Mudanças climáticas

ONU alerta que restauração de florestas não pode mais esperar

Mais de 460 milhões de hectares estão degradados em todo o mundo, e pouco progresso tem sido feito para recuperá-los, alerta relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), e prevê aumento de custos a longo prazo

Parque Nacional da Serra do Gandarela (MG): Pacto Trinacional da Mata Atlântica foi destacado como experiência bem-sucedida no relatório da Organização das Nações Unidas -  (crédito: Frederico Pereira/Divulgação )
Parque Nacional da Serra do Gandarela (MG): Pacto Trinacional da Mata Atlântica foi destacado como experiência bem-sucedida no relatório da Organização das Nações Unidas - (crédito: Frederico Pereira/Divulgação )

A janela de oportunidade para a restauração de florestas e paisagens está se fechando, alerta um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Segundo o documento, sem investimento e compromisso com o tema, será impossível alcançar metas de segurança alimentar, biodiversidade, clima e desenvolvimento sustentável. O Estado das Florestas do Mundo (Sofo) 2026 foi publicado como parte da 28ª Sessão do Comitê de Florestas da FAO (Cofo 28) e da 10ª Semana Mundial das Florestas. 

"O relatório deixa claro que a restauração de florestas e paisagens é mais do que uma prioridade ambiental — é um investimento estratégico em sistemas agroalimentares resilientes e no desenvolvimento rural", disse Qu Dongyu, diretor-geral da FAO, na apresentação do documento. "A restauração tardia ou mal planejada aumentará os custos a longo prazo, agravará as desigualdades e poderá condenar as paisagens a trajetórias insustentáveis", acrescentou. 

Fique por dentro das notícias que importam para você!

As florestas cobrem 4,14 bilhões de hectares (cerca de 32% da superfície terrestre), armazenam 714 gigatoneladas de carbono e abrigam até 80% da biodiversidade terrestre do mundo. Essas grandes áreas de vegetação também sustentam sistemas agroalimentares, com quase um terço da população mundial dependendo delas para segurança alimentar e meios de subsistência.

Porém, estima-se que 489 milhões de hectares de floresta foram perdidos entre 1990 e 2025 devido ao desmatamento, enquanto mais de 460 milhões de hectares estão degradados em todo o mundo. No total, 1,56 bilhão de hectares de terra estão comprometidos, impulsionados pelo crescimento populacional, mudanças no uso da terra e crescente demanda por recursos naturais, diz o relatório da FAO. 

Ameaças

Ao mesmo tempo, as ameaças estão se intensificando. Todos os anos, cerca de 127 milhões de hectares de floresta são afetados por incêndios, com danos adicionais causados por insetos, doenças e eventos climáticos extremos. Com o aumento da demanda por produtos florestais e a crescente pressão sobre os recursos naturais devido à competição entre os usos da terra, o relatório defende a necessidade de restaurar florestas e paisagens degradadas em larga escala, enfatizando que a inação acarreta um ônus econômico muito maior do que a restauração.

Com base em evidências e experiências de todo o mundo, incluindo o Brasil, o documento identifica quatro caminhos para acelerar o progresso: empoderar as pessoas e fortalecer seus direitos; implementar a restauração em escala de paisagem; mobilizar financiamento e modelos de negócios que apoiem a restauração; e criar políticas, instituições e leis coerentes. Segundo o relatório, essas medidas poderiam gerar US$ 1,8 trilhão por ano em benefícios, caso se restaure mais de 1 bilhão de hectares degradados. "Investir US$ 2,6 trilhões ao longo de 15 anos na mitigação da degradação do solo e da seca poderia gerar um retorno social de oito para um", diz o texto. 

