Meio ambiente

Associados ao Halloween, animais noturnos são essenciais para a biodiversidade

Crenças populares e lendas deram "má-fama" a animais noturnos, como morcegos, corujas e urutau. Na verdade, essas espécies são importantíssimos para a manutenção da biodiversidade

O pio característico da Tyto furcata, também conhecida como coruja-da-igreja ou coruja-das-torres, lhe rendeu o apelido de rasga-mortalha -  (crédito: PxHere/Divulgação)
O pio característico da Tyto furcata, também conhecida como coruja-da-igreja ou coruja-das-torres, lhe rendeu o apelido de rasga-mortalha - (crédito: PxHere/Divulgação)

Morcegos, corujas e aranhas costumam ocupar o imaginário do Halloween, celebrado em 31 de outubro, como símbolos de mistério e perigo. Na natureza, porém, esses animais estão longe de representar uma ameaça generalizada. Presentes também na fauna brasileira, eles desempenham funções importantes para o equilíbrio dos ecossistemas, como o controle de populações de insetos e roedores, a polinização de plantas e a dispersão de sementes.

 

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A associação entre essas espécies e o medo tem raízes em lendas, crenças populares e características que despertam estranhamento, como os hábitos noturnos e a aparência de alguns animais. Mas, segundo a bióloga Karynna Tolentino, especialista em Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, a natureza não funciona a partir da divisão entre espécies boas ou más. “Na natureza, não existem ‘animais do mau’ ou ‘animais do bem’; cada espécie cumpre uma função ecológica vital”, explica.

Um exemplo são os morcegos, frequentemente associados a vampiros e cavernas escuras. O Brasil abriga 188 espécies, cerca de 12% das aproximadamente 1,5 mil conhecidas no mundo. Ao contrário do que sugere a imagem popular, apenas três espécies brasileiras se alimentam de sangue. A maioria consome frutos, néctar, insetos e até pequenos vertebrados.

A diversidade alimentar faz desses mamíferos aliados de diferentes processos ecológicos. Dependendo da espécie, eles contribuem para a polinização de plantas, a dispersão de sementes e o controle de insetos. Entre as curiosidades está o morcego-sem-rabo-brasileiro (Tadarida brasiliensis), capaz de atingir velocidades de até 160 quilômetros por hora em voo horizontal, segundo as informações reunidas pela Fundação Grupo Boticário.

Lendas

Na fauna brasileira, uma das aves que mais alimentam histórias de mau agouro é a suindara (Tyto furcata), também conhecida como coruja-da-igreja ou coruja-das-torres. Seu grito característico lhe rendeu o apelido de rasga-mortalha, em referência ao som que lembra um tecido sendo rasgado. A associação com a mortalha, pano utilizado para envolver os mortos, contribuiu para a crença popular de que a ave anuncia mortes.

A espécie mede entre 30 e 45 centímetros e tem o disco facial branco em formato de coração. Também consegue girar a cabeça em até 270 graus. As pequenas estruturas presentes nas penas das asas reduzem o ruído durante o voo, permitindo que a coruja se aproxime das presas quase em silêncio.

Essa habilidade é importante para a alimentação do animal e para o funcionamento dos ecossistemas. De acordo com o Instituto Butantan, uma suindara pode consumir, em média, quatro roedores por noite, além de insetos e outros pequenos vertebrados. A predação ajuda a regular essas populações naturalmente.

Outra ave noturna cercada de mistério é o urutau (Nyctibius griseus), conhecido também como mãe-da-lua ou ave-fantasma. Durante o dia, permanece imóvel sobre galhos e troncos, camuflado pela plumagem em tons de marrom e cinza. Pequenas aberturas nas pálpebras permitem que perceba o ambiente mesmo quando parece estar de olhos fechados.

À noite, o urutau deixa o esconderijo para capturar insetos durante o voo. Seu canto melancólico, semelhante a um lamento, também alimentou lendas e superstições em diferentes regiões do país.

A reprodução tem uma particularidade: em vez de construir um ninho elaborado, a ave pode depositar um único ovo na ponta de um galho quebrado. A camuflagem ajuda a proteger o filhote de possíveis predadores.

Aranhas: predadoras 

As teias que ocupam cantos escuros são elementos recorrentes na decoração de Halloween. Na natureza, porém, as aranhas exercem um papel importante no controle de populações de insetos, incluindo moscas e mosquitos.

Existem mais de 50 mil espécies conhecidas no mundo, cerca de 5 mil delas registradas no Brasil. As teias, produzidas com seda formada por proteínas, podem ser usadas para capturar presas, servir de abrigo e auxiliar na reprodução. Nem todas as aranhas, entretanto, dependem delas para caçar: algumas perseguem as presas ou atacam de surpresa.

A alimentação é baseada principalmente em insetos e outras aranhas. As espécies maiores também podem capturar pequenos vertebrados.

Isso não significa que todas sejam inofensivas. O Ministério da Saúde considera de importância médica as aranhas-marrons (Loxosceles), as armadeiras (Phoneutria) e as viúvas-negras (Latrodectus), que podem provocar acidentes com consequências para a saúde humana.

Até as caranguejeiras, frequentemente temidas por causa do tamanho e da aparência, têm uma função ecológica. Segundo o Instituto Butantan, o Brasil reúne cerca de 200 espécies conhecidas desse grupo. Apesar da aparência imponente, elas não representam perigo relevante para os seres humanos e participam do equilíbrio das cadeias alimentares.

Conservação 

Para Karynna Tolentino, conhecer melhor esses animais é uma forma de substituir o medo pela valorização da biodiversidade. A conservação, porém, depende também da proteção dos ambientes naturais onde as espécies encontram alimento, abrigo e condições para se reproduzir.

“Que tal transformarmos esses animais, que no imaginário popular são associados ao terror, em símbolos de fascínio e proteção da natureza? Afinal, o verdadeiro ‘terror’ seria um mundo onde eles deixassem de existir”, afirma a bióloga.

Segundo a especialista, áreas protegidas e habitats conservados e conectados favorecem a construção de ninhos, a reprodução e a disponibilidade de alimento. Essas condições contribuem para manter populações saudáveis e geneticamente diversas ao longo do tempo.

 

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postado em 29/10/2026 16:32
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