
A ida ao mercado ou à farmácia revelou um retrato silencioso da saúde feminina. Um novo estudo publicado na revista científica PLOS Digital Health mostrou que uma em cada quatro mulheres compra analgésicos junto com absorventes, coletores menstruais ou outros produtos ligados ao período menstrual.
A pesquisa analisou mais de 211 milhões de transações feitas entre 2006 e 2015 por cerca de 3,4 milhões de consumidores na Inglaterra. Os dados vieram de cartões de fidelidade de uma grande rede britânica de farmácia e beleza e ajudaram pesquisadores a mapear um comportamento que, até então, aparecia pouco em estatísticas de saúde pública.
O levantamento foi liderado pela pesquisadora Victoria Sivill, da University of Bristol, com participação de especialistas ligados ao The Alan Turing Institute e à University of Nottingham. Segundo os autores, 26,7% das clientes que compraram produtos menstruais também levaram remédios para dor na mesma compra. A probabilidade era quase quatro vezes maior do que em outras transações comuns.
Os cientistas afirmam que os números ajudam a transformar uma experiência frequentemente invisibilizada em dados concretos. A dor menstrual, chamada clinicamente de dismenorreia, afeta milhões de mulheres no mundo e pode atrapalhar estudos, trabalho, sono e atividades do dia a dia. Mesmo assim, ainda costuma ser tratada como algo “normal” ou inevitável.
Um dos pontos que mais chamou atenção dos pesquisadores foi a relação entre renda e acesso ao alívio da dor. Mulheres que vivem em áreas mais pobres apareceram com 32% menos chance de comprar analgésicos junto com produtos menstruais quando comparadas às que vivem em regiões mais ricas.
Para os autores, o dado não significa que mulheres pobres sentem menos cólicas. Pelo contrário. A hipótese levantada é que muitas simplesmente não conseguem incluir medicamentos na compra mensal por causa do custo. O estudo aborda a chamada pobreza menstrual não apenas devido à dificuldade de acesso a absorventes, mas também ao tratamento da dor.
Outro detalhe curioso reforçou a precisão da pesquisa. O intervalo mais comum entre compras consecutivas de produtos menstruais foi exatamente de 28 dias, coincidindo com a média do ciclo menstrual. Isso mostrou que os dados de consumo conseguiam acompanhar padrões reais da vida cotidiana das mulheres.
A pesquisa também chama atenção pela metodologia incomum. Em vez de entrevistas ou questionários, os cientistas analisaram hábitos reais de compra ao longo de quase dez anos. Para a equipe, esse modelo ajuda a reduzir falhas comuns em pesquisas tradicionais, como esquecimento ou constrangimento ao responder perguntas sobre menstruação.
A coautora Anya Skatova afirmou que até mesmo ela ficou surpresa com o volume de compras de analgésicos ligadas ao período menstrual. Já o pesquisador James Goulding disse que a análise ajuda a trazer visibilidade para um problema historicamente ignorado em estudos científicos.
Os autores defendem que a dor menstrual passe a ser tratada como questão de saúde pública e de desigualdade social. Para eles, políticas de saúde precisam considerar que milhões de mulheres convivem com dores recorrentes e nem sempre conseguem pagar pelo próprio alívio.
*Estagiária sob supervisão de Paulo Floro.

Ciência e Saúde
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