
Por Vanessa Ribeiro Mateus, Presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB)
O sistema de Justiça passa por uma rápida transformação — marcada por disputas tecnológicas complexas e uma profusão de normas especializadas — que impõe à magistratura o seguinte desafio: cultivar a formação contínua, de modo a sustentar decisões robustas tecnicamente e manter um diálogo profícuo com a sociedade.
A independência judicial, para além da garantia constitucional, está firmada na autoridade técnica de quem julga. É imprescindível que juízas e juízes mantenham presença constante na vida acadêmica e contribuam para a renovação do pensamento jurídico e para a construção de referenciais teóricos sólidos em um país que demanda respostas institucionais cada vez mais sofisticadas.
Nas últimas décadas, a intensidade do trabalho, o aumento das demandas e o ritmo crescente dos processos reduziram a possibilidade de docência e reflexão sistemática, acabando por distanciar a magistratura das universidades. Muitos profissionais afastaram-se da produção intelectual — lacuna que empobrece o debate e restringe a difusão de experiências valiosas. Retomar essa ponte é dever de um Judiciário apto a influenciar a agenda pública em favor da eficácia da prestação jurisdicional.
A produção de conhecimento fortalece o Judiciário, porquanto uma magistratura intelectualmente ativa produz sentenças de maior qualidade, ao mesmo tempo em que colabora para melhorar políticas públicas em áreas sensíveis. A pesquisa jurídica, uma vez enraizada na vivência cotidiana das varas, câmaras e turmas, cria conexão com os cidadãos, qualifica discussões legislativas e oferece ao país diagnósticos precisos sobre assuntos relevantes, como segurança pública, proteção social e desenvolvimento econômico.
Por essa razão, a gestão que ora iniciamos na Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) deverá liderar um esforço nacional para aproximar juízes dos cursos de pós-graduação, centros de pesquisa e ambientes de inovação jurídica, por meio de uma política de incentivo ao aperfeiçoamento acadêmico, que, ao cabo, ampliará a capacidade de formulação do Judiciário. A circulação do pensamento de juízas e juízes nos círculos universitários gerará um conhecimento aplicado, que vai ampliar horizontes interpretativos e estimular soluções mais refinadas para conflitos complexos.
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A Associação Paulista de Magistrados (Apamagis) oferece um exemplo ilustrativo de como esse movimento pode ser construído com método e resultados tangíveis. Em 2020, a entidade, então sob nossa gestão, concebeu um programa para reintroduzir juízes nessas trilhas de formação avançada. A iniciativa instituiu parcerias, alinhou calendários, abriu portas e redesenhou caminhos, com convênios que inseriram dezenas de colegas em mestrados e doutorados, cujos desdobramentos, afora a confecção de teses e dissertações, incluem a publicação de livros e coletâneas.
Essas iniciativas demonstram que a formação avançada deixa de ser um projeto individual e se converte em política estruturante. O que ocorreu em São Paulo é um laboratório bem-sucedido do que pode ser adaptado, ampliado e coordenado nacionalmente. A AMB tem abrangência representativa, capilaridade federativa e credibilidade institucional suficientes para articular universidades públicas e privadas, incentivar grupos de pesquisa e promover intercâmbios acadêmicos que espelhem a diversidade regional da magistratura.
É importante que os magistrados retomem o lugar de protagonismo na discussão doutrinária - espaço de onde nunca deveriam ter saído. E é importante que participem da formação dos novos profissionais do direito, para que os graduandos conheçam a magistratura de forma efetiva e, assim, possamos continuar atraindo os melhores quadros.
Ao apoiar a presença de juízas e juízes na vida acadêmica, a AMB reafirma sua missão histórica. A autoridade intelectual é parte indissociável da autoridade democrática - e uma magistratura que pensa, pesquisa e publica constrói um Judiciário mais efetivo, mais respeitado e mais preparado para os desafios do nosso tempo.

Direito e Justiça
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