
Embora a maioria das brasileiras manifeste preferência pelo parto normal no início da gestação, fatores como a falta de informações durante o pré-natal, o acesso limitado à analgesia e aspectos da organização dos serviços de saúde contribuem para que muitas acabem passando por cesarianas sem indicação clínica.
As conclusões fazem parte de um estudo divulgado nesta segunda-feira (13/7) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que investigou as barreiras enfrentada por gestantes na escolha da via de nascimento.
Intitulada "Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes", a pesquisa concluiu que a decisão sobre o tipo de parto não depende apenas da vontade da mulher, mas também de fatores sociais, familiares e estruturais.
A especialista em saúde e nutrição do Unicef, Stephanie Amaral, afirmou que a falta de informação durante o pré-natal e limitações da própria organização dos serviços de saúde ajudam a explicar esse cenário.
"Dentre outros fatores estruturais que impactam a decisão pelo parto normal, podemos destacar alguns que o estudo identificou, como o acesso restrito à analgesia no serviço público, que acaba pressionando pela cesariana (...). Entretanto, aspectos da desinformação também perpassam por questões estruturais, como por exemplo a falta de informação sobre o parto durante o pré-natal, a falta de envolvimento do(a) acompanhante, e até mesmo o desconhecimento do Plano de Parto (...)", pontuou a especialista.
Segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) citados no levantamento, sete em cada dez brasileiras preferem o parto normal no início da gravidez, apesar de a cesariana ser a forma de nascimento mais predominante no país,
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De acordo com a chefe de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Luciana Phebo, ampliar acesso à informação e garantir condições adequadas para que as mulheres exerçam sua escolha são medidas essenciais.
"O nosso desafio não é 'convencer' as mulheres, mas garantir as condições para que elas possam fazer escolhas informadas e viver um parto seguro e respeitoso. E ter informação confiável, atendimento de saúde qualificado, acesso aos direitos e uma rede de apoio adequada faz toda a diferença para que isso aconteça. Quando promovemos um parto respeitoso, estamos protegendo não apenas os direitos das mulheres, mas também os direitos de cada criança a um início de vida mais seguro e saudável", afirmou.
Influência da família e dos serviços de saúde
O estudo identificou que a decisão sobre a via de parto costuma ser fortemente influenciada pelas pessoas que cercam a gestante. Relatos de mães, avós, tias e seogras exercem peso importante, especialmente entre usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS).
Stephanie Amaral afirmou que a rede de apoio exerce papel importante na decisão das gestantes, mas ressaltou que as experiências individuais não devem substituir orientações baseadas em evidências.
"No âmbito social, o estudo mostra o quanto a experiência anterior de mães, sogras e mulheres da rede de apoio pode interferir na decisão sobre o parto. Entretanto, cada experiência é individual, e com informação adequada, o desfecho pode ser mais positivo e baseado em evidências."
A pesquisa apontou também que a baixa participação dos parceiros no pré-natal pode contribuir para escolhas baseadas em insegurança ou desconhecimento sobre o trabalho de parto, favorecendo a preferência pela cesariana.
"Um acompanhante bem-informado e envolvido pode se tornar um importante diferencial para a experiência de parto, quando alinhado às expectativas da mulher," informou Amaral.
Entre os fatores estruturais, o levantamento destacou a oferta insuficiente de analgesia para o parto normal, o que leva parte das mulheres a enxergar a cirurgia como a única alternativa para evitar a dor.
"Os resultados do estudo, no âmbito individual, foram muito marcados pelo medo da dor. Esse é um fator muito relevante para a decisão sobre o parto durante a gestação e também para o encaminhamento para a cesárea durante o parto. Sendo assim, é urgente a implementação de medidas relacionadas ao manejo da dor, que podem, sim, contribuir para a diminuição no número de cesáreas eletivas", citou a especialista.
O desejo de realizar laqueadura também apareceu como um elemento que pode estimular cesarianas sem indicação médica, sobretudo em locais onde há menor oferta de métodos contraceptivos que possam ser associados ao parto vaginal.
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No setor privado, a pesquisa identificou ainda fatores institucionais e econômicos que podem favorecer a realização de cesarianas. Entre eles estão:
- A previsibilidade do agendamento cirúrgico;
- A organização da rotina médica;
- Custos envolvidos na manutenção de equipes disponíveis durante longos períodos de trabalho de parto.
Stephanie defendeu que os modelos de remuneração priorizem práticas baseadas em evidências, e não fatores econômicos.
"Modelos de financiamento não podem estar na frente do direito à saúde – da mãe e do bebê. Nós propomos que esses modelos incentivem as práticas que são baseadas em evidências, em vez do que pode gerar mais lucro para profissionais ou para o hospital."
Recomendações
Como formas de ampliar o acesso ao parto normal, o estudo apontou medidas como o fortalecimento dos Centros de Parto Normal, a ampliação da atuação de doulas, obstetrizes e enfermeiras obstetras, o inventivo ao uso do Plano de Parto e a expansão da oferta de analgesia e de métodos não farmacológicos para alívio da dor na rede pública.
"Fatores como ampliar os Centros de Parto Normal e garantir o acesso à laqueadura após o parto vaginal, e não apenas durante a cesariana, contribuem para a autonomia da mulher (...)", descreveu a especialista em nutrição.
Sobre o plano de parto, Amaral interpreta como uma ferramenta que auxilia na comunicação com a equipe de saúde.
"O plano de parto é uma ferramenta interessante porque, para ser elaborado, a mulher precisa estar informada sobre o parto e sobre seus direitos (...). Além disso, ele ajuda no diálogo com a equipe de saúde, dando visibilidade à importância do respeito à autonomia da mulher e contribuindo para um cuidado mais ético e seguro", diz.
Método
Para chegar aos resultados, os pesquisadores realizaram revisão de literatura científica e ouviram 131 pessoas em Belém (PA) e São Paulo (SP), entre gestantes, puérperas e profissionais de saúde das redes pública e privada.
Foram entrevistadas 94 mulheres, 73 atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e 21 pelo setor privado, além de 37 profissionais da área, incluindo gestores, médicos e enfermeiros.

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