
O Reino Unido anunciou nesta quinta-feira (3/9) que pretende investir £400 milhões — cerca de US$ 540 milhões (R$ 2,754 bilhões) — no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), mecanismo de financiamento criado pelo Brasil para transformar a conservação das florestas tropicais em uma atividade economicamente valorizada. O anúncio representa um reforço importante para o fundo, que precisa ampliar sua capitalização para iniciar as operações.
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O aporte britânico será feito na forma de empréstimo, e não de doação. Segundo o governo do Reino Unido, a decisão está condicionada à conclusão das regras de governança e operação do TFFF, à realização das análises de diligência e ao cumprimento de outras condições. O governo britânico também quer participar dos mecanismos de supervisão do fundo.
A entrada de Londres eleva para aproximadamente US$ 7,3 bilhões os recursos comprometidos com o mecanismo, segundo informações divulgadas nesta quinta-feira (3). A meta inicial é alcançar US$ 10 bilhões para que o fundo possa avançar para a etapa operacional. O objetivo final é muito mais ambicioso: mobilizar US$ 125 bilhões para financiar a conservação de florestas tropicais em países em desenvolvimento.
COP30
O TFFF foi lançado na COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025, sob liderança brasileira. A proposta procura alterar uma lógica histórica do financiamento ambiental internacional: em vez de remunerar principalmente projetos de combate ao desmatamento, o mecanismo pretende criar uma fonte permanente de recursos para países que mantêm suas florestas tropicais conservadas.
Pelo desenho do fundo, os recursos captados no mercado financeiro serão investidos para gerar retorno. Parte desse rendimento será destinada aos países que preservarem suas florestas, criando uma espécie de pagamento pela manutenção da vegetação em pé. O governo brasileiro apresenta o modelo como uma forma de tornar a conservação ambiental uma atividade economicamente vantajosa.
A lógica é especialmente relevante para países amazônicos. A floresta presta serviços ambientais de alcance global, como armazenamento de carbono, regulação do ciclo da água e conservação da biodiversidade, mas os custos de sua proteção recaem principalmente sobre os países onde ela está localizada. O TFFF procura criar um mecanismo financeiro internacional para repartir parte desse custo.
Outro aspecto considerado central na estrutura do fundo é a participação de povos indígenas e comunidades locais. A proposta prevê que uma parcela dos recursos chegue diretamente a essas populações, reconhecendo o papel desempenhado por elas na conservação dos territórios florestais.
"Significativo"
Para Mauricio Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil, a decisão britânica ocorre em um momento importante para consolidar o mecanismo. “É muito significativo ver o Reino Unido se somar ao TFFF neste momento decisivo. Este compromisso reforça uma mudança necessária na forma como o mundo reconhece e financia a conservação das florestas tropicais: valorizando quem as protege e garantindo recursos de longo prazo para que essa proteção seja efetiva”, afirma.
Na avaliação do executivo, a inclusão de povos indígenas e comunidades locais pode ampliar o alcance da iniciativa para além da agenda ambiental. “Ao incluir povos indígenas e comunidades locais como parte central dessa solução, o TFFF tem potencial para transformar a conservação em uma agenda de desenvolvimento”, diz. Voivodic também espera que a participação britânica tenha efeito sobre outros potenciais investidores.
Investimento
A natureza do aporte britânico é um dos elementos que chamam atenção no anúncio. O Reino Unido afirma que a opção pelo empréstimo está relacionada a uma nova estratégia de financiamento climático, na qual o país pretende atuar mais como investidor do que como doador. A expectativa é recuperar o capital emprestado por meio do próprio desempenho financeiro do TFFF.
Os países que receberão os recursos para conservação, porém, não terão de devolver o dinheiro. De acordo com o desenho do mecanismo, os retornos dos investimentos deverão permitir simultaneamente remunerar os investidores e realizar os pagamentos aos países que comprovarem a conservação das florestas.
O governo britânico também condicionou o investimento à participação em estruturas de supervisão. A medida permitirá ao país acompanhar a aplicação dos recursos e as decisões relacionadas à gestão do fundo. O investimento ainda passará por uma análise final, que deverá considerar a estrutura definitiva do TFFF, os mecanismos de crédito e as condições do empréstimo.

Ciência e Saúde