
Uma das espécies mais ameaçadas do planeta acaba de ganhar uma espécie de “segunda vida”. Cientistas criaram um arquivo digital completo da vaquita, pequeno mamífero marinho que vive exclusivamente no norte do Golfo da Califórnia, no México, e que hoje está à beira da extinção.
O trabalho reuniu tomografias, imagens em altíssima resolução e modelos tridimensionais capazes de reproduzir cada detalhe do esqueleto do animal. O objetivo é garantir que pesquisadores, estudantes e instituições de ensino possam continuar estudando a espécie mesmo diante do risco real de seu desaparecimento.
A iniciativa foi liderada por pesquisadores da Universidade Atlântica da Flórida em parceria com o Museu de História Natural de San Diego, a NOAA Fisheries e outras instituições. O material foi construído a partir do esqueleto de uma fêmea coletada em 1966, décadas antes de a situação da espécie atingir níveis críticos.
Considerada a menor toninha do mundo, a vaquita mede cerca de 1,5 metro de comprimento e se tornou conhecida pelas manchas escuras ao redor dos olhos e da boca. Apesar de ter sido descrita pela ciência apenas em 1958, rapidamente passou a representar um dos maiores alertas sobre a perda de biodiversidade nos oceanos.
Para criar a réplica digital, os cientistas combinaram diferentes tecnologias de imagem. O esqueleto passou por tomografias médicas, exames de microtomografia capazes de registrar estruturas menores que a espessura de um fio de cabelo e fotografias detalhadas de cada osso. Depois, softwares especializados transformaram milhares de imagens em modelos tridimensionais interativos.
O resultado permite que qualquer pessoa visualize a anatomia do animal por diferentes ângulos sem precisar manipular o material original, considerado extremamente raro e delicado.
Segundo o pesquisador Jamie Knaub, autor principal do estudo, o projeto busca proteger um registro científico valioso e ampliar a conscientização sobre a situação da espécie. “A iniciativa também permitirá a criação de réplicas para museus, salas de aula e programas educativos.” completou.
Os modelos foram disponibilizados gratuitamente em uma plataforma científica aberta, permitindo acesso de pesquisadores e instituições de diferentes países.
A criação do arquivo digital ocorre em um momento delicado. Estimativas indicam que restam apenas entre seis e dez vaquitas vivendo em liberdade. O principal motivo para o colapso populacional é o emalhamento em redes de pesca utilizadas ilegalmente na captura da totoaba, peixe cuja bexiga natatória movimenta um lucrativo mercado clandestino internacional.
Embora governos, cientistas e organizações ambientais tenham realizado diversas ações nas últimas décadas, a recuperação da população continua sendo um desafio.
Pesquisadores esperam que a iniciativa ajude a manter viva a memória científica da espécie e ao mesmo tempo, sirva de alerta sobre os impactos humanos na biodiversidade dos oceanos.
*Estagiária sob supervisão de Paulo Floro.

Ciência e Saúde
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