Um cientista brasileiro está à frente de um dos maiores projetos já realizados na área da biodiversidade mundial. Alexandre Antonelli, biólogo nascido em Campinas e diretor científico do Kew Gardens, em Londres, liderou a digitalização completa de um acervo que reúne séculos de história da flora do planeta. O trabalho tornou acessível os registros de plantas e fungos coletados ao longo de cerca de 400 anos.
O projeto foi concluído neste mês após quatro anos de trabalho. Ao todo, foram digitalizados aproximadamente 7,4 milhões de exemplares de plantas e fungos preservados pela instituição britânica. As imagens e informações agora podem ser consultadas gratuitamente por pesquisadores de qualquer lugar do mundo, sem a necessidade de viajar até Londres.
Considerado um dos centros de pesquisa botânica mais importantes do planeta, o Kew Gardens guarda coleções que incluem espécies coletadas em diferentes continentes e até amostras reunidas por naturalistas que ajudaram a construir o conhecimento científico moderno. Com a digitalização, essas informações passam a fazer parte de uma base global de dados.
Segundo Antonelli, “a principal motivação foi democratizar o acesso ao conhecimento científico e acelerar descobertas em áreas como conservação, evolução e identificação de novas espécies”. Em entrevista à Agência FAPESP, ele afirmou que pesquisadores de países ricos em biodiversidade muitas vezes precisavam percorrer milhares de quilômetros para consultar materiais coletados em seus próprios países.
O projeto tem inspiração brasileira. Antonelli contou que o modelo utilizado pelo Kew Gardens foi baseado no Reflora, programa criado para reunir digitalmente registros da flora brasileira que estavam espalhados por instituições estrangeiras.
O trabalho ganha ainda mais importância diante dos desafios enfrentados pela natureza. O relatório Estado Mundial das Plantas e Fungos de 2026 aponta que espécies continuam desconhecidas e que muitas delas podem estar ameaçadas antes mesmo de serem estudadas. Para o brasileiro, ampliar o acesso às “coleções científicas” é uma forma de acelerar respostas para uma crise ambiental que exige decisões mais rápidas.
Antonelli também mantém projetos ligados à conservação da biodiversidade brasileira e à restauração da Mata Atlântica. Suas iniciativas marcam a presença da ciência nacional em instituições de pesquisa respeitadas pelo mundo.
*Estagiária sob supervisão de Luiz Felipe
