
A menopausa está associada a mudanças no cérebro, mas elas não seguem o mesmo padrão observado durante a puberdade e a gravidez. É o que indica um estudo da Nature Communications que analisou exames de ressonância magnética de 1.095 mulheres em diferentes momentos dessas três fases da vida.
A principal diferença apareceu na matéria cinzenta, tecido cerebral relacionado a diversas funções, como memória, atenção e processamento de informações. Durante a puberdade e a gravidez, os pesquisadores identificaram redução no volume de matéria cinzenta do córtex, a camada mais externa do cérebro. Já entre as mulheres que passaram da pré-menopausa para a pós-menopausa durante o acompanhamento, não houve redução estatisticamente significativa no volume total ou cortical de matéria cinzenta.
O resultado não significa que o cérebro permaneça inalterado durante a menopausa. A conclusão do trabalho é justamente que as grandes transições hormonais da vida feminina estão associadas a padrões diferentes de reorganização cerebral.
“Na menopausa, em vez de um hiperfluxo hormonal, temos um hipofluxo hormonal. O que ocorre é uma queda brusca, principalmente com oscilações”, explica o ginecologista Waldir Moreno Arevalo, membro da Sociedade Brasileira de Climatério e autor de Descomplicando a Menopausa.
Segundo o especialista, a diferença em relação à gravidez ajuda a compreender por que as experiências cerebrais dessas fases não são iguais. “O que ocorre no cérebro na gravidez e no puerpério é diferente do que ocorre na menopausa”, afirma.
Puberdade e gravidez tiveram redução de matéria cinzenta
O estudo acompanhou meninas antes e depois da primeira menstruação, mulheres antes e depois da primeira ou segunda gravidez e participantes que passaram da pré-menopausa para a pós-menopausa entre os dois exames.
A puberdade e a gravidez apresentaram um padrão semelhante. Nas meninas, a passagem pela primeira menstruação esteve associada a reduções no volume total e na matéria cinzenta do córtex. Mudanças parecidas foram observadas entre as mulheres que passaram pela primeira ou pela segunda gestação.
As duas fases também apresentaram alterações em algumas regiões cerebrais em comum, embora não fossem idênticas. Na puberdade, as mudanças foram mais intensas em diversas áreas do cérebro do que as observadas durante a gravidez.
Para Waldir, essas alterações precisam ser interpretadas dentro do processo de adaptação do cérebro às mudanças de cada fase. “O que acontece na puberdade e na gravidez, principalmente, é a poda neural. Existe uma limpeza cerebral que retira as terminações que não vão ser mais usadas”, explica.
O médico relaciona esse processo às reduções de matéria cinzenta identificadas nessas fases. A comparação, porém, não deve ser entendida como uma evidência de que a redução represente necessariamente perda de capacidade cerebral.
Na menopausa, resultado foi diferente
Entre as 120 mulheres que passaram da pré-menopausa para a pós-menopausa durante o período acompanhado, os pesquisadores não encontraram redução estatisticamente significativa no volume total ou cortical de matéria cinzenta.
Ao mesmo tempo, reduções relacionadas à idade apareceram entre mulheres que permaneceram na pré-menopausa ou na pós-menopausa durante todo o acompanhamento. A partir desses resultados, os autores levantam a possibilidade — ainda preliminar — de que a transição menopausal esteja relacionada a uma desaceleração temporária da redução de matéria cinzenta associada ao envelhecimento.
O próprio estudo, no entanto, apresenta limitações importantes. Os pesquisadores não tinham medições hormonais comparáveis entre as três amostras. Além disso, a classificação da puberdade e da menopausa foi baseada em informações fornecidas pelas próprias participantes.
Por isso, o trabalho não permite afirmar que os hormônios sejam diretamente responsáveis pelas diferenças observadas.
E a sensação de “mente nebulosa”?
A ausência de uma redução significativa de matéria cinzenta durante a transição menopausal também não significa que mulheres nessa fase não possam apresentar sintomas relacionados à memória, atenção ou concentração.
