CORAÇÃO PARTIDO

"Morrer de tristeza" existe? O que explica a morte de Marjane Satrapi

O Correio conversou com especialista que afirmou que o luto extremo e sofrimento emocional intenso podem desencadear alterações físicas graves, incluindo problemas cardíacos conhecidos como "síndrome do coração partido"

Embora a tristeza não seja considerada uma causa direta de morte da mesma forma que doenças físicas tradicionais, sofrimentos emocionais intensos podem desencadear alterações biológicas importantes no organismo -  (crédito: BERTRAND GUAY / AFP)
Embora a tristeza não seja considerada uma causa direta de morte da mesma forma que doenças físicas tradicionais, sofrimentos emocionais intensos podem desencadear alterações biológicas importantes no organismo - (crédito: BERTRAND GUAY / AFP)

A morte da escritora iraniana Marjane Satrapi trouxe de volta uma discussão que está cada vez mais respaldada pela ciência: afinal, é possível morrer de tristeza? Familiares da autora afirmaram em comunicado divulgado à imprensa que ela nunca conseguiu superar a morte do companheiro, descrito por Marjane como o grande amor de sua vida.

Um ano após a perda, a escritora morreu, e o relato trouxe uma expressão frequentemente usada em momentos de luto extremo — mas que especialistas garantem estar longe de ser apenas força de linguagem.

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Para a psicóloga clínica Laynara Paiva, que atua no Espaço Casulo, corpo e emoção caminham juntos de forma muito mais profunda do que muitas pessoas imaginam. “Existe essa conexão entre corpo e emoção, por mais que tentamos o tempo todo nos desconectar. As doenças emocionais podem se somatizar no corpo”, explica.

Segundo ela, embora a tristeza não seja considerada uma causa direta de morte da mesma forma que doenças físicas tradicionais, sofrimentos emocionais intensos podem desencadear alterações biológicas importantes no organismo. “Quando uma pessoa vive uma dor emocional profunda, todo o organismo responde, afetando sistemas hormonais, cardiovasculares, imunológicos e nervosos”, afirma.

Quando a dor emocional ultrapassa o simbólico

Expressões como “morreu de tristeza” costumam surgir em histórias marcadas por perdas devastadoras. Mas, para além do simbolismo, a medicina e a psicologia já reconhecem impactos físicos reais causados pelo sofrimento emocional extremo.

“Após perdas significativas, observamos aumento de doenças cardiovasculares, queda da imunidade, piora de doenças pré-existentes e maior vulnerabilidade física”, destaca Laynara. “Em alguns casos, o impacto emocional é tão intenso que pode contribuir para o agravamento da saúde.”

O cérebro, segundo a especialista, reage ao sofrimento emocional de maneira semelhante a uma ameaça física. O organismo entra em estado de alerta constante, ativando mecanismos de sobrevivência conhecidos como “luta ou fuga”. “Grandes perdas causam alterações no sono, perda de apetite, mudanças na pressão arterial e no funcionamento cardíaco”, explica. “Quando essas emoções não são bem elaboradas, o sofrimento permanece somatizado no corpo.”

A síndrome do coração partido

Conhecida popularmente como “síndrome do coração partido”, a cardiomiopatia de Takotsubo é uma condição reconhecida pela medicina e pode surgir após eventos de forte impacto emocional, como luto, separações ou traumas intensos. “Há uma descarga maciça de hormônios do estresse, especialmente adrenalina e noradrenalina, que afeta temporariamente o funcionamento do coração”, explica a psicóloga.

Os sintomas podem se confundir com os de um infarto: dor no peito, falta de ar, palpitações e sensação de esmagamento no tórax. Embora muitos pacientes se recuperem, quadros graves podem trazer complicações sérias e até risco de morte.

Laynara afirma que pacientes em acompanhamento psicológico frequentemente descrevem a dor emocional de forma física. “Após uma perda significativa, muitos relatam sentir como se algo estivesse sendo arrancado do peito”, conta.

Na abordagem da psicoterapia corporal, utilizada pela especialista, a região torácica está diretamente ligada às emoções afetivas. “O segmento torácico, que envolve peito, coração, pulmões, ombros e braços, está fortemente relacionado à capacidade de amar, vincular-se, sentir tristeza e expressar afeto.”


“Não existe, na minha visão, dor psicológica. Existe dor”

Para a psicóloga, não há uma separação absoluta entre dor física e dor emocional. “Só porque não conseguimos palpar ou medir aquela dor, ela não deixa de existir”, pontua.

Ela explica que emoções intensas ativam áreas cerebrais ligadas à sobrevivência e desencadeiam respostas hormonais e fisiológicas em todo o organismo. “Emoções não vivem apenas na mente. Elas habitam o corpo.”

Os impactos podem aparecer de diferentes formas: crises de ansiedade, fadiga persistente, alterações no sono, dores sem causa aparente, falta de ar, dores no peito e até aumento do risco de doenças cardiovasculares.

“O estresse crônico e os estados emocionais intensos estão associados ao aumento da inflamação, da pressão arterial e da sobrecarga cardiovascular”, alerta. “Isso pode elevar o risco de infarto, AVC e outros eventos cardíacos, principalmente em pessoas que já possuem fatores de risco.”

Mulheres e idosos estão entre os mais vulneráveis

Embora qualquer pessoa possa desenvolver a síndrome do coração partido, estudos apontam maior incidência em mulheres na menopausa. “Existe um parâmetro que mostra que mulheres nessa fase têm maior chance de desenvolver o quadro, possivelmente por fatores hormonais, biológicos e emocionais”, explica a psicóloga. “Mas isso não significa que outros grupos estejam protegidos.”

Durante períodos prolongados de luto extremo, o corpo permanece em hiperatividade biológica. Hormônios ligados ao estresse, como cortisol e adrenalina, permanecem elevados por tempo excessivo, provocando desgaste físico contínuo.

“Tristeza não é frescura”

Para Laynara Paiva, minimizar dores emocionais pode impedir que pessoas procurem ajuda em momentos críticos. “Nenhuma emoção ou sentimento é frescura”, afirma. “A ciência e a prática clínica mostram diariamente que emoções não vivem apenas na mente. Elas mobilizam todo o organismo.”

Ela reforça que cuidar da saúde emocional não é um luxo, mas uma necessidade fundamental para preservar também a saúde física. “O corpo sempre participa da nossa história”, conclui. “Quando uma dor encontra espaço para ser sentida, elaborada e expressa de forma saudável, ela tende a se transformar.”

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postado em 05/06/2026 12:27
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