Uma avaliação da capacidade cognitiva pode ajudar a identificar pessoas entre 60 e 69 anos com maior risco de sofrer acidente vascular cerebral no futuro, sugere um estudo publicado no Journal of the American Heart Association. Os pesquisadores, da Universidade de Lund, na Suécia, acompanharam 4.912 adultos no país nórdico ao longo de 12,3 anos, período em que os participantes foram submetidos a uma bateria de testes de memória, processamento de informações e habilidades verbais, entre outros. Os resultados indicam associações estatísticas entre o baixo desempenho e a ocorrência de AVC anos depois.
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Segundo a pesquisa, o risco de AVC futuro em adultos de 60 a 69 anos foi 86% maior naqueles com capacidade cognitiva geral reduzida. As pontuações de memória mais baixas foram associadas a uma chance 68% mais elevada. Já o pior desempenho na velocidade de processamento de informações teve relação com uma probabilidade 66% maior. Esse mesmo padrão não foi observado em adultos a partir de 70 anos, após os pesquisadores considerarem outros fatores de saúde e estilo de vida.
“Optamos por investigar diferentes faixas etárias porque a população idosa é muito diversa. Por exemplo, enquanto muitas pessoas na faixa dos 60 anos podem ter apenas alguns problemas de saúde, pessoas na faixa dos 80 frequentemente sofrem de múltiplas condições médicas e tomam diversos medicamentos”, explica a autora principal, Alice Askemyr, pesquisadora em geriatria da Universidade de Lund e do Hospital Universitário de Skåne. “Além disso, o que serve como fator de risco no início da vida pode não servir como tal se for adquirido mais tarde, e vice-versa.”
Askemyr afirma que, embora o estudo seja observacional e não estabeleça uma relação de causa e efeito, há algumas hipóteses que poderiam explicar os resultados obtidos na faixa dos 60-69 anos, mas não nos demais grupos etários. Um deles são as lesões cerebrais silenciosas, que podem afetar tanto o funcionamento cognitivo quanto o risco futuro de AVC. "Elas afetam aproximadamente 70% dos adultos com mais de 70 anos, portanto, seus efeitos podem ser mais fáceis de detectar em pessoas na faixa dos 60, quando essas lesões e outros fatores que podem afetar a cognição, incluindo condições médicas e medicamentos, são menos comuns."
Obesidade
Orlando Maia, neurocirurgião do Hospital Quali Ipanema (RJ), diz que, além das microlesões vasculares silenciosas, há outros mecanismos possíveis na associação encontrada pelos pesquisadores. Entre eles, o diagnóstico de doenças crônicas metabólicas e inflamatórias, que influenciaram tanto o déficit cognitivo quanto o risco elevado de AVC. A obesidade é uma das principais, observa o médico. “No passado, hipertensão e tabagismo eram as principais causas preditivas de AVC, mas, hoje, a obesidade é o fator evitável mais importante”, diz. Por último, Maia sugere que pessoas com cognição reduzida tenham dificuldade de aderir a tratamentos. “Ela não lembra dos remédios, não faz um tratamento adequado e isso faz com que aumente a probabilidade de AVC.”
Uma outra descoberta do estudo foram diferenças na associação entre cognição e risco de AVC de acordo com o sexo biológico. “Entre homens de 60 a 69 anos, o pior desempenho cognitivo esteve associado de forma estatisticamente significativa a maior risco de AVC: aproximadamente duas vezes maior para cognição global, 2,3 vezes maior para memória episódica e 1,77 vez maior para velocidade perceptiva”, descreve o neurocirurgião Victor Hugo Espíndola, de Brasília. “Nas mulheres, as estimativas também apontaram na direção de aumento do risco em algumas medidas, mas os intervalos de confiança incluíram a ausência de diferença estatisticamente significativa.”
O médico ressalta, porém, que isso não permite concluir que a alteração cognitiva seja um marcador de AVC apenas para homens. “Estudos anteriores não encontraram resultados uniformes — alguns observaram associações diferentes ou até mais fortes em mulheres. Por isso, os próprios autores consideram essas diferenças entre os sexos exploratórias e ainda não definitivamente explicadas”, diz Espíndola.
