
Poucos ingredientes, preparo simples e baixo custo. A combinação de melancia, gengibre e linhaça vem conquistando espaço nas redes sociais em receitas compartilhadas por quem busca reduzir o inchaço do dia a dia. Conhecido popularmente como “suco detox”, o preparo tem chamado atenção pela promessa de ajudar o organismo a funcionar melhor e proporcionar sensação de leveza.
Apesar da popularidade, especialistas alertam que os benefícios da bebida são diferentes das promessas que costumam circular na internet. Segundo a nutricionista Ana Clara Cruz, não existe evidência científica de que qualquer suco seja capaz de promover uma desintoxicação do organismo.
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O que acontece é que alguns ingredientes podem favorecer processos naturais do corpo ligados à hidratação, digestão e funcionamento intestinal, fatores que influenciam a sensação de inchaço.
A melancia é um dos principais responsáveis por esse efeito. Composta majoritariamente por água, ela contribui para a hidratação do organismo e também fornece potássio, mineral importante para o equilíbrio dos líquidos corporais. Quando a hidratação está adequada, o corpo tende a regular melhor a retenção de líquidos.
Já o gengibre é conhecido pela presença de compostos bioativos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Além disso, pesquisas apontam que ele pode auxiliar na digestão e reduzir desconfortos gastrointestinais em algumas pessoas.
A linhaça completa a receita oferecendo fibras, lignanas e ômega 3 de origem vegetal. As fibras ajudam no funcionamento do intestino e podem reduzir a sensação de estufamento associada à prisão de ventre, uma das principais causas de desconforto abdominal.
Segundo Ana Clara, a ideia de “desinchar” está muito mais relacionada a esses mecanismos do que a uma suposta eliminação de toxinas.
“O efeito geralmente está ligado à melhora da hidratação e do trânsito intestinal, e não a uma desintoxicação do organismo”, explica.
Outro fator que ajuda a explicar o sucesso da receita é o preço. Diferentemente de suplementos e produtos industrializados vendidos com promessas semelhantes, os três ingredientes costumam ser encontrados facilmente em feiras, mercados e hortifrutis por valores acessíveis.
Mesmo sendo uma bebida feita apenas com alimentos naturais, isso não significa que ela possa ser consumida sem atenção. A nutricionista destaca que cerca de 200 a 300ml por dia costumam ser suficientes para pessoas saudáveis.
O excesso, porém, pode trazer desconfortos dependendo das condições de saúde de cada indivíduo.
O gengibre, por exemplo, exige cautela entre pessoas que utilizam medicamentos anticoagulantes, já que grandes quantidades podem aumentar o risco de sangramentos. Quem convive com gastrite, refluxo ou maior sensibilidade gástrica também pode apresentar irritação ou desconforto digestivo.
A linhaça também merece atenção. Como é rica em fibras, seu consumo deve estar acompanhado de uma boa ingestão de água. Caso contrário, o efeito pode ser o oposto do esperado, provocando gases, distensão abdominal e alterações intestinais.
Pacientes com doença renal avançada também precisam de orientação profissional antes de aumentar o consumo de alimentos ricos em potássio, como a melancia.
Outro ponto destacado é que não existe uma fórmula única para obter benefícios semelhantes. Frutas como abacaxi e frutas vermelhas, além de ingredientes como chia, hortelã, couve e limão, podem compor preparações nutritivas e ricas em compostos antioxidantes.
O mais importante, segundo Ana Clara Cruz, é evitar a ideia de que um único alimento seja capaz de transformar a saúde sozinho.
“O principal erro é atribuir benefícios extraordinários a uma única receita. Os resultados dependem muito mais da alimentação como um todo do que de um alimento específico”, afirma.
No fim das contas, a bebida pode ser uma aliada simples e refrescante para o dia a dia, mas o segredo para se sentir menos inchado continua sendo o mesmo defendido pela ciência há anos. Beber água, manter uma alimentação equilibrada e adotar hábitos saudáveis ainda são as estratégias mais eficazes.
* Estagiária sob supervisão de Roberto Fonseca

Ciência e Saúde
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