
Em meio a uma forte onda de calor, com temperaturas recordes na Europa, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) anunciou que há 80% de probabilidade de um novo episódio de El Niño até agosto, o que aumenta o risco de ocorrência de extremos meteorológicos nos próximos meses. Segundo a entidade das Nações Unidas, o fenômeno — que aquece as águas do Oceano Pacífico equatorial — pode apresentar intensidade moderada ou até mesmo forte.
"O mundo deve tratar este evento pelo que é: um alerta climático urgente", afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, por meio de vídeo. "Temos que nos preparar para um episódio de El Niño potencialmente forte, que vai agravar as secas, aumentar as chuvas intensas e ampliar o risco de ondas de calor, tanto em terra como nos oceanos", advertiu a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo.
O evento modifica a circulação atmosférica mundial e pode provocar efeitos extremos em diferentes regiões ao redor do planeta. Entre o fim de abril e meados de maio, a superfície do mar na parte centro-leste do Pacífico equatorial aqueceu-se, sobretudo por conta de temperaturas especialmente elevadas no fundo da água, que superaram em mais de 6ºC as médias tradicionais.
Para Francisco Eliseu Aquino, climatologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o comunicado expressa bem a realidade. "Entendemos que é certo o desenvolvimento do El Niño, ele segue evoluindo no Oceano Pacífico. Teremos um evento de moderado para, provavelmente, forte, entre a primavera e o verão deste ano. Também considerando-se o estado do planeta e a evolução desse fenômeno, extremos climáticos vão se intensificar, como as ondas de calor, precipitação e inundações."
Velocidade assustadora
Para o período entre junho e agosto, a OMM prevê um conjunto de condições que favorecem o predomínio de temperaturas acima do normal em quase todas as regiões do planeta. Além disso, a organização alerta para um risco extra de estresse térmico e extremos climáticos, como inundações ou secas severas ao redor do planeta.
A organização lembrou que os centros de previsão regionais alertam para índices de precipitações abaixo do normal durante a temporada de chuvas, de junho a setembro, no Chifre da África. A monção deve ser menos abundante do que a média no sul da Ásia, e as condições climáticas, mais quentes e secas na América Central.
Durante o verão do Hemisfério Norte, as águas quentes vinculadas ao fenômeno podem favorecer a formação de furacões no Pacífico central e leste, ao mesmo tempo que limitam seu desenvolvimento no Atlântico, acrescentou a OMM. "As condições associadas ao episódio do El Niño vão jogar mais lenha na fogueira de um planeta em aquecimento. As consequências serão sentidas com uma intensidade ainda maior e o seu alcance será ainda mais amplo, cruzando fronteiras a uma velocidade devastadora", acrescentou Guterres, que voltou a pedir o fim da dependência dos combustíveis fósseis.
Segundo Alexandre Prado, líder em mudanças climáticas do WWF Brasil, esse é mais um recado e um sinal muito claro sobre o que será o El Niño entre 2026 e 2027. "Aqui, no Brasil, temos uma clareza do que isso acarretará. A dúvida fica sobre qual a intensidade. Mas será seca no Nordeste e muita chuva no Sul, como em 2024. O custo disso é enorme, não há como mensurar. São coisas que aconteciam anteriormente, mas que vêm sendo muito potencializadas pelas mudanças climáticas."
Efeito cascata
Celeste Saulo afirmou que 128 países contam com sistemas de alerta multirrisco precoce. O objetivo da ONU é que sejam implementadas em todos os países até o fim de 2027. O chefe da OMM destacou que o El Niño terá "efeitos em cascata", com possíveis consequências para o comércio mundial. De acordo com Saulo, os efeitos vão desde a variabilidade do clima até a economia e a segurança das leis. "Por isso, esta informação é tão pertinente e tão importante", declarou.
FENÔMENO CÍCLICO
O El Niño ocorre a cada dois a sete anos e tem duração de nove a 12 meses. O último episódio, em 2023 e 2024, transformou estes anos nos dois mais quentes já registrados. Seu surgimento cíclico afeta o clima mundial durante grandes períodos.

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