Responsáveis por 80% da biomassa do planeta, as plantas tornam a existência humana possível. As mudanças climáticas, porém, estão remodelando os hábitats e elevando o risco de extinção de muitas delas, sem que haja compreensão suficiente sobre esse processo. Em dois artigos publicados ontem na revista Science, cientistas usaram modelagens distintas para revelar dados inéditos sobre a ameaça enfrentada pelos vegetais em um mundo cada vez mais quente e refém de eventos extremos. Uma das conclusões é a de que, até o fim do século, 16% das espécies analisadas podem estar extintas.
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Em um dos estudos, pesquisadores coordenados pelo Royal Botanic Gardens, em Kew, no Reino Unido, trazem o maior mapeamento já feito sobre o risco de desaparecimento das angiospermas — grupo que inclui praticamente todas as plantas com flores da Terra, das árvores tropicais às espécies cultivadas na agricultura. Segundo os pesquisadores, 21,2% de toda a diversidade evolutiva acumulada por essas plantas ao longo de bilhões de anos pode ser perdida, um cenário capaz comprometer não apenas ecossistemas inteiros, mas também a própria sobrevivência humana.
Em parceria com universidades e centros de pesquisa de diferentes países, a equipe do Royal Botanic Gardens reconstruiu, pela primeira vez, uma gigantesca "árvore da vida" das angiospermas, reunindo mais de 335 mil espécies. A partir dela, cruzaram informações genéticas, dados de distribuição geográfica e estimativas de risco de extinção para identificar quais plantas representam ramos mais antigos e únicos da evolução — e quais estão mais ameaçadas.
Subestimadas
As plantas com flores dominam praticamente todos os ecossistemas terrestres e sustentam cadeias alimentares, produção agrícola, medicamentos, equilíbrio climático e ciclos hidrológicos. Ainda assim, segundo os autores, elas permanecem historicamente subestimadas em políticas internacionais de conservação. Enquanto mais de 80% dos vertebrados já foram avaliados oficialmente pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), apenas cerca de 20% das plantas tiveram análises globais semelhantes.
O trabalho utilizou o conceito chamado Edge, sigla em inglês para "evolutivamente distinta e globalmente ameaçada". O método prioriza espécies que combinam duas características: serem únicas do ponto de vista evolutivo e estarem em alto risco de extinção. Ao todo, os cientistas identificaram 9.945 espécies prioritárias de plantas com flores. Segundo os autores, proteger esse pequeno grupo poderia evitar uma parcela desproporcionalmente grande da perda evolutiva global.
"'Os benefícios que as espécies Edge proporcionam à sociedade são tão únicos e insubstituíveis quanto as próprias espécies, portanto, perder um ramo fundamental da árvore-da-vida significa a perda potencial do próximo medicamento revolucionário contra o câncer ou antibiótico, sem uma segunda chance", ressalta a bióloga Matilda Brown, pesquisadora do Kew e colíder do estudo. Segundo Brown, salvar menos de 3% das espécies de angiospermas seria suficiente para proteger cerca de 16,6% da história evolutiva ameaçada dessas plantas.
Tropicais
O estudo também mostra que os maiores focos dessas plantas ameaçadas estão em regiões tropicais. Madagascar lidera o ranking mundial, com cerca de 950 espécies Edge, seguida por Bornéu e Equador. Muitas das áreas identificadas coincidem com hotspots globais de biodiversidade — regiões extremamente ricas em espécies, mas fortemente pressionadas pelo desmatamento, expansão agrícola, mineração e mudanças climáticas.
Embora o Brasil não apareça entre os principais centros destacados na pesquisa, o país concentra uma das maiores diversidades botânicas do planeta e há preocupação de que parte dessas espécies únicas possa desaparecer antes mesmo de ser descrita oficialmente. "O estudo levanta questões importantes com risco para espécies vegetais aqui do Brasil e também nos dá diretrizes aqui para prioridades de conservação. Fica claro que é fundamental focar em estratégias de proteção de áreas com alta biodiversidade e também com elevado risco de degradação", avalia André Ferreti, gerente sênior de economia da biodiversidade da Fundação Grupo Boticário. "Temos de olhar para áreas com mais biodiversidade e que estão sob pressão, como pelas fronteiras agropecuárias", argumenta Ferreti que também é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (REC).
O especialista destaca que o Cerrado — a savana com maior biodiversidade do mundo — tem mais de 4 mil espécies de plantas endêmicas, ao mesmo tempo em que é muito pressionada pelo avanço da agricultura e de incêndios. Ele também demonstra preocupação com a Amazônia. "A gente tem que ter uma prioridade para evitar o colapso desse ecossistema, que já perdeu 20% mais ou menos de sua área natural."
Na zona costeira e marinha, Ferreti ressalta a fragilidade e a importância de ecossistemas como os manguezais, as dunas, os recifes de corais. "A vegetação de restinga é fundamental também para a proteção contra a erosão costeira. E a gente sabe que existem muitas espécies ameaçadas, com o pau-brasil e o jacarandá da Bahia." Na região Sul, o especialista explica que há menos de 1% de áreas em bom estado de conservação da floresta de araucárias; já no Nordeste, a preocupação é com a caatinga, bioma exclusivamente brasileiro que sofre ameaça de desertificação.
Projeções
No outro artigo publicado na Science, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis, nos Estados Unidos, fizeram uma modelagem ecológica e constataram que entre 7% e 16% das espécies de plantas estudadas em todo o mundo devem perder mais de 90% de sua área de distribuição. Com as projeções atuais sobre as mudanças climáticas, essas espécies enfrentam alto risco de extinção até 2010.
Para os autores, a perda de hábitat devido às alterações nos padrões de temperatura e precipitação deve ser a principal causa dessas extinções, e não a capacidade das plantas de mudar de local ou de acompanhar as mudanças climáticas. "Descobrimos que o que causa a extinção não é a lentidão no crescimento das plantas", disse, em nota, a autora sênior Xiaoli Dong, professora associada do Departamento de Ciência e Política Ambiental. "O problema é que uma grande quantidade de habitat adequado desaparecerá até o final do século. Se nossa prioridade é reduzir a taxa de extinção de espécies vegetais, cortar drasticamente nossas emissões será muito mais importante do que outras ações."
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