
Você olha para o relógio e pensa: “Dá tempo”. Toma banho, escolhe a roupa, procura a chave, responde uma mensagem e, quando percebe, aqueles 20 minutos imaginados já viraram 40. Ainda assim, na próxima vez, a conta pode ser praticamente a mesma: “Hoje eu consigo”.
Esse comportamento ganhou um nome em sueco: tidsoptimista, algo como “otimista do tempo”. A expressão é usada para descrever quem tende a acreditar que terá mais tempo do que realmente tem e, por isso, acaba se atrasando com frequência. Não se trata de uma condição médica ou de um diagnóstico psicológico, mas de um padrão comportamental que pode ter diferentes explicações.
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Para a psicóloga clínica Laynara Paiva, uma das chaves para entender o fenômeno está na diferença entre saber quanto uma tarefa costuma durar e conseguir fazer uma previsão realista no momento em que ela acontece. “A pessoa tende a fazer uma previsão baseada no cenário ideal, e não necessariamente na experiência concreta”, explica.
É como se o cérebro montasse uma versão editada da rotina. O banho será rápido, a roupa estará escolhida, a chave estará no lugar de sempre, o elevador chegará imediatamente e o trânsito colaborará. Pequenas etapas que, somadas, consomem minutos importantes acabam ficando fora da conta.
A psicóloga Cristiane Vaz de Moraes Pertusi, doutora em Psicologia do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (Abratef), relaciona esse mecanismo ao que a psicologia chama de falácia do planejamento: a tendência de subestimar quanto tempo uma tarefa vai exigir, mesmo quando experiências anteriores mostram que ela costuma demorar mais. “Conhecer o tempo habitual não significa usar essa informação no planejamento”, ressalta.
Quando o desejo pesa mais que o relógio
A questão, portanto, não é necessariamente matemática. Em determinadas situações, a pessoa pode deixar de fazer uma estimativa baseada no que costuma acontecer e passar a trabalhar com aquilo que gostaria que acontecesse.
Laynara resume a diferença: uma coisa é pensar “eu tenho 20 minutos”; outra é pensar “eu preciso que isso caiba em 20 minutos”. Na segunda situação, o desejo pode interferir na previsão. “Hoje vai ser diferente”, “vou ser rápida” ou “é pertinho” são pensamentos que parecem inofensivos, mas podem fazer com que uma exceção seja transformada em regra.
O mesmo acontece com deslocamentos. Se determinado trajeto costuma levar 40 minutos, mas em uma ocasião excepcional foi possível fazê-lo em 25, essa experiência pode acabar sendo usada como referência para o próximo compromisso. No cálculo, ainda podem desaparecer o tempo para estacionar, caminhar até o destino, esperar o elevador ou simplesmente sair de casa.
Para Cristiane, o problema está justamente em confundir o que é possível com aquilo que é provável. “Conseguir terminar rapidamente em uma ocasião excepcional não significa que isso seja provável na rotina”, resume.
O tempo não é percebido da mesma maneira
Existe ainda uma diferença entre calcular a duração de uma atividade e perceber o tempo enquanto ela acontece. Segundo Cristiane, a percepção da duração envolve atenção e memória. Quando alguém está muito absorvido por uma atividade, pode acompanhar menos a passagem dos minutos. Já organizar o comportamento dentro de um prazo exige outras habilidades, como planejar etapas e conseguir interromper uma tarefa para começar outra.
Laynara acrescenta uma dimensão corporal à questão. Para ela, o tempo não é apenas uma informação mostrada pelo relógio: também é uma experiência vivida pelo corpo. “Quando estamos muito acelerados, distraídos ou desconectados das nossas próprias sensações, podemos perceber menos os sinais de que o tempo está passando”, afirma.
Isso ajuda a explicar por que duas pessoas podem olhar para o mesmo intervalo de tempo e vivê-lo de maneiras diferentes. A pessoa pode até saber, racionalmente, que os minutos estão passando, mas não perceber que o momento de sair está se aproximando.
Redes sociais podem piorar a conta
Nesse cenário, as redes sociais também podem entrar na equação. Vídeos curtos, notificações, novidades constantes e conteúdos que não têm um encerramento claro favorecem a permanência diante da tela. “Vou só responder uma mensagem” pode se transformar em uma sequência de conteúdos e, quando a pessoa volta a olhar o relógio, meia hora passou.
Cristiane ressalta, porém, que os efeitos não são iguais para todos e que pesquisas sobre a relação entre redes sociais e estimativa de tempo apresentam resultados variados. O ponto mais direto é que o uso pode ocupar justamente o período reservado para outra tarefa.
Laynara também evita colocar toda a responsabilidade nas redes. Para ela, elas podem potencializar uma dificuldade que já existe, especialmente em pessoas que têm dificuldade de interromper atividades prazerosas ou fazer a transição de uma tarefa para outra.
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“Eu funciono melhor sob pressão”
Existe outro comportamento comum entre os otimistas do tempo: a capacidade aparentemente impressionante de fazer em dez minutos algo que, minutos antes, parecia exigir vinte. O compromisso se aproxima, o atraso se torna inevitável e, de repente, a pessoa acelera. A atenção se concentra, as distrações são deixadas de lado e o corpo entra em outro estado.
Para Laynara, isso pode criar uma armadilha. “Muitas vezes a pessoa não funciona melhor sob pressão. Ela simplesmente só consegue acessar determinado nível de mobilização quando existe uma consequência imediata”, explica a psicóloga.
Cristiane explica que a proximidade do prazo torna a consequência mais concreta e aumenta a motivação para agir. É um mecanismo também observado em estudos sobre procrastinação. O problema é transformar essa experiência em uma regra pessoal: “Eu só funciono com prazo”.
