O consumo diário de até 400mg de cafeína — cerca de quatro xícaras de café — pode reduzir o risco de doenças cardiovasculares, como insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral (AVC). Embora alguns estudos associem à bebida problemas como hipertensão arterial e arritmias, um artigo da Associação Norte-Americana do Coração (AHA) publicado na revista Circulation esclarece que a diferença entre os efeitos positivos e adversos está na dosagem, na fonte da substância e no tipo de preparo.
Os benefícios são observados na versão coada ou instantânea, sem açúcar, creme e nenhum outro aditivo. As bebidas energéticas, porém, devem ser evitadas. "Os energéticos costumam reunir altas doses de cafeína em pequeno volume, facilitando o consumo excessivo em pouco tempo", esclarece o cardiologista Vagner Vinicius Ferreira, do Hospital Mantevida, em Brasília. "Além disso, os energéticos frequentemente contêm taurina, guaraná, ginseng, açúcar e outros estimulantes que podem potencializar os efeitos sobre o sistema cardiovascular." Essa combinação, segundo o médico, pode aumentar a frequência cardíaca, elevar a pressão arterial, favorecer arritmias e alterar a função dos vasos sanguíneos. "O risco torna-se ainda maior quando essas bebidas são consumidas com álcool ou durante exercícios físicos intensos."
A revisão de estudos publicada pela AHA destaca que, além de doenças cardiovasculares, o café, em quantidades moderadas, tem sido associado a menos casos de diabetes 2, um dos principais fatores de risco para enfermidades do sistema circulatório. Para isso, porém, a bebida não deve receber adição de ingredientes.
"O ponto central é separar o café do que a gente coloca nele", explica o nutricionista Arthur Catão, de Brasília. "O café em si é uma bebida rica em compostos benéficos, o problema aparece quando ele vira veículo de açúcar, mel, xarope e chantilly em excesso. Aí, a gente adiciona uma carga de calorias e de açúcar que empurra o metabolismo na direção contrária, favorece ganho de peso e resistência à insulina, justamente o oposto do que se busca." O especialista em nutrição funcional admite que "não é uma colherzinha de açúcar" que vai transformar a bebida em veneno. "O que compromete de verdade é o exagero: aquele café grande, adocicado, com açúcar e chantilly, que, na prática, é quase uma sobremesa líquida."
Conjunto
O artigo ressalta que os benefícios do café não estão relacionados somente à cafeína. "O café é uma bebida rica em compostos bioativos. Entre os principais estão os polifenóis, especialmente os ácidos clorogênicos, que têm antioxidante e ajudam a reduzir o estresse oxidativo e processos inflamatórios", enumera o nutricionista Thyago Nishino, de São Paulo. "Além deles, há compostos como a trigonelina, que também tem potencial antioxidante e pode contribuir para a proteção celular."
Segundo Nishino, esses componentes atuam em conjunto, favorecendo a saúde cardiovascular, melhorando a função dos vasos sanguíneos e contribuindo para um melhor controle do metabolismo da glicose. "É justamente essa combinação de substâncias que faz do café uma bebida muito mais complexa do que apenas uma fonte de cafeína."
O modo de preparo da bebida também influencia nos efeitos potenciais à saúde, diz a AHA. O artigo destaca métodos como expresso, prensa francesa e café turco podem elevar os níveis de colesterol LDL, o chamado "colesterol ruim", tanto na versão com cafeína quanto na descafeinada. Já o cafezinho passado no filtro está liberado. "Isso acontece porque o filtro retém boa parte do cafestol e do kahweol, compostos naturalmente presentes no café que estão associados ao aumento do colesterol LDL quando consumidos regularmente em maior quantidade", esclarece a nutricionista Krysna Büttner, do Rio de Janeiro.
Para pessoas que têm dislipidemia (taxa alta de colesterol), a recomendação de Büttner é preferir o café filtrado em papel para consumo habitual. "Não significa que seja necessário eliminar completamente esses métodos, mas, para quem já apresenta colesterol elevado, substituir a maior parte do consumo pelo café filtrado pode ser uma estratégia simples e benéfica", diz.
Ritmo
Em relação às arritmias, o consumo moderado de café não demonstrou aumentar o risco de fibrilação atrial, uma das alterações mais frequentes do ritmo cardíaco. Alguns estudos, inclusive, encontraram associação com menor incidência dessa condição. Porém, foram observadas taxas mais elevadas de contrações ventriculares prematuras (PVCs) — batimentos cardíacos extras que, embora muitas vezes sejam benignos, podem exigir investigação em pessoas com doenças cardiovasculares.
A AHA destaca que a resposta à cafeína varia bastante. A velocidade com que o organismo metaboliza a substância depende de fatores como genética, idade, metabolismo, uso de medicamentos e doenças preexistentes. Enquanto algumas pessoas podem ingerir várias xícaras de café sem apresentar sintomas, outras desenvolvem palpitações, ansiedade, tremores ou dificuldade para dormir após pequenas doses, diz o artigo.
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