
Cientistas da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, sugerem que mesmo mudanças climáticas modestas e de curto prazo podem impactar a busca por serviços relacionados à saúde mental. De acordo o estudo, publicado recentemente na revista Frontiers in Psychiatry, as flutuações de temperatura e os níveis de luz solar estão ligados à mudança na procura por profissionais dessa área.
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Segundo a pesquisa, mudanças nos regimes de chuva tiveram um efeito pouco efeito consistente, sugerindo que padrões climáticos específicos, e não as condições gerais, sejam os principais fatores que influenciam questões psicológicas. Para os autores, os resultados destacam o papel das condições ambientais na influência da procura por cuidados relacionados com a saúde mental.
Para o trabalho, um dos maiores desse tipo já realizado até hoje, os cientistas usaram dados de mais de 4,6 milhões de contatos com serviços de saúde mental em departamentos de emergência, serviços de atendimento médico de urgência fora do horário comercial e de linhas telefônicas de aconselhamento na Inglaterra.
O pesquisador principal, Richard Elson, da Escola de Ciências Ambientais Universidade de East Anglia, afirma que uma das descobertas mais importantes da pesquisa é que as condições climáticas do dia a dia influenciam a saúde mental e quando e como as pessoas buscam apoio, “e não apenas condições climáticas extremas, como ondas de calor”.
“Compreender os fatores que influenciam as flutuações na procura por cuidados de saúde mental é uma importante prioridade de saúde pública e pode ajudar nos esforços de planeamento e preparação dos serviços de saúde mental nas condições climáticas atuais e futuras”, diz o pesquisador.
Segundo a psicóloga e psicoterapeuta Silvia Oliveira, o cérebro responde constantemente aos estímulos do ambiente. “Temperaturas elevadas, por exemplo, podem aumentar o desconforto físico, favorecer a irritabilidade, dificultar a concentração e prejudicar a qualidade do sono. Já a redução da exposição à luz natural interfere no ritmo biológico, alterando a produção de hormônios e neurotransmissores relacionados ao humor e ao ciclo do sono.”
De acordo com a pesquisa, as condições climáticas já foram associadas a consequências negativas para a saúde mental, e a crescente preocupação com as mudanças aumentou o interesse nessas associações. No entanto, a maioria das pesquisas, até agora, concentrou-se em eventos extremos e há poucas evidências sobre o impacto do tempo do dia a dia no uso de serviços de saúde relacionados à saúde mental.
Dados metereológicos
Agora, a equipe liderada pela Escola de Ciências Ambientais da Universidade de East Anglia, em parceria com a Escola de Medicina de Norwich, junto à Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido (UKHSA), estimou as associações entre a exposição às condições climáticas e os cuidados de saúde em toda a Inglaterra.
Eles utilizaram dados de vigilância nacional coletados pela UKHSA e dados meteorológicos do período de janeiro de 2014 a dezembro de 2022. As variáveis meteorológicas incluíram a temperatura média diária, as horas de sol pleno e a quantidade de chuva em cada dia.
Ao analisar o conjunto de informações, os cientistas notaram que a procura por serviços de saúde aumentou com a subida das temperaturas e foi mais elevada nos dias com menos horas de sol. Dias mais curtos foram associados a mais consultas médicas fora do horário normal e idas ao pronto-socorro por ansiedade e depressão. Adultos com mais de 64 anos buscaram socorro quando estava mais frio e também quando as temperaturas eram mais altas.
Entre os motivos para ligações ao serviço de emergência estavam automutilação, intoxicação alcoólica ou dificuldades para dormir. Os contatos com médicos de clínica geral, fora do horário comercial, incluíram ansiedade, depressão, automutilação ou problemas de sono. Os atendimentos no pronto-socorro por condições de saúde mental foram ansiedade, depressão, automutilação e intoxicação alcoólica.
Segundo Cristiane Vaz de Moraes Pertusi, psicóloga e psicoterapeuta e presidente da Associação Brasileira de terapia Familiar, a literatura tem mostrado um crescimento da chamada ecoansiedade, que é a angústia relacionada às mudanças climáticas e às incertezas sobre o futuro. “No consultório, ela costuma aparecer não apenas como medo de desastres ambientais, mas também como sentimento de impotência, culpa, preocupação com os filhos e com as próximas gerações, além de uma percepção constante de que o mundo está menos previsível”, revela.
“É importante destacar que a ecoansiedade, por si só, não é um transtorno mental. Em muitos casos, ela representa uma resposta compreensível diante de um problema real. Entretanto, quando esse sofrimento passa a comprometer o funcionamento diário, o sono, o trabalho ou os relacionamentos, merece atenção profissional”, completou a especialista.
Para Silvia Oliveira, um dos aspectos mais relevantes do estudo é mostrar que não apenas eventos climáticos extremos afetam a saúde mental. “As condições comuns do cotidiano também influenciam o comportamento humano e podem aumentar a procura por atendimento psicológico e psiquiátrico. Isso amplia nossa compreensão sobre saúde mental, que não depende apenas de fatores individuais, mas também do ambiente em que vivemos." A psicóloga finaliza: "À medida em que as mudanças se tornam mais frequentes, será cada vez mais importante integraar a saúde mental às políticas de adaptação climática, investir em prevenção e fortalecer estratégias que aumentem a resiliência emocional da população”.
Palavra de especialista
Grupos de risco
"É importante, principalmente para pacientes idosos, ficarmos mais atentos aos períodos de maior calor. O sono também é bastante prejudicado nesse público durante as noites quentes. Os acamados e idosos, mesmo aqueles que não têm alterações psiquiátricas, acabam apresentando piora em razão da redução da qualidade do descanso. Da mesma forma, adolescentes autistas podem apresentar mais alterações, tanto no padrão de sono quanto no padrão de humor, tornando-se mais depressivos e mais irritados. As mulheres no período da menopausa também merecem mais atenção, principalmente no ambiente de trabalho. É importante observar como será o comportamento, fazer avaliações da temperatura dos ambientes e que os serviços de medicina do trabalho compreendam que pode haver uma demanda maior por atendimento e tratamento. Além disso, é importante já adotar medidas preventivas em relação, por exemplo, às infecções."
Fabio Leite, coordenador da psiquiatria do Hospital Anchieta
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