Além do estresse, trabalhar constantemente no limite reduz a margem para imprevistos e para revisar o que foi feito. A urgência pode até mobilizar, mas não necessariamente torna o processo mais eficiente.
Atraso não é sinônimo de desorganização
Quem vive chegando atrasado pode ser extremamente organizado em outras áreas da vida. Por isso, para as especialistas, transformar o atraso em um julgamento sobre a personalidade não ajuda a compreender o comportamento.
Uma pessoa pode ter uma rotina profissional bem estruturada e, ainda assim, calcular mal o tempo necessário para sair de casa. Outra pode assumir compromissos demais, ter dificuldade para encerrar uma atividade ou simplesmente não reservar espaço para imprevistos.
Cristiane chama atenção também para as condições concretas da rotina: responsabilidades de cuidado, deslocamentos imprevisíveis e excesso de tarefas precisam entrar na conta. “O atraso precisa ser compreendido em seu contexto, sem virar automaticamente um julgamento de caráter”, destaca.
Para Laynara, existe ainda uma pergunta mais ampla: qual é a relação daquela pessoa com o próprio ritmo? Ela vive constantemente correndo? Só consegue começar quando existe urgência? Tem dificuldade de desacelerar? Evita determinadas tarefas ou decisões? “Nesse sentido, o atraso pode ser apenas a manifestação mais visível de uma relação mais complexa com o tempo”, enfatiza.
Quando o “dá tempo” encontra a procrastinação
O tidsoptimista também pode entrar em um ciclo de procrastinação. A lógica é simples: se a pessoa acredita que conseguirá fazer determinada tarefa rapidamente depois, adiar parece menos arriscado. “Depois eu resolvo”, “é rapidinho” e “ainda tenho bastante tempo” ajudam a sustentar a decisão de não começar agora.
A dificuldade de dizer “não” também pode alimentar o problema. Uma nova tarefa aparece e parece caber na agenda — mesmo quando, olhando objetivamente, não cabe. Laynara resume essa dinâmica de uma maneira direta: “Às vezes, o tidsoptimista não está apenas subestimando o tempo. Está superestimando a própria disponibilidade.”
O resultado pode ser um ciclo de sobrecarga: a pessoa aceita mais compromissos do que consegue cumprir, percebe tarde demais que não dará conta, entra em estado de urgência e tenta compensar acelerando.
O atraso também não acontece no vazio. Existe uma diferença entre a intenção de quem se atrasou e o impacto provocado em quem esperava. Para Laynara, algumas pessoas reconhecem perfeitamente esse efeito e convivem com culpa, vergonha e frustração. Outras podem ter dificuldade de dimensioná-lo porque estão concentradas na própria experiência. “Para elas, ‘foram só dez minutos’. Para quem estava esperando, aqueles dez minutos podem representar uma quebra de planejamento, uma perda de compromisso ou a sensação de que seu tempo não foi considerado.”
Cristiane acrescenta que, nas relações, atrasos repetidos podem ser interpretados como falta de consideração, ainda que essa não tenha sido a intenção. Compreender a dificuldade, portanto, não elimina a responsabilidade sobre o comportamento. Avisar, reconhecer o impacto e tentar mudar o padrão também fazem parte da relação com o outro.
Quando é hora de prestar atenção?
Atrasar-se eventualmente faz parte da vida. O sinal de alerta aparece quando o comportamento se torna frequente, persistente e começa a produzir prejuízos. Perder compromissos, chegar constantemente atrasado ao trabalho, enfrentar conflitos recorrentes ou viver em permanente sensação de correria são situações que merecem ser observadas.
Isso não significa, porém, que exista automaticamente um transtorno. Cristiane destaca que dificuldades de atenção, organização ou controle de impulsos podem aparecer em diferentes condições, entre elas o TDAH, mas atrasar-se isoladamente não permite estabelecer um diagnóstico.
Também é importante observar mudanças. Se uma pessoa que sempre foi pontual passa, de repente, a se atrasar de maneira acentuada, o contexto dessa mudança precisa ser investigado.
Afinal, dá para mudar?
As duas psicólogas concordam que sim — mas o primeiro passo não é simplesmente mandar alguém “se organizar melhor”.
É preciso confrontar a previsão com a realidade. Uma estratégia sugerida pelas especialistas é registrar, durante alguns dias, quanto tempo as atividades realmente levam: tomar banho, se arrumar, preparar uma bolsa, sair de casa, fazer um determinado trajeto. A ideia é abandonar o tempo imaginado e trabalhar com o tempo observado.
Cristiane recomenda também dividir as atividades em etapas, planejar de trás para frente a partir do horário em que é preciso chegar, reservar margem para imprevistos, utilizar alarmes de transição e evitar novas tarefas ou redes sociais perto da hora de sair.
Laynara acrescenta que é importante perceber o momento em que começa a negociação com o relógio: aquele conhecido “só mais cinco minutos”.
Também vale observar o próprio corpo: quando a atenção começa a se dispersar? Quando surge a sensação de que ainda há tempo de sobra? Quando a pessoa passa da tranquilidade para a correria?
No fim, talvez a mudança comece justamente quando a frase “acho que dá tempo” deixa de ser tratada como um fato. Como resume Cristiane: “A mudança começa quando o ‘acho que dá tempo’ passa a ser confrontado com o ‘quanto tempo isso realmente leva?’”
E, para Laynara, existe uma pergunta ainda mais incômoda por trás do relógio: “Por que eu preciso acreditar que ainda dá tempo?”.
Ciência e Saúde
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