Pesquisadores liderados pela Imperial College London, na Inglaterra, sugerem que alguns videogames promovem benefícios que vão muito além da diversão, ajudando também adultos a lidar com a solidão, desafios e com as próprias emoções. O estudo, divulgado ontem na revista JMIR Publications, descobriu que adultos que jogam games de aventura de mundo aberto, acessíveis e inspiradores relatam níveis mais baixos de solidão, são mais resilientes e têm mais autocontrole.
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Para o trabalho, os cientistas entrevistaram 2.252 adultos com 21 anos ou mais sobre seus hábitos de jogos, perspectiva emocional e sentimentos de solidão. De acordo com os autores, as descobertas sugerem que tipos específicos de jogos podem oferecer resultados emocionais positivos que passam do alívio de escapar da rotina cansativa.
Durante a pesquisa, os cientistas levantaram a hipótese de que a combinação de jogos desafiadores, baseados na exploração com outros que proporcionam momentos mais relaxantes, pode criar o que eles descrevem como uma "dieta digital" equilibrada para o bem-estar emocional, afirmou Andreas B. Eisingerich, cientista da Imperial College London e autor correspondente do trabalho.
De acordo com os dados da pesquisa, a participação em jogos de mundo aberto está relacionada a aproximadamente 50% mais estoicismo e 30% menos solidão. Enquanto brincar com games acessíveis apresentam aumentos de cerca de 24% na capacidade de foco e controle emocional e uma taxa semelhante de redução do sentimento de isolamento.
Denise Milk, psicóloga em Brasília, diz que, do ponto de vista profissional, jogos de mundo aberto podem reduzir a sensação de solidão porque oferecem experiências de autonomia, agência e pertencimento simbólico. “O jogador não é apenas espectador: ele explora, decide, enfrenta desafios, constrói caminhos e percebe progresso. Isso ativa dimensões importantes para o bem-estar, como senso de controle, competência e propósito.”
Segundo a especialista, para adultos que vivem rotinas marcadas por pressão, isolamento ou baixa conexão emocional, esse tipo de jogo pode funcionar como um espaço de recuperação psíquica. “Não elimina a necessidade de vínculos reais, mas pode oferecer uma experiência subjetiva de presença, narrativa e continuidade, reduzindo temporariamente a percepção de vazio ou desconexão.”
Habilidades
A psicóloga Regina Vera Sautchuck, de São Paulo, destaca que os jogos podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades ligadas à resiliência emocional e que pessoas naturalmente mais resilientes podem se sentir mais atraídas por esses tipos de diversão. “Os próprios autores sugerem que os desafios, a resolução de problemas e a superação de obstáculos presentes nos videogames podem estimular características relacionadas ao autocontrole e à capacidade de enfrentar dificuldades.”
“Sem videogame, eu não seria quem sou hoje, provavelmente, sequer estaria vivo, para ser honesto”, declarou ao Correio Max Meirelles Gonzaga, 39. Segundo o servidor público, os jogos que começaram a fazer parte de sua vida ainda na infância o ajudaram a sobreviver ao cotidiano cheio de problemas. “Sempre fui muito sensível e, para além do contexto doméstico de muito sofrimento, as tribulações do mundo me trouxeram muita tristeza e profunda angústia, de modo que o videogame, junto aos livros e revistas em quadrinhos, se transformaram na principal forma de me proteger da realidade. Os universos coloridos, divertidos, com personagens sorridentes e cheios de vida eram — e, de certa forma, ainda são — irresistíveis.”
“O videogame me acompanha por toda a vida e muito além de um mero escape, me trouxe inspirações, contato com arte, música, enredos inspiradores. Me proporcionou ainda convívio social, porque conheci alguns dos meus melhores amigos nesse meio e até aprendi inglês fluente sem nunca ter feito curso, apenas jogando”, completou o servidor público.
De acordo com os cientistas, a solidão continua sendo reconhecida globalmente como uma crescente preocupação de saúde pública, associada a piores resultados de saúde mental e física. Eles reforçam que os jogos não substituem o atendimento profissional em saúde mental, mas sugerem que videogames quando cuidadosamente selecionados podem ser ferramentas acessíveis e escaláveis para apoiar o bem-estar emocional.
Para os pesquisadores, o estudo ultrapassa o estereótipo de que jogos são apenas tempo passivo em frente à tela. Em vez disso, destaca que os videogames podem proporcionar espaços onde os jogadores praticam persistência, resolução de problemas, recuperação de contratempos e regulação emocional.
O gosto de Júlia Figueiredo Pascual, 31, pelos jogos começou na infância, com tabuleiros, sobretudo o xadrez, e foi se adaptando aos videogames modernos, até chegar na profissão, atuando como arquiteta de jogos e produtora. “Eu tenho dois jogos favoritos: o The Sims 1 e o Pokémon Go —sim, ainda jogo esses— acho que eles me ajudam a me regular. Então, às vezes, principalmente quando vou para lugares com muitas pessoas e estou meio nervosa, o game me ajuda a me distrair das coisas pelas quais estou passando e até do próprio ambiente. É uma forma de direcionar a minha atenção para outro foco e conseguir me sentir mais confortável naquela situação”, disse.
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