
Pesquisadores do Mass General Brigham, nos Estados Unidos, publicaram nesta quarta-feira (3/08), na revista The Lancet, um artigo que mostra que o paciente Tim Andrews viveu 271 dias de forma saudável após receber um rim de porco em 2025. Em janeiro de 2026, ele foi submetido a um segundo procedimento, desta vez com um órgão humano. O caso marca o maior período sem diálise já registrado após esse tipo de xenotransplante e a primeira vez que é feita a transição para um rim humano. Nos 231 dias seguintes ao novo procedimento, Andrews se manteve em bom estado de saúde. Todo o processo contou com a participação do médico brasileiro Leonardo Riella, que também é o principal autor da publicação.
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À época do primeiro transplante, Tim Andrews tinha 66 anos, insuficiência renal avançada devido ao diabetes tipo 2, e uma expectativa de espera de mais de cinco anos por um órgão humano devido à falta de doadores disponíveis. Em razão do grande declínio clínico e poucas chances de receber um rim a tempo, optou por participar do estudo de xenotransplantes. A cirurgia ocorreu com sucesso, e o órgão suíno geneticamente modificado demonstrou boa função por mais de nove meses, mantendo o paciente livre de diálise durante esse período.
"A escassez de órgãos é a maior crise que enfrentamos atualmente na área de transplantes", afirmou o autor principal, Leonardo Riella, do Centro de Ciências de Transplantes e da Divisão de Nefrologia do Mass General Brigham. "Sabemos que a melhor opção de tratamento para pacientes com doença renal em estágio terminal que desenvolveram insuficiência renal é o transplante, mas simplesmente não temos órgãos humanos suficientes para realizar transplantes em tempo hábil. Nossa visão é que o xenotransplante possa ajudar a suprir essa lacuna, inicialmente como uma ponte para que os pacientes deixem a diálise enquanto aguardam um rim de doador humano e, potencialmente, à medida que comprovarmos a segurança e a durabilidade a longo prazo, como uma terapia definitiva por si só."
Funções essencias
Os resultados observados ao longo de 271 dias mostraram que o rim de porco realizou funções essenciais do órgão, incluindo filtração e produção de urina, resguardando o paciente da diálise por um período prolongado. Durante esse tempo, Andrews apresentou complicações imunológicas e vasculares, incluindo um episódio de rejeição, que respondeu bem ao tratamento com imunossupressores.
Após esse período, os médicos fizeram algo inédito, removeram o rim de porco e Andrews recebeu um rim humano. O novo órgão começou a funcionar de maneira rápida e eficiente, promovendo melhora significativa em alguns parâmetros clínicos e sem sinais de transmissão de patógenos zoonóticos ou infecções.
Durante o acompanhamento de 231 dias após a nova cirurgia, o paciente permaneceu estável. Para os cientistas, esses resultados mostram que o procedimento de xenotransplante pode servir como uma estratégia reversível e eficaz de ponte para o transplante humano, especialmente para pacientes com alta urgência e poucas chances de receber um órgão.
Segundo a publicação, a pesquisa também contribui para a compreensão das respostas imunológicas ao enxerto de porco geneticamente modificado, identificando mecanismos que podem ser alvo de futuras intervenções imunossupressoras ou de engenharia genética. Além disso, a ausência de transmissão de patógenos do porco confirma a viabilidade da biossegurança em futuros procedimentos de xenotransplante.
"O Mass General Brigham tem uma longa história de transplante renal, que começou com o primeiro transplante de rim com doador vivo em 1954", disse o autor sênior Tatsuo Kawai, diretor do Centro Legorreta para Tolerância Clínica em Transplantes do Mass General Brigham . "Nossas descobertas dão continuidade a essa história, ampliando nosso conhecimento sobre xenotransplantes e gerando informações que podem ser aplicadas a outros trabalhos de transplante de órgãos."
Segundo a coordenadora da nefrologia do Hospital Anchieta, Helen Siqueira, o xenotransplante renal ainda deve ser encarado como uma terapia experimental que pode vir a servir tanto como ponte quanto como substituição mais prolongada. "Não há, porém, razão científica para assumir que ele ficará limitado a uma ponte, mas esse artigo demonstra um marco já que redefine os limites da durabilidade de xenoenxertos em humanos. Há, inclusive, sinais de que a hipótese de substituição permanente seja plausível, como por exemplo, o rim suíno ser capaz de fornecer o suporte renal adequado, por um tempo mais prolongado que em experimentos anteriores e ser descontinuado sem alosensibilização significativa ou infecção zoonótica."
Pioneirismo
O primeiro xenotransplante de rim suíno para um receptor humano vivo foi feito em 2024 no Hospital Geral de Massachusetts, o paciente sobreviveu 52 dias antes de falecer por causas cardíacas não relacionadas à cirurgia. Nenhum estudo anterior documentou a sobrevivência de um xenotransplante por mais de dois meses, uma "ponte" bem-sucedida para o recebimento de um órgão humano ou os mecanismos que levam à falência tardia do xenotransplante em receptores vivos.
Pedro Mendes Filho, nefrologista do Hospital Brasília, da Rede Américas, diz que o fato de Andrews ter recebido o rim humano, e o procedimento ter dado certo "está longe de ser suficiente para garantir que isso acontecerá em outros casos." Para o especialista, trata-se de um caso único. "Apesar disso, não deixa de ser uma vitória e de abrir várias perspectivas. Ainda precisamos, primeiro, ter certeza de que o resultado será reprodutível, observar outros pacientes com desfechos semelhantes e aprimorar a técnica. Mas esse caso abre, sim, uma grande janela de oportunidades."
Duas perguntas para
Elber Rocha, médico nefrologista e coordenador do Programa de Transplantes do Hospital Santa Lúcia, em Brasília
Do ponto de vista da medicina de transplantes, quão importante é demonstrar que um xenotransplante pode funcionar como uma ponte real entre a doença renal terminal e um transplante humano?
É um conceito extremamente importante. Uma das grandes limitações do transplante renal é a discrepância entre o número de pacientes que necessitam de um órgão e a disponibilidade de rins humanos. Se conseguirmos demonstrar de forma consistente que um rim de porco geneticamente modificado pode oferecer função renal adequada durante a espera e, posteriormente, permitir a realização de um transplante humano, cria-se uma nova estratégia terapêutica. O xenotransplante deixaria de ser pensado apenas como uma possível substituição definitiva do órgão humano e passaria também a ter um papel de ponte, permitindo reduzir a exposição à diálise enquanto o paciente aguarda um órgão humano. Isso pode ser particularmente relevante porque permanecer anos em diálise não é uma situação biologicamente neutra: há impacto cardiovascular, infeccioso, funcional e na qualidade de vida.
Se essa estratégia se tornar segura e reprodutível, quais pacientes poderiam ser os maiores beneficiados?
Provavelmente não começaremos oferecendo xenotransplante para todos os pacientes com doença renal terminal. Os maiores beneficiados inicialmente deverão ser aqueles com baixa probabilidade de receber um rim humano em tempo adequado, especialmente quando a permanência prolongada em diálise representa risco significativo. Isso pode incluir pacientes com previsão de espera muito longa, ausência de doador vivo e situações nas quais a deterioração clínica durante a espera possa comprometer a possibilidade futura de transplante. Existe, porém, um equilíbrio importante: o candidato precisa ter risco suficiente para justificar uma terapia ainda inovadora, mas também reserva clínica para tolerar cirurgia, imunossupressão e acompanhamento extremamente rigoroso. Portanto, a seleção dos pacientes será um dos aspectos mais importantes dessa nova fase da medicina de transplantes.
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