, enfrentam calor, desidratação e estresse prolongado.  

Vulneráveis

Segundo estudos, as pessoas mais vulneráveis são homens acima de 50 anos, pacientes com histórico de doença coronariana, hipertensos, diabéticos e indivíduos que já sofreram infarto anteriormente. Mas até indivíduos sem diagnóstico prévio podem apresentar sintomas em momentos de estresse extremo. Tremores, suor frio, falta de ar, palpitações, dor no peito e tontura durante jogos decisivos não devem ser ignorados.  

Há também um componente psicológico importante. Pesquisas mostram que derrotas inesperadas tendem a produzir maior impacto cardiovascular do que vitórias. Jogos decididos nos pênaltis ou partidas consideradas “dramáticas” são especialmente associadas ao aumento de emergências cardíacas. A ligação emocional intensa com o time parece amplificar a resposta fisiológica ao estresse.  

Apesar disso, médicos ressaltam que assistir esportes não deve ser encarado como um perigo inevitável. Para minimizar riscos, Antonio Carlos Avanza, presidente do Departamento de Ergometria, Exercício, Cardiologia Nuclear e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia aconselha: “Se alimente de forma adequada e saudável, evite o uso excessivo de bebidas alcoólicas, tome as medicações de rotina e se prepare psicologicamente para saber que é apenas uma competição e que perder ou ganhar faz parte da vida.”


Elzo Mattar, cardiologista
Elzo Mattar, cardiologista (foto: Arquivo pessoal )
Duas perguntas para Elzo Mattar , diretor administrativo do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia

Como a emoção intensa afeta a pressão arterial?
A emoção intensa ativa uma resposta natural de estresse do organismo. O corpo libera adrenalina, o coração bate mais rápido, os vasos se contraem e a pressão arterial sobe. Na maioria das pessoas, isso acontece de forma passageira. Mas, em quem já tem hipertensão ou doença cardiovascular, esses picos podem aumentar a sobrecarga sobre o coração e elevar o risco de complicações, como arritmias e infarto.

Quais são os sinais de alerta durante as partidas para pessoas hipertensas?
Pessoas hipertensas devem ficar atentas a sinais como dor no peito, falta de ar, palpitações, tontura, suor excessivo, dor de cabeça intensa, visão embaçada ou sensação de mal-estar importante durante ou após as partidas. Esses sintomas podem indicar desde um pico importante de pressão arterial até complicações cardiovasculares mais graves, principalmente em quem já possui doença cardíaca ou outros fatores de risco. Nessas situações, o ideal é interromper o que estiver fazendo, evitar novos estímulos emocionais e procurar avaliação médica, especialmente se os sintomas forem intensos ou persistentes.


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postado em 13/05/2026 10:00
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