
Os casos de anorexia e bulimia nervosa devem atingir 21,8 milhões de pessoas até 2050, alerta um estudo publicado na revista Jama Psychiatry. Baseada em estimativas de 204 países e territórios, incluindo o Brasil, a pesquisa integra o Estudo Global da Carga de Doenças e também mostra que, nas últimas três décadas, os diagnósticos aumentaram em todo o mundo. Em 2023, cerca de 18,1 milhões de pessoas viviam com uma das condições.
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Entre 1990 e 2023, o número de casos aumentou 71% globalmente. Mesmo quando se considera a prevalência padronizada por idade — indicador que permite comparar populações com diferentes estruturas etárias —, houve crescimento de 20,6%. Os pesquisadores, liderados pela Universidade de Nanquim, na China, estimam que os dois fatores foram responsáveis por 3,83 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade em 2023. Essa medida contabiliza o tempo vivido com limitações de saúde ou perdidos por morte prematura.
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A anorexia nervosa é caracterizada, entre outros, por restrição alimentar, baixo peso corporal e medo de engordar. Já a bulimia envolve episódios recorrentes de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios, como vômitos provocados, associados a preocupações excessivas com a balança ou o formato do corpo. Ambos podem impactar na saúde física e mental, além de consequências sociais graves.
Complexidade
"Os transtornos alimentares são condições psiquiátricas complexas, com critérios clínicos específicos e origem multifatorial", esclarece Flávia Lucen, nutricionista e psicóloga especialista em transtornos alimentares, de São Paulo (SP). "Nem toda preocupação com a alimentação ou tentativa de controle alimentar configura um transtorno. Porém, quando pensamentos, emoções e atitudes ligadas à comida passam a gerar sofrimento ou prejuízos na vida da pessoa, é importante olhar para esses sinais com atenção", afirma Flávia.
Usando modelos estatísticos, os autores projetaram um cenário global em que os dois transtornos deverão crescer 20,3% entre 2023 e 2050. A estimativa para o fim do período é de 21,8 milhões de casos, dos quais 4,7 milhões de anorexia nervosa e 17 milhões de bulimia. Segundo os pesquisadores da universidade chinesa, o crescimento populacional contribui para o aumento do número absoluto de casos, mas não explica toda a tendência.
Para Giorgia Ocinschi, psicóloga da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, as redes sociais têm um papel importante no aumento dos casos. "A exposição contínua a imagens de corpos extremamente magros, amplificada pelos algoritmos de redes sociais, cria um ambiente de comparação constante. Casos de anorexia nervosa e bulimia podem aumentar por conta desse cenário de comparação", explica. "Pessoas que já estavam em processo de recuperação de um transtorno alimentar também enfrentam um risco muito maior de recaídas ao verem a privação ser romantizada novamente de forma ampla nas mídias sociais", diz.
O levantamento, conduzido pelos pesquisadores Ruhai Bai e Wanyue Dong, mostram que mulheres representam a maior parcela das pessoas afetadas. Em 2023, eram estimados 12,6 milhões de casos femininos, equivalentes a 69,4% do total. Entre os homens, a estimativa era de 5,5 milhões, ou 30,6%. Segundo os autores, a diferença reforça a importância de considerar as particularidades de cada grupo na vigilância epidemiológica e na organização dos serviços de saúde mental.
"Hstoricamente a indústria da moda impõe um padrão de corpo magro para os modelos que carregam suas coleções, muito abaixo do que é admissível como normalidade. Logicamente uma minoria tem naturalmente esse biotipo, mas certamente a maior parte das modelos femininas, no mundo, só atinge essa forma às custas de estratégias que trazem muitos impactos negativos à saúde física e mental", critica a médica nutróloga Marcela Marcella Garcez, membro da diretoria e professora da Associação Brasileira de Nutrologia. "O grande problema, do ponto de vista médico, é que essas modelos vão estampar suas imagens em todas as mídias, como ideal de beleza, sucesso e luxo. Um padrão inatingível para a maioria da população mundial, que pode ter consequências desastrosas, como o aumento na prevalência de distúrbios emocionais e transtornos alimentares."
O trabalho também mostrou uma prevalência maior dos distúrbios entre pessoas mais jovens. A faixa etária dos 10 aos 24 anos concentrava 41,2% dos casos estimados em 2023. Quando os pesquisadores analisaram a prevalência por idade, observaram que o conjunto dos dois transtornos atingia o pico entre 20 e 24 anos. No caso da anorexia nervosa, a maior prevalência foi registrada entre 15 e 19 anos; para a bulimia nervosa, o pico ocorreu entre 30 e 34 anos.
