
Em uma edição marcada por estudos que demonstram melhora significativa no prognóstico de vários tipos de câncer, o congresso 2026 da Sociedade Norte-Americana de Oncologia Clínica (Asco) divulgou, ontem, o resultado de novas pesquisas que devem mudar o tratamento de tumores oncológicos, aumentando a expectativa de vida de milhares de pacientes, além de garantirem mais tempo em remissão. O evento começou na sexta-feira e vai até amanhã em Chicago, nos Estados Unidos.
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Estudos desvendam o que está por trás das expressões faciais
Um dos destaques do terceiro dia foi o RASolute 302, estudo do instituto norte-americano Dana-Farber sobre um tratamento que dobrou a sobrevida de pessoas com um dos cânceres mais letais atualmente, o de pâncreas metastático. Apresentado na sessão plenária — a principal do congresso — e publicado simultaneamente no New England Journal of Medicine, o trabalho envolveu 500 pacientes tratados previamente com quimioterapia.
Os voluntários foram divididos em grupos comparativos: em um deles, receberam um quimioterápico de segunda linha. No outro, foram tratados com o daraxonrasib, substância em forma de pílula diária que inibe a divisão e multiplicação das células com mutações no gene Kras. Noventa por cento dos adenocarcinomas de pâncreas têm alterações nessa proteína.
No fim do estudo, a sobrevida média dos pacientes que testaram o medicamento foi de 13,2 meses, quase o dobro dos 6,7 meses observados no outro grupo. Além disso, os pacientes do daraxonrasib tiveram uma sobrevida livre de progressão da doença (remissão) de 7,2 meses, comparado a 3,6 meses do grupo da quimioterapia de segunda linha.
Nova fase
Para o médico Felipe José Fernández Coimbra, líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo, o daraxonrasib reforça que a oncologia entra em uma nova fase de tratamento, caracterizada pelas drogas que têm como alvo mutações da família RAS. Ele observa que o resultado do estudo é ainda mais impactante devido ao perfil dos pacientes. “Não eram pessoas em tratamento inicial da doença, mas indivíduos com câncer metastático, que já haviam recebido quimioterapia e apresentavam progressão tumoral.” No Brasil, a droga ainda não foi submetida à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Outro trabalho que pode mudar a prática clínica foi apresentado pelo Instituto de Pesquisa do Câncer (ICR) de Londres, na Inglaterra, e mostrou que uma injeção de tripla ação pode erradicar completamente o tumor de pacientes de câncer de boca e pescoço, que, no Brasil, tem incidência alta, com 40 mil novos casos ao ano. Segundo os pesquisadores, os resultados do OrigAMI-4 não encontram precedentes no tratamento desse tipo de tumor.
No ensaio clínico, 102 pacientes com câncer de cabeça e pescoço não associado ao HPV (um dos fatores de risco da doença) receberam uma injeção subcutânea do amivantamab. A substância atua de três formas, bloqueando um receptor de crescimento, uma proteína que estimula a multiplicação das células e uma via que o tecido doente utiliza para escapar do tratamento. Além disso, a substância reforça o sistema imunológico para que o próprio corpo ataque a doença.
Os resultados mostraram que os tumores diminuíram significativamente em 28 pacientes e, em 15, foram totalmente eliminados. “O foco aqui foram pacientes que já haviam sido tratados com imunoterapia e quimioterapia e, mesmo assim, o tumor cresceu”, observa Gilson Gabriel Viana Veloso, oncologista do Grupo Oncoclínicas e da Santa Casa de Belo Horizonte (MG). “O estudo é importante porque, atualmente, quando essas duas terapias que citei não são reduzem o câncer, as outras opções disponíveis podem não ser tão efetivas como gostaríamos.”
Entrevista // Gilson Gabriel Viana Veloso, oncologista do Grupo Oncoclínicas e da Santa Casa de Belo Horizonte (MG), especialista em tumores de pulmão, cabeça e pescoço
Qual foi o objetivo do estudo OrigAMI-4 e por que ele é importante para pacientes com câncer de cabeça e pescoço?
O estudo teve como objetivo avaliar a eficácia do amivantamabe (um anticorpo monoclonal para o EGFR e MET) em reduzir o tamanho do tumor em pacientes com câncer de cabeça e pescoço e avaliar por quanto tempo esse tratamento funcionaria, assim como o ganho real em sobrevida desses pacientes tratados. O foco aqui foram os pacientes que já haviam sido tratados com imunoterapia e quimioterapia e mesmo assim tiveram progressão de doença (“tumor cresceu”). O estudo é importante porque atualmente quando o câncer não reduz com o tratamento que citei agora há pouco (imunoterapia e quimioterapia), as outras opções disponíveis para tratamento podem não ser tão efetivas como gostaríamos. Então, estes estudos sempre tentam trazer novas estratégias para os nossos pacientes.
Quais pacientes eram elegíveis?
Os pacientes elegíveis eram aqueles que fizeram pelo menos quimioterapia e imunoterapia (combinadas ou não) e que tiveram recidiva de doença (reaparecimento do tumor) ou progressão de doença com o aparecimento de metástases. Na prática, vemos isso com muita frequência no consultório. No Brasil, o tumor de cabeça e pescoço ainda é diagnosticado tardiamente na grande maioria das vezes, com muitos pacientes já com doença avançada/metastática, e isso acaba diminuindo as chances de cura/eficácia dos tratamentos que podem ser oferecidos. Ter essas novas modalidades de tratamento disponíveis nos ajudam a ter um ganho real em sobrevida e, se possível, a possibilidade de cura.
Quais os principais resultados?
Especialmente a taxa de resposta, duração de resposta e a rapidez com que os pacientes observaram as mudanças. O estudo mostrou que o amivantamabe administrado via subcutânea conseguiu reduzir em até 42% o tamanho o câncer. Para uma população que já fez outros tratamentos anteriormente, este número é importante! Outro dado animador foi o de que 15 pacientes (dos 102 que participaram do estudo) tiveram a constatação que o câncer entrou em remissão (i.e., não foi mais identificado nos exames de tomografia). Em até seis semanas após o início do tratamento, foi possível observar o funcionamento do medicamento e avaliar sua eficácia. No câncer de cabeça e pescoço, os pacientes costumam ter muitos sintomas tais como dor, dificuldade em alimentar, respirar adequadamente e manter seu autocuidado. Para todos os profissionais de saúde envolvidos no cuidado destes pacientes o controle destes sintomas é fundamental, mantendo sua qualidade de vida; ver esta melhora numa doença que tem o comportamento mais agressivo, torna-se motivador. E, para aqueles pacientes que tiveram uma redução no tamanho do câncer, a maioria teve esta resposta por um longo período.
O que esses resultados significam para o dia a dia dos pacientes?
Primeira coisa a ser ponderada é que no Brasil, o amivantamabe está aprovado apenas para o tratamento de câncer de pulmão até o momento. Este estudo é o primeiro passo para que a medicação possa ser empregada no tratamento do câncer de cabeça e pescoço no Brasil. Lembrando que o estudo é inicial, foram poucos pacientes incluídos, e os dados finais de sobrevida são importantes. Além disso, o tratamento foi exclusivo para pacientes que tinham câncer de cabeça e pescoço não relacionados ao Papiloma Vírus Humano (HPV). Apenas após aprovação deste tratamento pela Anvisa, esta medicação poderá então ser indicada para os nossos pacientes na prática do consultório, se tornando, assim, um novo padrão de tratamento. (Paloma Oliveto)
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