
Uma estrela que passou perto do Sistema Solar há cerca de 2,5 milhões de anos pode estar influenciando a chegada de cometas até hoje. A conclusão faz parte de um novo estudo baseado em dados da missão Gaia, da Agência Espacial Europeia, que reconstruiu com alta precisão os movimentos de bilhões de estrelas da Via Láctea.
A protagonista da pesquisa é a HD 7977, uma estrela semelhante ao Sol localizada na constelação de Cassiopeia. Os pesquisadores acreditam que ela passou relativamente perto da nossa estrela e pode ter alterado o equilíbrio da Nuvem de Oort, uma região formada por corpos gelados que envolve o Sistema Solar e é considerada a principal origem dos cometas de longo período.
Segundo os cientistas, a força gravitacional da HD 7977 teria deslocado esses objetos gelados, enviando parte deles em direção ao interior do Sistema Solar. O resultado seria uma espécie de chuva de cometas que pode estar acontecendo há milhões de anos e cujos efeitos ainda seriam observados atualmente.
Os pesquisadores chegaram a essa hipótese após analisar 112 cometas observados desde 1989. Eles compararam as trajetórias reais desses objetos com simulações de computador e perceberam que o comportamento de muitos deles combina melhor com um cenário em que a HD 7977 passou entre 6 mil e 10 mil unidades astronômicas do Sol.
Os chamados cometas de longo período levam milhões de anos para completar uma volta ao redor do Sol. Justamente por isso, eles funcionam como uma espécie de registro da história do Sistema Solar. Ao estudar essas órbitas, os astrônomos conseguem identificar eventos que aconteceram antes da existência da humanidade.
Apesar dos resultados, os próprios autores destacam que a pesquisa ainda não encerra a questão. Algumas diferenças entre os modelos e as observações indicam que pode haver fatores ainda desconhecidos sobre as órbitas dos cometas, como efeitos causados pelos jatos de gás liberados por eles ou outras características da estrutura do Sistema Solar que ainda não foram compreendidas.
A expectativa é que novos dados da missão Gaia ajudem a confirmar ou descartar essa hipótese nos próximos meses. Além disso, o Observatório Vera Rubin deverá descobrir novos cometas na próxima década, o que será uma amostra maior para verificar se as trajetórias realmente carregam a assinatura da passagem da HD 7977. Se a teoria for confirmada, os astrônomos terão identificado um caso raro em que um encontro entre estrelas deixou marcas no Sistema Solar milhões de anos depois.
*Estagiária sob supervisão de Luiz Felipe

Ciência e Saúde
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