
Dez anos depois da implementação do Acordo de Paris, os riscos e danos à saúde decorrentes das mudanças climáticas aumentaram mais rapidamente do que na década anterior (2006-2015), alerta o relatório de 2026 da Lancet Countdown sobre Saúde e Mudanças Climáticas. Liderado pela Universidade College London, no Reino Unido, em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o documento foi elaborado por 146 pesquisadores de mais de 30 países. A divulgação ocorre duas semanas antes da Conferência das Partes das Nações Unidas (COP31) de Berlim, que inicia em 9 de novembro.
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Os pesquisadores reconhecem que investimentos em energia limpa, liderança do sistema de saúde, legislação mais abrangente e evidências científicas crescentes contribuíram para ganhos reais em saúde. Porém, argumentam que não o suficiente para compensar os danos crescentes causados pelas mudanças climáticas impulsionadas pelos combustíveis fósseis. Os autores do relatório defendem que as mudanças climáticas sejam formalmente reconhecidas e tratadas como uma emergência global de saúde e que a saúde influencie as políticas climáticas e as prioridades de financiamento para a prevenção das mudanças climáticas.
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"Uma década após o Acordo de Paris, nossas conclusões são inequívocas: os danos à saúde causados pelas mudanças climáticas estão aumentando mais rapidamente do que a resposta global a eles e, em muitos casos, até mesmo se acelerando", afirma a professora Marina Romanello, diretora-executiva do Lancet Countdown, sediado no University College London. "Houve avanços reais em energia limpa, preparação dos sistemas de saúde e regulamentação que protege a saúde, e todos esses fatores já estão trazendo benefícios para a saúde das comunidades locais. No entanto, o progresso tem sido muito lento e não está chegando a quem mais precisa."
Mortes
O calor foi associado a uma média estimada de 540.800 mortes por ano entre 2016 e 2023, sendo 68% delas (369.900) causadas pelas mudanças climáticas, um aumento em relação aos 55% (219.100) por ano registrados entre 2006 e 2015. Somente em 2023, o ano mais quente do período, as altas temperaturas foram associadas a um número recorde de 710 mil mortes estimadas, superando as causadas por malária ou HIV, com 71,5% delas impulsionadas pelas mudanças climáticas. Ao todo, estima-se que o aquecimento global e suas consequências tenham causado quase 3 milhões de mortes por calor entre 2016 e 2023.
O calor também reduziu a capacidade produtiva das pessoas em 2025, custando à economia global cerca de US$ 1,07 trilhão em renda potencial (0,91% da produção econômica global), o terceiro ano consecutivo em que as perdas ultrapassaram US$ 1 trilhão. O Sudeste Asiático e a África foram as regiões mais afetadas, com perdas equivalentes a 3,9% e 3,2% do PIB, respectivamente, em comparação com 0,2% na Europa e 1,5% nas Américas. Os setores da agricultura e da construção civil, ambos predominantemente de atividades ao ar livre e fisicamente exigentes, absorveram a maior parte das perdas (38% e 29%, respectivamente), pois o calor interfere diretamente na produtividade laboral e coloca a saúde dos trabalhadores em risco. O impacto é particularmente acentuado na África, onde a agricultura responde por 71% das perdas de renda potencial relacionadas ao calor.
Mais da metade das terras do planeta (51,8%) foi atingida por seca extrema por pelo menos um mês em 2025, o segundo pior ano já registrado, depois de 2023. Desde 2016, a área afetada pela seca cresceu mais de 700% mais rápido do que no período de 2006 a 2015. Além disso, uma nova análise por satélite identifica extremos crescentes no armazenamento de água.
Desde 2003, 43% das terras do planeta têm apresentado uma queda de longo prazo no armazenamento de água (tornando-se mais secas), enquanto outros 37% têm apresentado um aumento de longo prazo (tornando-se mais úmidas), criando, em conjunto, extremos hidrológicos que afetam mais de 80% das terras do planeta e ameaçam plantações, abastecimento de alimentos e saneamento. Chuvas extremamente intensas também estão se tornando mais comuns, atingindo quase 17,2% das terras globais a cada ano no período de 2016 a 2025, um aumento em relação aos 14,8% da década anterior, e elevando o risco de inundações, deslizamentos de terra e doenças transmitidas pela água.
"Esses números apontam para uma clara emergência", afirma Romanello. "A taxa de aumento de muitas ameaças à saúde relacionadas ao clima está se acelerando, enquanto as mortes por calor ligadas às mudanças climáticas atingiram um recorde, e o impacto econômico está atingindo com mais força os setores e comunidades vulneráveis." Segundo a especialista, os riscos se tornam ainda mais profundos quando se considera como os diferentes perigos interagem e se agravam. "Ao mesmo tempo, a seca está se espalhando; e o mundo, caminhando para extremos hídricos, com algumas regiões secando e outras sofrendo inundações. Essa não é uma piora gradual; é uma mudança radical que deve ser reconhecida como a emergência global de saúde que é."
Benefícios reais
Energia mais limpa, sistemas de saúde mais resilientes, juntamente com legislação mais protetora da saúde e evidências científicas crescentes, trouxeram benefícios reais para a saúde das comunidades locais desde o Acordo de Paris de 2016. Esses avanços, porém, ainda são muito lentos, insuficientes e inconsistentes para compensar os riscos crescentes.
O investimento global em energia limpa cresceu 7,2% em 2025, atingindo o recorde de US$ 2,1 trilhões, 82% a mais do que os US$ 1,16 trilhão investido em combustíveis fósseis. Esse aporte ajudou a eletricidade renovável a crescer de 5,5% da geração total em 2016 para 13,5% em 2023. Os ganhos em saúde já são evidentes, com o ar mais limpo prevenindo cerca de 323 mil mortes por ano em pelo menos 77 países onde a poluição atmosférica proveniente de combustíveis fósseis diminuiu desde 2016.
