Surto

Peste surgiu há 5.500 anos e já era altamente letal, mostra estudo

Para o trabalho, a equipe analisou o DNA de 46 humanos encontrados em quatro cemitérios na região do Lago Baikal, no leste da Sibéria.

O primeiro surto de peste aconteceu há 5.500 anos na Sibéria e atingiu uma comunidade de caçadores-coletores. A descoberta foi feita por um grupo internacional de cientistas liderados pela Universidade de Copenhague, na Dinamarca. Segundo o trabalho, publicado ontem na revista Nature, o achado bate de frente com a teoria de que a doença letal tenha se originado nas cidades medievais.

Para o trabalho, a equipe analisou o DNA de 46 humanos encontrados em quatro cemitérios  na região do Lago Baikal, no leste da Sibéria. Usando técnicas avançadas de sequenciamento, os pesquisadores reconstruíram genomas bacterianos preservados nos dentes, revelando cepas antigas de peste até então desconhecidas.

"O fato de as primeiras formas de peste serem leves ou virulentas tem sido motivo de debate, mas nossas descobertas demonstram que essas cepas antigas já eram altamente letais", afirma o autor sênior Eske Willerslev, professor das universidades de Copenhague e de Cambridge, na Inglaterra.

No total, o DNA da Yersinia pestis, bactéria causadora da peste, foi detectado em 18 dos 46 indivíduos, ou seja, quase 40%. Essa taxa de detecção é superior à relatada em algumas valas comuns da Idade Média.

Mortalidade

Os perfis de mortalidade nos dois maiores cemitérios mostram uma grande quantidade de crianças e adolescentes entre os mortos, questão que deixou os arqueólogos intrigados por muitos anos. "O número excepcionalmente alto de crianças e o curto período de tempo representavam um verdadeiro enigma que tentávamos desvendar desde a década de 1990. Descobrir que a peste foi a causa é extraordinário, mas faz todo o sentido", afirma o arqueólogo Andrzej Weber, da Universidade de Alberta, no Canadá.

As cepas antigas da peste tinham um fator genético produtor de toxina não observado nas bactérias medievais. Os superantígenos podem desencadear respostas imunológicas extremas e estão associados a complicações inflamatórias muito fortes, provavelmente aumentando a gravidade da infecção.

"Esta descoberta altera nossa compreensão dos primeiros surtos de peste: mesmo antes de a bactéria desenvolver uma transmissão eficiente por pulgas, essas cepas antigas parecem ter carregado uma potente combinação de fatores de virulência que poderiam tornar a infecção altamente letal", afirma o autor sênior Martin Sikora, professor associado da Universidade de Copenhague.

O estudo também frisa que a peste pode ter se originado na Ásia Central ou Nordeste antes de se espalhar pela Eurásia por meio dos roedores selvagens. Evidências arqueológicas sugerem que esses caçadores-coletores interagiam de perto com marmotas e os pesquisadores acreditam que os surtos podem ter se espalhado diretamente desses animais infectados para humanos.

 

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