
Uma peça de aproximadamente quatro toneladas do foguete Falcon 9, da SpaceX, atingiu a superfície da Lua na madrugada desta quarta-feira (5/8), após passar mais de um ano vagando pelo espaço. A colisão, prevista por astrônomos meses antes, não oferece qualquer risco para a Terra, mas deve ter aberto uma nova cratera no solo lunar.
Segundo o jornal britânico The Guardian, o objeto fazia parte do Falcon 9, da SpaceX, utilizado para lançar o módulo lunar Blue Ghost, desenvolvido pela Firefly Aerospace.
A expectativa era de que o impacto ocorresse por volta das 2h35, no horário de Brasília, quando o fragmento alcançaria a superfície a cerca de 8.690 km/h. Modelos elaborados por cientistas indicavam que a colisão lançaria uma grande quantidade de poeira e rochas lunares para o alto. Apesar disso, a nuvem formada seria praticamente impossível de ser vista da Terra sem equipamentos de observação de alta precisão.
Mesmo após o horário previsto, astrônomos profissionais e observadores amadores não conseguiram confirmar imediatamente que o choque havia ocorrido. Conforme reportou o The Guardian, a dificuldade se deve ao fato de a área atingida estar localizada próxima ao limite da face visível da Lua, o que restringe a visualização por telescópios terrestres.
A Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço (Nasa) estima que o impacto tenha formado uma cratera de cerca de 18 metros de diâmetro e quatro metros de profundidade, além de espalhar material da superfície lunar ao redor do ponto de colisão.
A agência pretende comparar imagens registradas antes e depois do evento para analisar seus efeitos e aperfeiçoar estudos sobre esse tipo de ocorrência. Segundo a Nasa, os dados coletados poderão ajudar pesquisadores a "compreender melhor os impactos artificiais e suas implicações para a exploração espacial."
Na véspera da colisão, o porta-voz da agência espacial norte-americana, Jimi Russell, reforçou que o episódio não representa ameaça ao planeta. "O impacto não representa qualquer perigo para a Terra, e os cientistas da Nasa planejam coletar dados lunares a partir desse evento e aperfeiçoar as técnicas de rastreamento de objetos no espaço."
Em lançamentos espaciais, o mais comum é que as partes do foguete responsáveis por impulsionar a nave até a órbita retornem à atmosfera terrestre, onde se desintegram, ou caiam em regiões remotas do oceano.
Entretanto, missões destinadas à Lua exigem um impulso muito maior do que aquelas realizadas nas proximidades da Terra. Por esse motivo, o componente utilizado no lançamento da Firefly Aerospace permaneceu no espaço após a separação da nave, tornando-se mais um entre os milhares de fragmentos de lixo espacial que circulam ao redor do planeta.
Foi apenas neste ano que astrônomos confirmaram que essa parte do foguete, já sem combustível e incapaz de realizar qualquer manobra, seguiria uma trajetória que terminaria na superfície lunar.
A diretora dos programas científicos da Nasa e da cápsula Dragon na SpaceX, Julianna Scheiman, explicou que a mudança de rota ocorreu em razão de fenômenos naturais. "O que aconteceu foi, essencialmente, uma combinação da atividade solar e das forças gravitacionais, que colocou esse objeto em uma trajetória em direção à Lua."
O astrônomo Bill Gray, desenvolvedor de um software amplamente utilizado por pesquisadores e autor de um relatório divulgado em abril que antecipava a colisão, acredita que o episódio poderá fornecer algumas informações úteis para a ciência, ainda que de alcance limitado.
"Isso pode ter algum interesse científico — provavelmente pequeno —, e talvez possamos aprender algumas coisas com esse evento", contou ao jornal.
Para Gray, porém, o caso também serve de alerta sobre a forma como equipamentos espaciais são abandonados após cumprirem sua função. "Ele não representa qualquer perigo para ninguém, mas destaca uma certa negligência na forma como os equipamentos espaciais remanescentes [lixo espacial] são descartados."
Embora incomuns, impactos provocados por destroços espaciais já ocorreram anteriormente. Um componente de um foguete chinês colidiu com a Lua em março de 2022 após uma missão de testes. Em outra ocasião, em 2009, a própria Nasa provocou deliberadamente a queda de parte de um foguete sobre a superfície lunar para estudar o material ejetado pela colisão.
Segundo o The Guardian, Nasa e SpaceX já discutem alternativas para impedir que componentes de futuras missões acabem seguindo trajetórias semelhantes e atinjam a Lua de forma acidental.
No mesmo dia em que a colisão chamava a atenção da comunidade científica, a SpaceX divulgou seu primeiro resultado trimestral desde a abertura de capital. A companhia apresentou prejuízo menor do que o previsto pelo mercado e aumento expressivo da receita. Ainda assim, suas ações registraram forte queda, reflexo da cautela de investidores em relação à capacidade da empresa de cumprir as metas ambiciosas estabelecidas para os próximos anos.

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