MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Chuvas extremas no Sul têm influência da Antártida e do El Niño, diz estudo

Pesquisa baseada em registros preservados em uma caverna do Paraná revela que a frequência de eventos extremos pode estar ligada ao El Niño, às mudanças na Antártida e ao aquecimento global

Caverna no interior do Paraná, conhecida como
Caverna no interior do Paraná, conhecida como "Caverna do Malfazido". - (crédito: Julio Cauhy/AgênciaFAPESP)

As diversas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul nos últimos anos levantaram uma questão urgente para os cientistas sobre os eventos climáticos extremos estarem se tornando cada vez mais frequentes. Uma pesquisa brasileira revela que, as chuvas extremas possuem influência da Antártida e do El Niño. 

O estudo foi financiado pela pelas duas Fundações de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). A pesquisa reconstruiu a história das chuvas intensas no Sul do Brasil ao longo dos últimos 7,5 mil anos, e concluiu que o século XX concentrou uma das maiores frequências de eventos extremos já observadas nesse período.

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Os resultados foram obtidos a partir da análise das chamadas “estalagmites”, que são formações minerais formadas pelo gotejamento de água rica em minerais, encontradas na Caverna do Malfazido, localizada em Doutor Ulysses, no Paraná. As estalagmites funcionaram como verdadeiros arquivos da natureza. 

Durante episódios de inundação, finas camadas de sedimentos são depositadas sobre essas formações rochosas e ficavam preservadas ao longo do tempo. Ao analisar essas marcas, os pesquisadores conseguiram identificar 921 registros de enchentes e reconstruir um histórico detalhado da ocorrência de chuvas extremas na região. 

O levantamento mostrou que, em média, ocorreram cerca de nove eventos extremos por século ao longo da série histórica. No entanto, durante o século XX esse número dobrou, chegando a aproximadamente 18 ocorrências a cada 100 anos. Para os cientistas, esse aumento coloca o período recente no limite superior da variabilidade natural observada ao longo dos milênios. 

Além de identificar a intensificação das chuvas extremas, o estudo também apontou fatores climáticos que influenciam diretamente esses eventos. Um deles é o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Nos últimos mil anos, os períodos com El Niño moderado ou forte apresentaram maior incidência de chuvas intensas no Sul do país.

Segundo os pesquisadores, episódios históricos de grande impacto, como as enchentes registradas em 1983 e a tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024, ocorreram em anos marcados pela presença do fenômeno.

Outra descoberta importante foi a relação entre as temperaturas da Antártida e o regime de chuvas no Sul do Brasil. Os dados indicam que os períodos de verão mais frios na Antártida Ocidental costumam coincidir com um aumento dos eventos extremos na região sul brasileira. A explicação está nas alterações da circulação atmosférica, que favorecem a formação de frentes frias e o transporte de umidade da Amazônia. 

Esse transporte ocorre por meio do chamado Jato de Baixos Níveis da América do Sul, uma corrente atmosférica que leva grandes volumes de vapor d’água da bacia amazônica para as regiões Sul e Sudeste. Quando essa umidade encontra frentes frias vindas do sul do continente, o resultado pode ser a formação de tempestades intensas e acumulados expressivos de chuva.

A pesquisa também chama atenção para o cenário futuro. Com o aumento das temperaturas globais provocado pelas atividades humanas, a atmosfera passa a reter mais umidade, criando condições favoráveis para precipitações cada vez mais intensas. Somado à possibilidade de eventos de El Niño mais frequentes e fortes, o cenário aumenta o risco de enchentes e desastres naturais.

O estudo também foi publicado em abril na revista Communications Earth & Environment e ganha mais relevância neste ano, pois enquanto algumas regiões do Brasil enfrenta a seca, a região do centro-sul do Brasil enfrenta alertas para possíveis ocorrências de chuvas intensas e desastres hidrogeológicos  segundo, nota técnica divulgada pelo   O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). 

O geólogo Julio Cauhy, autor principal do artigo, conta ao FAPESP  que os estudos começaram há mais de sete anos, e que desenvolveu parte da pesquisa no Instituto Max Planck de Química e na Universidade Johannes Gutenberg Mainz, ambos na Alemanha. 

“Os espeleotemas podem crescer de maneira contínua e rápida, como no caso da Caverna do Malfazido, produzindo um registro de alta resolução. Ou seja, é possível ter uma frequência interanual ou até anual da ocorrência dos eventos. Com isso, conseguimos produzir o primeiro registro de eventos extremos para um passado remoto”, diz Julio à Agência FAPESP. 

Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de investimentos em prevenção, monitoramento e adaptação às mudanças climáticas. Compreender como esses fenômenos ocorreram no passado ajuda a projetar o que pode acontecer nas próximas décadas e a preparar comunidades que vivem em áreas mais vulneráveis aos impactos das chuvas extremas.

*Estagiária sob supervisão de Rafaela Soares 

 

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postado em 25/06/2026 17:48
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