
Eleito por aclamação para presidir o Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União (CNPG), o procurador-geral de Justiça da Bahia, Pedro Maia, assumiu o cargo em dezembro para um mandato de um ano à frente da entidade que reúne e representa os chefes dos Ministérios Públicos de todo o país. Em entrevista ao Direito&Justiça, Maia afirma que sua gestão terá três prioridades: combate ao crime organizado, desenvolvimento humano e social e sustentabilidade. O trabalho do CNPG é ajudar os MPs a se integrarem e focarem em colaboração para uma atuação conjunta diante dos problemas complexos do país.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Natural de Salvador, Pedro Maia, 45 anos, está há 21 anos na carreira no MP baiano. Ingressou no MP em 2004 e integrou a lista tríplice para procurador-geral de Justiça como o mais votado nas últimas cinco eleições. Em Salvador, Maia coordenou o Grupo de Atuação Especial de Combate à Sonegação Fiscal e Crimes Contra a Ordem Tributária (Gaesf) e o Centro de Apoio Operacional Criminal (Caocrim). Também atuou no Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), no Núcleo de Prisão em Flagrante e foi secretário-executivo do Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (Cira). Atualmente, é titular da Promotoria de Tóxicos de Salvador.
Quais são as prioridades da sua gestão à frente do CNPG?
A minha gestão à frente do CNPG está estruturada em três eixos estratégicos complementares: segurança pública, desenvolvimento humano e sustentabilidade. Na segurança pública, a prioridade é fortalecer o enfrentamento qualificado ao crime organizado, com integração efetiva entre os Ministérios Públicos, compartilhamento de inteligência, atuação coordenada e foco na desarticulação das facções e milícias, inclusive, por meio da asfixia financeira e da responsabilização de lideranças. Isso inclui também a proteção da vítima e a retomada de territórios e espaços públicos dominados pela criminalidade. O eixo do desenvolvimento humano reconhece que segurança duradoura exige redução de desigualdades, fortalecimento de políticas públicas e defesa dos direitos fundamentais. O Ministério Público tem papel central na indução de soluções estruturais nas áreas de infância e juventude, educação, saúde, igualdade racial e de gênero, sempre recolocando a vítima no centro do sistema de justiça, não apenas como destinatária da resposta penal, mas como sujeito de direitos. Já a sustentabilidade envolve a proteção do meio ambiente, o enfrentamento aos crimes ambientais e a defesa de um modelo de desenvolvimento que respeite limites ecológicos e sociais. O CNPG pode liderar uma atuação nacional mais integrada nessa agenda, com impactos diretos na qualidade de vida das atuais e futuras gerações. Esses três eixos se conectam por uma premissa clara: não há segurança sem desenvolvimento humano, nem desenvolvimento possível sem sustentabilidade.
Como o senhor avalia o momento atual do sistema de Justiça brasileiro?
Vivemos um momento de alta demanda social por respostas concretas, especialmente na área da segurança pública. O sistema de Justiça é chamado a atuar com firmeza, eficiência e celeridade, sem renunciar à legalidade, às garantias constitucionais e à proteção da vítima. Ao mesmo tempo, enfrentamos desafios relevantes, como a complexidade dos processos estruturais, a litigiosidade excessiva e a necessidade de modernização tecnológica. Esse contexto reforça a importância de uma justiça multiportas, capaz de combinar respostas penais, soluções consensuais e mecanismos adequados de resolução de conflitos. O Ministério Público tem papel central nesse modelo, atuando tanto na persecução penal qualificada quanto na indução de acordos e soluções estruturais, com foco em resultados efetivos, socialmente referenciados e sustentáveis.
Há espaço para aprimorar a atuação coordenada entre MP, Judiciário, Defensoria Pública e advocacia?
Há espaço e há necessidade. A coordenação interinstitucional não compromete a independência funcional; ao contrário, qualifica a resposta do sistema de justiça. Em temas como violência doméstica, infância e juventude, execução penal e crime organizado, a atuação articulada melhora a proteção da vítima, reduz retrabalho e aumenta a confiança da sociedade. A advocacia, a Defensoria e a magistratura são partes essenciais desse arranjo: um sistema de Justiça forte se constrói com diálogo institucional, respeito aos papéis constitucionais de cada um e cooperação estratégica.