Queixas como esquecimentos, dificuldade de foco, irritabilidade, alterações de humor e sono ruim são frequentemente relatadas durante o climatério. Para Waldir, é importante observar que esses sintomas podem estar relacionados a diferentes fatores que aparecem simultaneamente nessa fase. “Na perimenopausa, você tem grandes oscilações de estrogênio: sobe e desce com uma rapidez intensa, o que gera desconforto, alterações de humor, irritabilidade, sono, atenção e esquecimento”, afirma.
O especialista destaca ainda a relação entre as ondas de calor e a qualidade do sono. Segundo ele, os fogachos podem interromper o descanso noturno e, consequentemente, contribuir para o cansaço e para a dificuldade de concentração no dia seguinte. “Essa mulher não consegue mais ter sono profundo, fica acordando, tendo o sono interrompido. Isso faz com que o cérebro não descanse”, diz.
Para ele, é justamente essa combinação de sintomas que pode fazer com que a mulher tenha a sensação de estar com a memória pior ou com dificuldade para realizar tarefas que antes faziam parte da rotina. “Isso faz com que tenha ainda mais cansaço no outro dia, mais esquecimentos e ‘brancos’ por falta realmente de reconexão durante a noite”, afirma.
Apesar de relacionar os sintomas à queda hormonal e ao sono prejudicado, o especialista não deve ser usado como evidência de que as alterações identificadas no estudo sejam a causa direta dessas queixas. A pesquisa avaliou mudanças estruturais no cérebro, mas não demonstrou que elas sejam responsáveis pela chamada “névoa mental” relatada por algumas mulheres.
Essa distinção é importante porque o estudo aponta um padrão diferente de reorganização cerebral na menopausa, mas não estabelece uma relação direta entre uma alteração estrutural específica e sintomas cognitivos.
Na avaliação de Waldir, independentemente do resultado estrutural observado nos exames, as queixas das pacientes precisam ser consideradas durante a consulta. “O estudo mostra um outro mecanismo de como o cérebro sofre, mas o cérebro sofre. E, já que o cérebro sofre, eu preciso dar uma resposta para essa mulher”, afirma.
O médico defende que sintomas persistentes sejam avaliados individualmente e que não sejam automaticamente atribuídos à idade ou tratados apenas como uma questão emocional. “Não é uma questão só psíquica, não é uma questão que a mulher inventa”, diz.
O que a descoberta muda na prática?
Por enquanto, o estudo não indica uma mudança específica na conduta médica. Os próprios autores ressaltam que os resultados precisam ser interpretados com cautela, especialmente porque não houve medições hormonais comparáveis entre os grupos.
A pesquisa, portanto, acrescenta evidências de que o cérebro feminino não responde da mesma maneira a todas as grandes transições hormonais. Puberdade, gravidez e menopausa apresentam trajetórias distintas, e a ausência de redução significativa de matéria cinzenta na transição para a pós-menopausa não significa ausência de mudanças no cérebro.
Para Waldir, o principal impacto está em reforçar a necessidade de ouvir as mulheres que chegam ao consultório com queixas cognitivas, alterações de humor ou problemas de sono. “É mais um elemento para nos obrigar a estudar e a nos prontificar a tratar essas mulheres, a fazer com que tenham dignidade e qualidade de vida e respeito aos seus sintomas”, afirma.
O especialista também ressalta que atividade física, alimentação, exercícios de memória e outros hábitos podem fazer parte dos cuidados nessa fase. Em relação à terapia hormonal, ele é um defensor do tratamento, mas a indicação deve ser individualizada e feita por avaliação médica, considerando os riscos e benefícios para cada paciente.
A descoberta, portanto, não transforma a menopausa em sinônimo de perda cerebral. O que o trabalho mostra é algo mais específico: o cérebro passa por diferentes formas de reorganização ao longo da vida feminina, e a transição menopausal não reproduz o mesmo padrão observado na puberdade e na gravidez.

Ciência e Saúde
Ciência e Saúde
Ciência e Saúde
Ciência e Saúde
Ciência e Saúde
Ciência e Saúde