GLP-1

Canetas emagrecedoras impactam tratamento de obesidade

Especialistas debatem, em São Paulo, como a expansão do uso das canetas emagrecedoras muda a avaliação do tratamento da obesidade por hospitais, operadoras e planos de saúde. No Brasil, 62,6% dos adultos estão acima do peso

Os análogos do receptor do hormônio GLP-1 foram desenvolvidos para tratar a obesidade -  (crédito: PixHere/Divulgação )
Os análogos do receptor do hormônio GLP-1 foram desenvolvidos para tratar a obesidade - (crédito: PixHere/Divulgação )

O avanço das chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, está provocando mudanças na forma como hospitais e operadoras de planos de saúde avaliam o tratamento da obesidade. O impacto financeiro dessas terapias, a necessidade de acompanhamento prolongado dos pacientes e a comparação com procedimentos cirúrgicos estão entre os temas que serão discutidos no evento Healthcare Innovation Show (HIS) 2026, que começa amanhã, em São Paulo. 

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Dados mais recentes do Ministério da Saúde apontam apontam que 62,6% dos adultos brasileiros estão com excesso de peso e 24,3% têm obesidade. A prevalência da obesidade cresceu 118% nas últimas duas décadas, aumentando a pressão por respostas tanto no sistema público quanto na saúde suplementar. 

O debate sobre a expansão das canetinhas emagrecedoras não se restringe ao preço de cada medicamento. Para o cirurgião Ricardo Cohen, diretor do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é necessário considerar os resultados obtidos ao longo do tempo. “Analisar apenas o custo da medicação sem olhar o desfecho longitudinal é um erro estratégico da saúde suplementar”, afirma.

Segundo Cohen, tratamentos farmacológicos utilizados durante anos, especialmente quando há baixa adesão, podem representar um custo maior do que uma intervenção cirúrgica em determinados pacientes. 

Bariátrica

O crescimento dos tratamentos farmacológicos e dos atendimentos ambulatoriais pode estar associado à redução no número da cirurgia bariátrica no Brasil. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) apontam queda de 18% no volume de procedimentos entre 2023 e 2024. 

Especialistas destacam que a relação entre medicamentos e cirurgia, porém, não é necessariamente de substituição direta. A escolha depende do perfil clínico do paciente, da resposta ao tratamento e da continuidade do acompanhamento. 

Ricardo Cohen, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, alerta para os riscos de se interromper o tratamento sem acompanhamento adequado. “O abandono precoce do tratamento sem o devido suporte multidisciplinar provoca a perda de massa magra e o efeito sanfona”, alerta. De acordo com o especialista, a descontinuação pode agravar o quadro clínico e aumentar os custos do sistema com o reaparecimento de complicações. 

O HIS 2026 acontece de 16 e 17 de setembro, em São Paulo e reúne representantes de hospitais, operadoras, indústria farmacêutica e startups. 


Duas perguntas para Ricardo Cohen, diretor do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) apontou uma queda no volume de cirurgias, em paralelo à alta nos atendimentos ambulatoriais. O que essa redução pode significar? 

Essa queda não significa menor demanda por cuidado, mas uma mudança na porta de entrada do paciente. Os hospitais precisam deixar de tratar a obesidade como uma linha de cuidado exclusivamente cirúrgica e estruturá-la como um centro integrado, com nutrição, endocrinologia, psicologia, atividade física e cirurgia sob o mesmo protocolo. Na prática, exige-se investimento na capacidade ambulatorial para o acompanhamento contínuo. Ao mesmo tempo, não se pode reduzir a expertise cirúrgica, pois parte dos pacientes em uso de GLP-1 vai eventualmente precisar de cirurgia, seja por resposta insuficiente ou por complicações graves. O equilíbrio está em integrar os dois polos em uma linha de cuidado única e longitudinal.

Diante dos alertas de órgãos reguladores contra o uso banalizado e estético das canetas, como reforçar o valor do tratamento de comorbidades graves sem cair no comércio informal?

Obesidade clínica é uma doença definida por disfunção de órgãos e sistemas, e não apenas por um número na balança. Os análogos de GLP-1 foram desenvolvidos para tratar essa doença. O comércio informal e o uso sem prescrição são riscos reais ao paciente e prejudicam quem realmente precisa do medicamento ao pressionar o abastecimento e reforçar a falsa percepção de que se trata de um produto de estética. Reforçar o valor terapêutico exige comunicação clara das sociedades médicas, prescrição responsável baseada em diagnósticos rigorosos e maior fiscalização do comércio informal.


 

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postado em 15/09/2026 19:28
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