Cosméticos, tintas, produtos de limpeza e outros itens de uso cotidiano podem intensificar a poluição atmosférica durante o verão mais do que os modelos oficiais conseguem estimar. É o que aponta um estudo publicado na revista Science Advances, conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual do Colorado, da Universidade de Minnesota e da Universidade Purdue, nos Estados Unidos. Ao comparar as emissões em uma região de Nova York durante o verão e o inverno, os cientistas constataram que os fluxos de compostos orgânicos voláteis (COVs) eram de duas a quatro vezes maiores nos meses quentes, evidenciando limitações nas ferramentas utilizadas para prever a qualidade do ar.
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A especialista ressalta, porém, que outras atividades também liberam quantidades significativas dessas substâncias, como a pintura de automóveis, a aplicação de vernizes, o uso de perfumes e desodorantes em spray e a utilização de produtos de limpeza. “Esses produtos têm como base (como solvente) os COV, exatamente pela propriedade de evaporarem. Quando vão para a atmosfera contribuem para a formação do ozônio, das partículas finas e de outros oxidantes.”
Segundo o estudo, o volume de compostos que participavam das trocas entre a superfície urbana e a atmosfera foi duas vezes maior no verão do que no inverno. Os pesquisadores também identificaram diferenças nas principais fontes de emissão: enquanto o tráfego predominava relativamente nos meses frios, produtos químicos voláteis, vegetação e atividades domésticas ganhavam importância durante o calor. O etanol, sozinho, correspondeu a aproximadamente 25% do fluxo total de COVs medido na região.
“Os modelos de qualidade do ar não capturam as emissões corretas: na verdade, superestimam o impacto de outras fontes (em Nova York, descobrimos que as emissões da cozinha são superestimadas, mas outras cidades podem ter razões diferentes para as discrepâncias)”, explicou ao Correio Delphine Farmer, professora de química da Universidade Estadual do Colorado e uma das responsáveis pela pesquisa.
A elevação da temperatura ajuda a explicar a variação sazonal. Com o calor, determinados compostos evaporam mais rapidamente, aumentando sua liberação na atmosfera. “Pense em uma lata de tinta ou em um frasco de baunilha aberto na cozinha: em um dia quente, uma quantidade maior desses solventes e compostos evapora, e vemos isso acontecendo em escala urbana”, afirma Farmer.
De acordo com a química, a influência da temperatura ainda não é representada adequadamente pelas ferramentas utilizadas para prever episódios de poluição. Essa deficiência pode dificultar a identificação das principais fontes de contaminação e comprometer a formulação de medidas de controle. O problema ganha relevância diante das mudanças climáticas, que tendem a intensificar a ocorrência de períodos de calor extremo.
Veículos e medição
Além de analisar as fontes de emissão, os pesquisadores compararam os resultados das medições com as estimativas de um inventário atualizado de poluentes. Segundo o estudo, os valores calculados para o verão ficaram dentro de uma margem de 40% em relação aos dados observados. No inverno, entretanto, o inventário superestimou os fluxos em mais de 2,5 vezes.
Os autores atribuíram a discrepância nos meses frios à superestimação das emissões relacionadas a produtos químicos voláteis e atividades de cozinha, além da ausência de uma representação adequada da volatilização dependente da temperatura. Os resultados indicam que os inventários precisam considerar as diferenças sazonais para estimar com maior precisão a contribuição de cada fonte para a poluição urbana.
Para realizar as medições, a equipe instalou equipamentos em uma torre de telefonia celular acima dos edifícios de Long Island, em Nova York. Os cientistas utilizaram a técnica de covariância de turbulência, que combina informações sobre os movimentos do vento com análises químicas para calcular o fluxo de substâncias entre a superfície e a atmosfera.
O estudo também empregou espectrometria de massa de alta resolução, método que permite identificar e diferenciar compostos químicos com base em suas características moleculares. Ferramentas de aprendizado de máquina ajudaram a interpretar o grande volume de dados e acompanhar as mudanças nas emissões entre as duas estações.
Diferentemente das análises que medem apenas a concentração de poluentes presente no ar, a abordagem adotada permite estimar a quantidade de substâncias liberadas pela superfície urbana. Para os pesquisadores, a combinação dessas técnicas contribui para identificar as fontes de contaminação e aperfeiçoar os modelos de previsão.
Maria de Fátima Andrade afirma que não há para o Brasil um inventário que represente todas essas emissões e assim há um prejuízo para a determinação da formação de poluentes secundários (ozônio e partículas) na atmosfera.
Os resultados reforçam, segundo os autores, a necessidade de incorporar os efeitos da temperatura e as variações sazonais aos inventários de emissões. O aprimoramento dessas ferramentas pode tornar as previsões da qualidade do ar mais confiáveis e subsidiar políticas públicas voltadas à redução da poluição atmosférica.
Palavra de especialista
Primeiro passo
Este estudo demonstra claramente a necessidade de as cidades mensurarem esses tipos de compostos. Cada cidade é única, portanto, compreender suas diferentes fontes de poluição atmosférica é fundamental. Enquanto em algumas cidades as emissões veiculares ainda serão as principais responsáveis pela poluição do ar, em outras, uma combinação de atividades como cozinhar, produtos químicos ou até mesmo emissões naturais de plantas pode ser um fator importante. No entanto, em nosso mundo em constante mudança, com ondas de calor cada vez mais frequentes, estudar essas características químicas únicas de cada cidade é o primeiro passo para melhorar a qualidade do ar.
Delphine Farmer, química canadense e professora da Universidade Estadual do Colorado
e líder do estudo.
Estagiária sob a supervisão de Marcelo Abreu
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