Austrália
Na distribuição regional, a maior prevalência foi observada na Australásia, que inclui Austrália, Nova Zelândia e áreas próximas, onde a taxa chegou a 946,4 casos por 100 mil habitantes em 2023. Já os maiores aumentos percentuais de casos entre 1990 e 2023 foram registrados no Leste Asiático, com alta de 61,5%; no Sul da Ásia, com 48,5%; e no Sudeste Asiático, com 44,2%.
Na América Latina tropical, o número estimado de pessoas com anorexia nervosa ou bulimia nervosa passou a aproximadamente 900 mil em 2023. A estimativa representa um aumento de 57% em relação a 1990. Na mesma região, os transtornos foram responsáveis por aproximadamente 200 mil anos de vida ajustados por incapacidade em 2023, alta de 55,7%. A taxa de carga de doença padronizada por idade cresceu 18,3%.
Os pesquisadores recomendam ampliar a vigilância epidemiológica, fortalecer a prevenção e a detecção precoce e integrar o atendimento aos transtornos alimentares aos sistemas de saúde mental. Entre as medidas apontadas por eles no artigo, estão a criação de fluxos de identificação nas escolas e na atenção primária, a capacitação dos profissionais e a redução do estigma e das barreiras de acesso ao tratamento.
Três perguntas para
Alessandra Araújo, psicóloga em Brasília (DF)
Quais fatores psicológicos e socioculturais podem ajudar a explicar o crescimento global dos transtornos alimentares verificado em 2023 e estimado para 2050?
O salto projetado nos casos de anorexia e bulimia nervosa reflete o colapso das defesas psíquicas diante de uma sociedade hipercompetitiva, onde o valor do sujeito passou a ser medido pelo autocontrole rígido e pela estética, as limitações individuais estão sendo obrigatoriamente esquecidas. Psicologicamente, vivemos em um cenário de falência na regulação emocional: como as pessoas encontram cada vez menos espaços de continência para suas angústias, o corpo se torna o território visível de inscrição do sofrimento. Socioculturalmente, a cultura do desempenho e da otimização constante empurra o indivíduo para um lugar de hipervigilância, onde a alimentação deixa de ser uma necessidade vital e passa a operar como uma ferramenta de controle onipotente. O sujeito adoece porque introjeta a ideia de que dominar a fome e moldar a carne é sinônimo de valor pessoal, transformando a relação com a comida em um campo de batalha interno.
As redes sociais podem contribuir para o fenômeno?
As redes sociais funcionam como um amplificador implacável desse adoecimento, pois transformaram a imagem corporal em uma mercadoria exposta a uma vitrine global e instantânea. Para adolescentes e jovens adultos, cuja identidade está em plena estruturação, a exposição a corpos hipereditados e padronizados gera uma internalização severa de um "ideal do eu" que não é alcançável e muitas vezes manipulado a imagem ali postada. A comparação constante coloca o sujeito num estado crônico de insuficiência. Nesse contexto, a restrição alimentar e a compensação surgem como tentativas desesperadas de acalmar a angústia da inadequação: o corpo passa a ser punido por não corresponder à fantasia estético-digital, e a comida é investida de um forte conteúdo persecutório, onde cada caloria ingerida é tratada simbolicamente como uma falha moral.
O uso indiscriminado de medicamentos emagrecedores poderá contribuir com o aumento de casos?
O boom recente de medicamentos emagrecedores de alta potência tende a agravar drasticamente o cenário dos transtornos alimentares a longo prazo, atuando como um potente acelerador de perfis comportamentais adoecidos. Do ponto de vista psicológico, esses fármacos reforçam a fantasia mágica de que o controle absoluto do corpo e a erradicação do apetite são possíveis e desejáveis, validando a premissa de que a fome é um inimigo a ser combatido. Para sujeitos vulneráveis, o uso sem critério clínico alimenta o ciclo da recompensa rápida e anestesia os sinais naturais de saciedade, empurrando o indivíduo para dinâmicas de restrição severa disfarçadas de "tratamento médico". Em vez de curar a relação patológica com a comida, a facilidade química em emagrecer cristaliza a crença de que o valor do sujeito reside na supressão do próprio corpo, criando uma nova e perigosa safra de transtornos alimentares mascarados pela medicalização. (PO)
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