Há décadas uma falha geológica submarina vem intrigando cientistas. Conhecida como Falha de Gofar, há cerca de 1.600 km da costa do Equador, nas profundezas do Oceano Pacífico, essa “fratura” produz terremotos de magnitude 6, cerca de cinco a seis anos.
Uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos e do Canadá acreditam ter encontrado uma explicação física para esse comportamento raro de sismologia. O estudo foi publicado na última quinta-feira (14/5) na revista Science, duas zonas especiais ao longo da falha funcionam como verdadeiros “freios” naturais, impedindo que os terremotos cresçam além de um certo limite.
O Mistério da Regularidade
Diferente da maioria dos terremotos, que são eventos difíceis de prever, a Falha de Gofar rompe repetidamente nos mesmos trechos, com intensidades semelhantes e em intervalos regulares. A falha está posicionada na Dorsal do Pacífico Leste, onde as placas tectônicas do Pacífico e de Nazca deslizam lateralmente a uma velocidade de 14 cm por ano, o que equivale ao ritmo de crescimento das unhas humanas.
"Sabemos que essas barreiras existem há muito tempo, mas a questão sempre foi: do que elas são feitas e por que continuam a impedir terremotos de forma tão confiável?", explica o sismólogo Jianhua Gong, da Universidade de Indiana e principal autor do estudo.
Para desvendar o mecanismo, os cientistas realizaram expedições em 2008 e entre 2019 e 2022, instalando dezenas aparelhos que detectam os movimentos do solo, chamados de sismógrafos diretamente no fundo do mar. Os dados coletados permitiram analisar dois terremotos de magnitude 6.0 em segmentos diferentes da falha.
A pesquisa mostrou que semanas antes de um grande tremor, as zonas de barreira apresentam uma intensa atividade de microterremotos. Após o evento principal, essas áreas tornam-se silenciosas. Segundo os dados, essas barreiras não são blocos de rocha sólida, mas estruturas complexas com múltiplos ramos de falhas e deslocamentos laterais de 100 a 400 metros.
A descoberta central do estudo é o processo chamado de "fortalecimento por dilatância". A geometria complexa das barreiras permite que a água do mar se infiltre profundamente nas rochas. Quando um terremoto de grande porte atinge essas zonas, o movimento brusco faz com que a pressão dos fluidos caia, tornando o material temporariamente mais rígido e resistente ao deslizamento.
Na prática, a própria estrutura física da falha atua como um sistema de frenagem dinâmica que interrompe a propagação da ruptura antes que ela atinja magnitudes maiores.
Impacto Global
Embora a Falha de Gofar esteja em uma região remota e ofereça pouco risco direto a populações, a descoberta tem implicações para a sismologia em todo o mundo. Cientistas acreditam que barreiras semelhantes podem estar espalhadas por outros oceanos, explicando por que muitos terremotos submarinos são menores do que a geologia permitiria.
*Estagiária sob supervisão de Paulo Floro
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