No entanto, o aumento da demanda global de energia e a lenta mudança do sistema significam que os combustíveis fósseis ainda fornecem mais de 80% da energia mundial, e as emissões que aquecem o clima atingiram um recorde em 2024. Apesar dos avanços em alguns países, a poluição atmosférica causada por combustíveis fósseis ainda mata cerca de 2,73 milhões de pessoas por ano em todo o mundo.
Os sistemas de saúde estão tomando medidas importantes desde cedo: um quarto (56 de 194) dos Estados-membros da OMS agora possui um plano nacional para adaptar os serviços de saúde às mudanças climáticas, um aumento significativo em relação aos apenas 14 em 2015, e 47 concluíram separadamente uma avaliação de vulnerabilidade para fundamentar seus planos. Além do planejamento, quase metade dos Estados-membros da OMS declarou ter um sistema de vigilância em saúde que incorpora informações climáticas, e mais da metade (75 de 145 respondentes) declarou ter pelo menos um sistema de alerta precoce em saúde com base em informações climáticas.
O ímpeto jurídico também está crescendo. As leis nacionais que fazem referência tanto às mudanças climáticas quanto à saúde aumentaram cerca de 50 vezes desde 2000, a maior parte desse aumento desde 2016. O financiamento para pesquisas sobre saúde relacionadas ao clima também aumentou, com um crescimento de 655% entre 2016 e 2024, passando de US$ 42 milhões para US$ 316 milhões, embora quase a totalidade (84%) ainda seja destinada a pesquisadores nos países mais ricos do mundo, deixando lacunas de evidências onde os riscos são frequentemente maiores.
"Há 10 anos, propusemos que a resposta às mudanças climáticas poderia oferecer a maior oportunidade para a saúde no século 21, por meio de esforços de adaptação e progresso rápido na redução gradual dos combustíveis fósseis e outras fontes de emissão", afirma Anthony Costello, copresidente do Lancet Countdown. "Uma década depois, temos provas de que a ação climática centrada na saúde funciona: ar mais limpo, sistemas de saúde mais resilientes e sistemas de alerta estão protegendo a saúde e salvando vidas em todo o mundo. Mas o ritmo e a escala da redução de emissões ainda estão totalmente desproporcionais ao ritmo e à escala dos danos."
Emergência global pelo clima
Uma década após o Acordo de Paris, os autores do relatório Lancet Countdown, divulgado nesta terça-feira (27/10) defendem que as alterações climáticas sejam formalmente declaradas uma emergência de saúde pública global, que seja criado um novo instrumento da Organização Mundial da Saúde (OMS) para permitir uma resposta global coordenada e que os governos coloquem a saúde no centro de todas as decisões climáticas, desde as metas de emissões até ao financiamento climático.
As prioridades incluem cortes urgentes e justos nas emissões de gases com efeito de estufa, investimento sustentado na ciência e financiamento climático para a saúde sob a forma de subsídios em vez de empréstimos, para que os países possam adaptar-se sem contrair mais dívidas. "Este relatório é um alerta contundente de que a mudança climática é uma emergência de saúde pública. O que falta não são evidências, mas, sim, a vontade política para agir", disse Helen Clark, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia e presidente do Conselho da Lancet Countdown.
Segundo Clark, os governos precisam redobrar seus compromissos com a ação climática e retomar o ímpeto para a cooperação internacional. "Isso deve caminhar lado a lado com reduções rápidas de emissões e um apoio significativamente maior à adaptação, principalmente para as comunidades menos responsáveis pela mudança climática e mais vulneráveis aos seus impactos."
"As evidências são inegáveis: as mudanças climáticas representam uma das maiores ameaças à saúde que a humanidade enfrenta", comentou Tedros Adhanom Gherbreyesus, diretor-geral da OMS. "Seus impactos já podem ser observados por meio do agravamento do estresse térmico, de eventos climáticos extremos, da insegurança alimentar e de doenças. Mas esse relatório também nos lembra que as soluções estão ao nosso alcance. Ao colocar a saúde no centro das políticas climáticas, podemos salvar milhões de vidas, construir sociedades mais resilientes e garantir um futuro mais saudável para todos."
Principais conclusões
- As mortes anuais relacionadas ao calor aumentaram quase 36% em todo o mundo após a implementação do Acordo de Paris. Somente em 2023, o calor foi associado a um número recorde de 710.000 mortes, sendo que mais de 70% desse total foi atribuído às mudanças climáticas causadas pela ação humana.
- Em 2025, uma seca extrema afetou quase 52% das terras do mundo por pelo menos um mês (o segundo nível mais alto já registrado), enquanto uma nova análise baseada em satélite sugere que, desde 2003, 80% das terras do mundo têm enfrentado mudanças significativas nos padrões de aumento das condições de armazenamento de água subterrânea, tanto em períodos de seca quanto de umidade, com implicações para a segurança alimentar e o saneamento.
- Globalmente, o investimento em energia limpa atingiu o recorde de US$ 2,1 trilhões em 2025, quase o dobro do investido em combustíveis fósseis, e o ar mais limpo evitou cerca de 323.000 mortes por ano em pelo menos 77 países onde a poluição atmosférica proveniente de combustíveis fósseis diminuiu desde 2016. Ainda assim, os combustíveis fósseis continuam a fornecer mais de 80% da energia mundial, e as 100 maiores empresas de petróleo e gás estão a caminho de ultrapassar os níveis de produção compatíveis com o limite de 1,5°C em 150% até 2040 – um aumento em relação aos 138% do ano passado.
Fonte: The Lancet Countdown
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