Hábitos
Elisabeth Breese Marsh, professora de neurologia da Universidade Johns Hopkins em Baltimore, nos Estados Unidos, diz que o estudo reforça a importância de se combater, a tempo, fatores de risco modificáveis. “Embora isso seja certamente importante para pessoas na faixa dos 60 anos, meu conselho seria que mesmo aquelas entre 40 e 50 anos precisam se concentrar na modificação de fatores de risco e em hábitos para uma boa saúde cerebral geral”, diz Marsh, que não participou do estudo.
Segundo a neurologista, em conjunto com publicações anteriores, o estudo da Universidade de Lund “reforça a importância de focarmos na saúde cerebral na meia-idade, antes que muitas pessoas comecem a pensar nisso. Isso melhoraria tanto o desempenho cognitivo quanto o risco de AVC na terceira idade”. “No entanto, como não sabemos ao certo se existe algo na própria deficiência cognitiva que aumenta ainda mais o risco de AVC, o estudo também fornece um novo fator potencial de triagem para identificar aqueles com maior chance de sofrer um acidente vascular cerebral.”
Três perguntas para
Victor Hugo Espíndola, neurocirurgião e especialista em doenças cerebrovasculares em Brasília (DF)
Quais mecanismos poderiam explicar a associação entre alterações cognitivas e um risco maior de AVC?
Existem alguns possíveis. O primeiro é que o desempenho cognitivo mais baixo e o AVC compartilham vários fatores de risco, como hipertensão arterial, diabetes, tabagismo, sedentarismo e doença cardiovascular. Esses fatores podem comprometer progressivamente a circulação cerebral antes mesmo de ocorrer um AVC clinicamente evidente. Outra possibilidade é que a alteração cognitiva já seja uma manifestação de doença cerebrovascular silenciosa. Pequenos infartos cerebrais assintomáticos, doença de pequenos vasos, alterações da substância branca e micro-hemorragias podem se acumular ao longo dos anos e interferir principalmente em funções como memória e velocidade de processamento. Essas mesmas alterações estão associadas a maior risco de um evento cerebrovascular futuro. Os autores do estudo destacam, porém, que demonstraram associação, e não uma relação causal.
Alterações cognitivas na faixa de 60-69 anos deveriam ser consideradas um possível sinal de doença cerebrovascular?
Podem ser consideradas um sinal de atenção, especialmente quando representam uma mudança em relação ao funcionamento habitual da pessoa, mas não devem ser interpretadas isoladamente como diagnóstico de doença cerebrovascular. Uma hipótese interessante é que, nessa faixa etária, uma alteração cognitiva relacionada à doença vascular possa ser mais discriminativa. Em idades muito avançadas, alterações cerebrais, outras doenças e múltiplos fatores relacionados ao envelhecimento tornam-se muito mais frequentes e podem diminuir a capacidade de uma alteração cognitiva isolada identificar especificamente o risco vascular. Os próprios autores ressaltam que essa interpretação ainda precisa ser confirmada por estudos com ressonância magnética e biomarcadores.
Uma queda de desempenho cognitivo pode justificar uma investigação mais detalhada dos fatores de risco para AVC?
Sim. Uma mudança cognitiva, principalmente quando nova, progressiva ou desproporcional ao esperado para a idade, é uma boa oportunidade para revisar de maneira sistemática os fatores de risco cerebrovasculares. Na prática, isso significa avaliar pressão arterial, diabetes, colesterol, tabagismo, atividade física, obesidade, doença cardiovascular e, quando indicado, investigar condições como fibrilação atrial. A história clínica e o exame neurológico determinam se há necessidade de investigação complementar com exames de imagem cerebral ou avaliação vascular. É importante fazer uma distinção: o estudo não avaliou simplesmente pessoas que perceberam uma “queda de memória”. Ele aplicou testes padronizados e comparou indivíduos com diferentes níveis de desempenho cognitivo. Portanto, seus resultados não significam que toda queixa de memória exija uma investigação extensa para AVC. (PO)
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