PREPAREM-SE PARA O IMPACTO

Foguete da SpaceX deve atingir a Lua na próxima terça-feira (4)

Embora não represente risco para a Terra, impacto será acompanhado por cientistas, que esperam estudar como se forma uma nova cratera lunar

Estimativas da ONU apontam que cerca de 140 milhões de fragmentos de lixo espacial orbitam a Terra -  (crédito: SERGIO FLORES / AFP)
Estimativas da ONU apontam que cerca de 140 milhões de fragmentos de lixo espacial orbitam a Terra - (crédito: SERGIO FLORES / AFP)

Milhões de fragmentos de satélites desativados e estágios de foguetes descartados permanecem vagando pelo espaço sem qualquer controle ou utilidade. Entre eles está o estágio superior de um foguete Falcon 9, da SpaceX, empresa do bilionário Elon Musk.

Após lançar, em janeiro de 2025, dois módulos privados com destino à Lua, a estrutura ficou sem combustível suficiente para retornar à Terra e permaneceu em trajetória errante por mais de um ano. Esse percurso chegará ao fim na madrugada da próxima terça-feira (4/7), às 2h30 pelo horário de Brasília, quando o equipamento deverá colidir com a superfície lunar a aproximadamente 8,7 mil quilômetros por hora, levantando uma nuvem de poeira que poderá, em determinadas condições, ser detectada por telescópios terrestres.

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Embora o choque não ofereça qualquer ameaça ao planeta, especialistas avaliam que ele simboliza um problema crescente relacionado ao acúmulo de lixo espacial. Ao mesmo tempo, a colisão representa uma rara oportunidade científica, já que permitirá acompanhar em tempo real a formação de uma cratera causada por um impacto cujas características são conhecidas com precisão.

"A grande vantagem é que conhecemos todos os parâmetros do impacto", afirmou César González, divulgador científico do Planetário de Madri, em entrevista ao jornal espanhol El País.

O objeto que atingirá a Lua corresponde ao estágio superior de um Falcon 9 lançado em janeiro de 2025 para transportar os módulos lunares Blue Ghost, da Firefly Aerospace, e Resilience, desenvolvido pela empresa japonesa ispace. Esse tipo de foguete é composto por duas etapas. A primeira, responsável pelo impulso inicial, retorna à Terra para ser reutilizada. Já a segunda segue para a órbita e permanece no espaço após cumprir sua missão. Ela mede mais de 12 metros de comprimento e tem massa aproximada de quatro toneladas.

A missão integrou o programa Commercial Lunar Payload Services (CLPS), iniciativa da NASA vinculada ao programa Artemis, cujo objetivo é ampliar a participação da iniciativa privada no transporte de equipamentos científicos e tecnológicos para a Lua e preparar o retorno de astronautas ao satélite, além do estabelecimento de uma presença humana permanente em sua superfície. O projeto reúne Estados Unidos, Europa, Japão, Canadá e outros parceiros internacionais.

Diferentemente dos impactos naturais, cujos estudos normalmente se restringem às marcas deixadas após a colisão, este evento será analisado com informações detalhadas sobre o objeto, incluindo massa, velocidade, trajetória e ângulo de impacto.

"Quando se formar a cratera, poderemos medir seu diâmetro, sua profundidade e a energia liberada. Ao dispormos de todos esses dados, entenderemos muito melhor como as crateras se formam na Lua", explicou González.

Outro aspecto considerado valioso pelos pesquisadores é a possibilidade de observar o comportamento do regolito, camada de poeira fina e fragmentos de rochas que cobre praticamente toda a superfície lunar e que se formou ao longo de bilhões de anos de sucessivos impactos de meteoritos.

"Cada impacto foi pulverizando a rocha até criar essa camada que recobre praticamente toda a Lua", afirmou o especialista.

As estimativas indicam que o Falcon 9 atingirá uma região próxima à cratera Einstein, situada nas proximidades da divisa entre o lado visível e o lado oculto da Lua. Segundo González, o material lançado pelo impacto poderá ser observado com mais facilidade devido ao contraste com o fundo escuro do espaço.

"Todo o regolito que for lançado poderá ser contrastado com o fundo negro do céu, e isso facilitará seu estudo", concluiu.

As condições para observar um clarão provocado pela colisão não são consideradas favoráveis, pois o impacto ocorrerá muito próximo da borda do disco lunar e em uma área iluminada pelo Sol. Ainda assim, especialistas não descartam a possibilidade de detectar parte do material ejetado.

A expectativa é de que cerca de uma tonelada de regolito seja lançada durante o choque, com fragmentos que poderão alcançar até três quilômetros de altitude antes de voltarem à superfície. Já a cratera formada deverá ser registrada posteriormente por sondas em operação na órbita lunar.

Caso não é inédito

Esta não será a primeira vez que um foguete fora de controle termina sua trajetória na Lua. Em 2022, astrônomos acompanharam um objeto que inicialmente foi identificado como um possível Falcon da SpaceX. Posteriormente, análises concluíram que se tratava de um veículo espacial chinês lançado em 2014 e que permaneceu vagando pelo espaço até colidir com o satélite em março de 2022. Foi o primeiro impacto acidental de um objeto produzido pelo ser humano na superfície lunar.

Na avaliação de González, o lixo espacial que permanece ao redor da Terra representa um problema de grandes proporções. Segundo ele, a colisão de um desses detritos com um satélite em funcionamento pode inutilizar completamente o equipamento, além de representar risco constante para a Estação Espacial Internacional, onde vivem continuamente entre cinco e nove astronautas.

O divulgador alerta ainda que a expansão das missões tripuladas à Lua e o crescimento da participação de empresas privadas na exploração espacial tendem a agravar esse cenário.

Lixo espacial

Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que cerca de 140 milhões de fragmentos de lixo espacial orbitam atualmente a Terra sem controle, deslocando-se a velocidades superiores a 28 mil quilômetros por hora. Entre esses objetos estão diversos estágios de foguetes abandonados, que figuram entre os maiores detritos deixados em órbita após os lançamentos.

 

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postado em 31/07/2026 16:08
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