O MP tem atuado de forma eficiente no enfrentamento ao crime organizado?
O Ministério Público tem avançado de forma consistente e obtido resultados expressivos no enfrentamento ao crime organizado, especialmente por meio de grupos especializados, atuação integrada e cooperação permanente com as forças de segurança. Os Gaecos se consolidaram como estruturas estratégicas, capazes de conduzir investigações complexas, deflagrar operações integradas, responsabilizar lideranças e promover a asfixia financeira das organizações criminosas. Esse trabalho é potencializado pela articulação nacional promovida pelo Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC), vinculado ao CNPG, que permite a integração de estratégias, o compartilhamento de inteligência e a coordenação de ações entre os Ministérios Públicos em todo o país. Ainda assim, o crime organizado é dinâmico, sofisticado e frequentemente transnacional. Por isso, eficiência não é um ponto de chegada, mas um processo contínuo de aprimoramento, que exige investimento permanente em inteligência, tecnologia, integração de dados, rastreamento patrimonial, proteção de vítimas e testemunhas e articulação com políticas de segurança pública e com o sistema prisional.
Como ampliar o uso de soluções consensuais, como acordos, sem enfraquecer a resposta penal?
A consensualidade deve ser tratada como instrumento de racionalidade e efetividade, não como substituição automática da responsabilização penal. Acordos precisam observar critérios claros: gravidade do delito, reincidência, impacto sobre a vítima, reparação do dano, devolução de ativos e prevenção de novas condutas. Em crimes complexos, podem ser decisivos para desarticular organizações e recuperar patrimônio, desde que preservem proporcionalidade, transparência e controle institucional.
Qual o papel da tecnologia e da inteligência artificial na modernização do Ministério Público?
A tecnologia e a inteligência artificial são instrumentos estratégicos para qualificar decisões, ampliar a eficiência institucional e concentrar esforços no que é mais grave e relevante para a sociedade. Elas permitem ao Ministério Público atuar com mais inteligência, previsibilidade e foco em resultados concretos, especialmente em cenários de alta complexidade e grande volume de demandas. Ferramentas de IA já contribuem para a triagem e organização de casos, a análise de grandes volumes de dados, a identificação de padrões criminosos, o rastreamento patrimonial e a automação de rotinas, liberando tempo e energia para a atuação finalística. Iniciativas nacionais como o Brasil IA, consórcio criado no âmbito do CNPG, somam esforços e expertises de Ministérios Públicos de todas as regiões e ramos, ampliando de forma significativa a capacidade e a velocidade de desenvolvimento e uso de tecnologias disruptivas no setor público, além de difundir uma cultura de compartilhamento de boas práticas. Esse processo deve ocorrer com governança clara, supervisão humana permanente, proteção de dados e uso consciente e responsável da inteligência artificial, sempre orientado pelo interesse público e pelo uso racional e eficiente dos recursos públicos. Modernizar o Ministério Público não é apenas acelerar procedimentos, mas decidir melhor, com mais qualidade, transparência e impacto social.
Há projetos para integração de dados e atuação conjunta entre MPs estaduais e o MPDFT?
Sim. A integração de dados é essencial para enfrentar fenômenos que não respeitam fronteiras territoriais. O CNPG pode impulsionar padrões mínimos de interoperabilidade, protocolos de compartilhamento seguro de informações e frentes conjuntas entre os MPs estaduais, da União e o MPDFT. O objetivo é transformar informação qualificada em investigações mais robustas e em uma atuação coordenada e eficiente em todo o território nacional.
Qual a sua opinião sobre o PL Antifacções? Quais os principais avanços?
O CNPG manifestou apoio integral à aprovação do PL Antifacções por entender que ele representa um avanço decisivo no enfrentamento às facções criminosas e às milícias. O projeto moderniza instrumentos de investigação, fortalece a responsabilização de lideranças e amplia mecanismos de asfixia financeira dessas organizações. Trata-se de um marco importante para fortalecer a atuação do Ministério Público e das forças de segurança, com impactos diretos na redução da violência e na proteção da sociedade.