André Ferretti, gerente senior de economia da biodiversidade da Fundação Grupo Boticário e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (REC), diz que a necessidade de financiamento para colocar em prática os eixos propostos pela FAO é urgente. "Restauração é cara, ela exige uma série de práticas que vão de planejamento a equipamentos necessários para plantio e manutenção, além de coleta de sementes, produção de mudas, plantio, adubação, controle de plantas invasoras e pragas", enumera. "A mobilização dos recursos necessários, sejam de fontes públicas ou de privadas, é ao longo prazo, porque a restauração é algo a longo prazo. As árvores levam décadas para crescerem e formarem uma nova floresta, um novo ecossistema em equilíbrio."

Progresso

Segundo o relatório, governos de 91 países e regiões prometeram destinar mais de 190 milhões de hectares para a restauração florestal. Porém, o progresso é insuficiente, com apenas 206,5 milhões de hectares de florestas atualmente em processo de restauração. Entre os 18 estudos de caso analisados no relatório, destaca-se o Pacto Trinacional da Mata Atlântica, que abrange Brasil, Argentina e Paraguai e pretende restaurar 1 milhão de hectares até 2030 e 15 milhões de hectares até 2050. 

Ferretti afirma que os quatro eixos apontados pelo documento da FAO são essenciais para garantir a recuperação das florestas, mas ele destaca o planejamento em escala de paisagem — as dimensões espaciais e temporais (extensão e resolução) usadas para estudar, analisar ou gerenciar uma área geográfica para garantir a bioconservação. "Temos de lembrar que cada ecossistema é composto por várias formações vegetais, diferentes plantas e animais que precisam ser contemplados para que a gente garanta a restauração, a recuperação e a conservação da biodiversidade", alerta.

Em nota, Qu Dongyu defendeu que os próximos três anos e três meses "devem ser definidos por uma implementação de alta qualidade - ampliando a restauração de florestas e paisagens de forma centrada nas pessoas, baseada na ciência e apoiada por políticas coerentes". "Estou confiante de que, por meio da ação coletiva e do compromisso compartilhado, podemos restaurar terras degradadas em grande escala e construir um futuro melhor para todos", afirmou o diretor-geral da FAO. 

Palavra de especialista

Daniel Cywinski, coordenador administrativo do Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA)
Daniel Cywinski, coordenador administrativo do Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA) (foto: Arquivo pessoal )

Estratégia de desenvolvimento

Alcançar as metas de restauração e regeneração do Brasil exige mais do que projetos ambientais: é preciso construir um plano de nação em que a natureza seja um motor do desenvolvimento. Isso significa reorganizar políticas públicas, investimentos, cadeias produtivas e mecanismos de mercado para favorecer uma economia que conserve e recupere os ecossistemas. Hoje existe uma falha de mercado: serviços da natureza têm enorme valor, mas ainda são pouco remunerados, enquanto recursos públicos e privados continuam financiando atividades que degradam o ambiente. Por isso, bancos, empresas e investidores precisam fazer parte dessa transformação. Mais do que uma agenda ambiental, trata-se de uma nova estratégia de desenvolvimento, na qual floresta, biodiversidade, água, solo e clima são reconhecidos como infraestrutura essencial da economia brasileira.

Daniel Cywinski, coordenador administrativo do Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA) 

 

 

Estratégia de desenvolvimento

Alcançar as metas de restauração e regeneração do Brasil exige mais do que projetos ambientais: é preciso construir um plano de nação em que a natureza seja um motor do desenvolvimento. Isso significa reorganizar políticas públicas, investimentos, cadeias produtivas e mecanismos de mercado para favorecer uma economia que conserve e recupere os ecossistemas. Hoje existe uma falha de mercado: serviços da natureza têm enorme valor, mas ainda são pouco remunerados, enquanto recursos públicos e privados continuam financiando atividades que degradam o ambiente. Por isso, bancos, empresas e investidores precisam fazer parte dessa transformação. Mais do que uma agenda ambiental, trata-se de uma nova estratégia de desenvolvimento, na qual floresta, biodiversidade, água, solo e clima são reconhecidos como infraestrutura essencial da economia brasileira.

Daniel Cywinski, coordenador administrativo do Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA) 

  • Google Discover Icon
postado em 30/09/2026 05:02
x