ESTUDO

Vírus Sabiá circula há 142 anos no Brasil e sofre mutações

Estudo revela que mudanças genéticas tornaram o vírus "invisível" para testes laboratoriais tradicionais

O vírus Sabiá é o causador de uma síndrome hemorrágica e neurológica aguda. Desde 1990, foram registrados quatro casos fatais em São Paulo -  (crédito: Reprodução/Freepik)
O vírus Sabiá é o causador de uma síndrome hemorrágica e neurológica aguda. Desde 1990, foram registrados quatro casos fatais em São Paulo - (crédito: Reprodução/Freepik)

Pesquisadores apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo identificaram que o vírus Sabiá (SABV), que circula no Brasil há pelo menos 142 anos, vem sofrendo mutações genéticas ao longo do tempo. As alterações fizeram com que o patógeno deixasse de ser detectado por testes laboratoriais convencionais usados até recentemente.

O estudo também resultou no desenvolvimento de um novo método de diagnóstico capaz de identificar as cepas atuais do vírus, considerado raro e altamente perigoso. Segundo os pesquisadores, as mudanças genéticas ocorreram justamente nas regiões do genoma reconhecidas pelos exames antigos, tornando os testes obsoletos.

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De acordo com a pesquisa, as cepas recentes apresentam apenas 89% de identidade genética em relação às versões analisadas na década de 1990. Essa diferença dificultou o reconhecimento do vírus e pode ter contribuído para uma circulação silenciosa no país.

O vírus Sabiá é o causador de uma síndrome hemorrágica e neurológica aguda. Desde 1990, foram registrados quatro casos fatais em São Paulo.

Para contornar as falhas nos diagnósticos, os cientistas utilizaram a técnica de metagenômica, que permite identificar microrganismos sem a necessidade de saber previamente qual agente está sendo procurado. A partir disso, foram criados novos primers, fragmentos de DNA usados nos testes laboratoriais, capazes de detectar as variantes que circulam atualmente.

As análises também identificaram alterações na proteína GP1, responsável pela ligação do vírus às células humanas. Segundo os pesquisadores, essas mudanças podem influenciar a capacidade de infecção do patógeno.

Os casos confirmados ocorreram nos municípios paulistas de Cotia, em 1990; Espírito Santo do Pinhal, em 1999; Sorocaba, em 2020; e Assis, em 2019. A pesquisa indica que outros casos podem não ter sido identificados anteriormente devido às limitações dos exames disponíveis na época.

O manejo do vírus Sabiá é considerado um dos mais complexos do mundo por causa do alto risco de transmissão em laboratório, principalmente por aerossóis. Atualmente, o vírus exige nível máximo de biossegurança (NB-4), estrutura ainda inexistente na América do Sul. Por isso, a cepa ativa brasileira é mantida nos Estados Unidos.

A expectativa é que o Brasil passe a contar com seu primeiro laboratório NB-4 em 2030, por meio do Projeto Orion, em Campinas.

Embora ainda não haja confirmação definitiva, pesquisadores acreditam que o reservatório natural do vírus sejam roedores silvestres. As infecções humanas costumam ocorrer em áreas rurais ou de floresta, onde há maior contato entre pessoas e esses animais.

O estudo foi publicado na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases por pesquisadores do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

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postado em 27/05/2026 13:48
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