
Pesquisadores brasileiros e alemães desenvolveram uma plataforma inovadora de vacina contra o vírus Chikungunya (CHIKV), causador da febre chikungunya, que utiliza partículas "imaturas" para garantir uma imunização robusta sem os riscos de replicação descontrolada no organismo. Os resultados sugerem que o imunizante é uma proposta segura para diferentes faixas de idade.
O estudo, realizado por especialistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Bonn, na Alemanha, surge após agências regulatórias globais, The Food and Drug Administration (FDA) e o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) recomendarem a pausa no uso da vacina IXCHIQ, devido a eventos adversos graves, principalmente para pessoas com mais de 60 anos após relato de 17 eventos adversos graves.
Danillo Esposito, primeiro autor e pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, explica ao jornal da faculdade paulista que a proposta da vacina é bloquear a maturação viral, impedindo que ela aconteça. Por isso, a principal novidade da pesquisa é a modificação do material genético do CHIKV.
Embora a febre da Chikungunya, caracterizada por dores articulares que podem persistir por meses, seja um desafio crescente de saúde pública, as opções vacinais enfrentam obstáculos significativos. O novo método foca na maturação do vírus, que normalmente depende de uma enzima humana chamada furina para tornar o vírus infeccioso. Os cientistas modificaram geneticamente o vírus, substituindo o local de clivagem da furina por um local reconhecido apenas pela protease do vírus Tobacco Etch (TEV), que não existe naturalmente em humanos ou insetos.
Desta forma, o vírus só se torna "maduro" e capaz de entrar nas células se for tratado em laboratório com a enzima TEV. Uma vez injetado, ele realiza apenas um ciclo de replicação, o suficiente para alertar o sistema imunológico, mas incapaz de gerar novos vírus que infectem outras células, tornando a vacina intrinsecamente segura.
Ao trabalhar com vírus imaturos e verificar a sua infecciosidade, os pesquisadores esperavam, em seguida, conseguir desenvolver uma proposta vacinal, mas a abordagem não funcionava. “Quando a célula tinha furina, ela voltava a ser infecciosa e produzia vírus infeccioso. Quando a gente percebeu isso, pensamos em retirar, na verdade, a parte no genoma que vai codificar para a protease da furina”, diz Danillo.
Os experimentos realizados em modelos animais apresentaram resultados que não deixam dúvidas:
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Proteção Total: Em camundongos deficientes de receptores de interferon (altamente suscetíveis), uma única dose com partículas tratadas com TEV garantiu a sobrevivência contra um desafio letal do vírus selvagem.
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Resposta Imune Robusta: Os animais vacinados apresentaram níveis de anticorpos neutralizantes cerca de 9,14 vezes maiores do que aqueles que receberam partículas não tratadas.
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Redução de Sintomas: A vacinação eliminou a detecção de vírus no sangue (viremia) após o contágio e reduziu drasticamente o inchaço nas patas, sintoma clássico da artrite causada pela doença.
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Proteção Cruzada: Os pesquisadores também observaram que os anticorpos gerados foram capazes de neutralizar parcialmente o vírus Mayaro, outro arbovírus circulante no Brasil.
A importância desta descoberta situa pela epidemiológica do Brasil, que registrou cerca de 265.000 casos e 243 mortes confirmadas por Chikungunya em 2024. Além de ser uma esperança para o combate ao CHIKV, os autores do estudo afirmam que esta tecnologia de maturação controlada por TEV pode ser adaptada para outros vírus que dependem da furina, como os da Dengue, Zika e até o SARS-CoV-2 (COVID-19).
A segurança demonstrada em modelos que mimetizam indivíduos imunocomprometidos posiciona esta plataforma como uma das mais promissoras para proteger populações vulneráveis, como idosos e gestantes, que hoje possuem opções limitadas.
“Se por acaso a gente tiver um inseto, um Aedes aegypti, picando e pegando esse vírus vacinal, ele também não vai ser maturado dentro do mosquito, e isso gera uma segurança de 100% [na vacina] conta Danillo.
*Estagiária sob supervisão de Paulo Floro.
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