Na forma como o Senado aprovou o PL Antifacções, há algum ponto que o senhor considera retrocesso?
O Ministério Público apoia o texto final aprovado no Senado, relatado pelo senador Alessandro Vieira, resultado de um processo legislativo amplo, técnico e responsável, que contou com diálogo permanente com as forças policiais, com o sistema de Justiça, com pesquisadores e estudiosos sobre o tema e com diversas instituições envolvidas no enfrentamento ao crime organizado. A redação final alcançou um equilíbrio adequado entre o fortalecimento dos instrumentos de investigação e repressão às facções criminosas e o respeito às garantias constitucionais e às prerrogativas institucionais. Em matéria penal, clareza e precisão normativa são essenciais para assegurar eficácia, segurança jurídica e aplicação consistente da lei ao longo do tempo, contribuindo para o fortalecimento do Estado de Direito.
E o chamado PL da Dosimetria? Como o senhor vê essa proposta? Pode atingir outros criminosos, além dos condenados na tentativa de golpe?
Após a aprovação no Senado, o PL da Dosimetria ficou delimitado aos crimes contra o Estado Democrático de Direito, especialmente aos fatos relacionados aos atos de 8 de Janeiro. O texto final não promove uma mudança geral na execução penal nem se estende, de forma automática, a crimes comuns ou ao crime organizado. Ainda assim, por envolver matéria sensível, é fundamental acompanhar a interpretação judicial para garantir que a individualização da pena, a segurança jurídica e a proteção da sociedade sejam preservadas. Para o CNPG, qualquer mudança nessa área precisa ser analisada com cautela, porque afeta a política criminal, incentivos à ressocialização, percepção de proporcionalidade da pena e, sobretudo, a proteção da sociedade e das vítimas. Reformas devem buscar equilíbrio entre individualização da pena, segurança pública e efetividade da resposta estatal, evitando soluções genéricas que produzam efeitos não calibrados.O CNPG estará atento a qualquer trâmite legislativo que impacte na atuação do Ministério Público brasileiro e defenderá sempre suas prerrogativas e os direitos fundamentais do cidadão.
Acha que a criação do Ministério da Segurança Pública seria uma boa ideia na estratégia de reduzir a criminalidade e o crime organizado?
A criação de um Ministério da Segurança Pública pode ser uma boa iniciativa, desde que inserida em um projeto mais amplo, com planejamento, orçamento adequado e clara definição de competências, o que depende fundamentalmente das escolhas do Poder Executivo. A simples criação de uma nova estrutura, por si só, não garante melhores resultados. O ponto central é o fortalecimento do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e a participação ativa da União na coordenação nacional da política de segurança, especialmente diante de um crime organizado cada vez mais transnacional, articulado e financeiramente sofisticado. A redução da criminalidade exige cooperação efetiva entre União, Estados e Municípios, integração de dados, inteligência compartilhada e articulação permanente entre instituições do sistema de Justiça e de segurança pública.
Que reformas institucionais ou legislativas considera essenciais para fortalecer o Ministério Público nos próximos anos?
O Ministério Público é uma instituição em permanente construção. A Constituição de 1988 foi extremamente generosa ao atribuir ao MP uma ampla gama de funções, que vão da persecução penal à defesa dos direitos fundamentais, do patrimônio público, do meio ambiente e da ordem democrática. O grande desafio é dar efetividade plena a essas atribuições, com capacidade institucional compatível com as responsabilidades assumidas. Nesse sentido, são essenciais reformas e aperfeiçoamentos que fortaleçam a atuação integrada em âmbito nacional, o compartilhamento de dados, o uso responsável de tecnologia e inteligência artificial, e os instrumentos de investigação patrimonial e financeira, especialmente no enfrentamento ao crime organizado e à corrupção. Também é importante avançar na consolidação da justiça multiportas, com atuação consensual qualificada e soluções estruturais, sem prejuízo da resposta penal quando necessária. Fortalecer o Ministério Público é assegurar condições para que ele cumpra, com independência, eficiência e responsabilidade democrática, o papel que a Constituição lhe confiou e que a sociedade legitimamente espera.

Direito e Justiça
Direito e Justiça
Direito e Justiça
Direito e Justiça