Homenagem

Artistas e familiares comentam o legado de Maria Duarte

Fundadora do Sesc Garagem morreu na última quarta-feira (30/12), aos 85 anos. Artistas, técnicos e gestores culturais incentivados por ela prestam suas homenagens

Devana Babu*
postado em 31/12/2020 13:54
Maria Duarte foi uma das grandes incentivadoras da arte no DF -  (crédito: Ed Alves/Esp. CB/D.A Press - 25/10/11)
Maria Duarte foi uma das grandes incentivadoras da arte no DF - (crédito: Ed Alves/Esp. CB/D.A Press - 25/10/11)

A comunidade cultural de Brasília recebeu, consternada, nesta quarta-feira (30/12), a notícia da morte de Maria de Souza Duarte, figura crucial para a formação da identidade cultural e política do Distrito Federal a partir do final dos anos 1970. Maria Duarte morreu pela manhã, após lutar por dois anos contra um câncer.

Fundadora do Teatro Sesc Garagem da 913 Sul, Maria já foi secretária de cultura do Distrito Federal e participou de importantes momentos da cultura brasiliense, como o Concerto Cabeças e o Festival Latino-americano de Arte e Cultura (FLAAC). Pesquisadora, educadora e militante da arte-educação, chegou a escrever livros como Educação pela arte – O caso garagem.

Mas o maior legado deixado por ela foi o incentivo e apoio que deu para diversos artistas, grupos e bandeiras nos primórdios da cultura Brasiliense. A convite do Correio Braziliense, artistas, técnicos, e gestores culturais, além da filha dela, deixaram seus depoimentos, memórias e homenagens.

Natalia Duarte, filha de Maria Duarte

"Maria Duarte era uma pessoa incrível. Uma mulher de vanguarda, uma pessoa sábia, cuidadosa com as pessoas. Mãe amorosa, esposa amorosa e leal, uma avó amadíssima, e reunia a família em torno dela. Tinha muitos amigos e amigas. Militante da cultura, da educação e da política no distrito federal. Nos mudamos para cá nos anos 1970 e ela trabalhou com toda a vanguarda cultural da cidade. Ela tinha um compromisso muito grande com a diversidade, com a pluralidade cultural. Tinha respeito por todos os tipos de afeto. Era militante do movimento LGBT na época, do teatro experimental. Ela fez o projeto Cabeças, fez o Teatro Garagem, fez a Feira de Música. Tinha um profundo afeto pelo mundo, pelas pessoas, e, por essa razão, foi sempre rodeada de muito amor. Ela acreditava no mundo, acreditava na humanidade, e adorava viver. Lutou até o finalzinho: dizia que queria ficar mais um pouquinho, e assim ela foi. Foi feliz até o final."

Humberto Pedrancini, ator e diretor de teatro

"Conheci Maria Duarte quando me tornei estagiário de arte no Sesc, no final de 1973/1974. Maria era uma das diretoras. Foi uma experiência fantástica trabalhar com ela. Era uma mulher exigente, cobrava de seus funcionários, da gente, com muita competência, com muita coragem, exigindo que cumpríssemos as metas. Ela nos organizava. Éramos um bando de jovens cheios de sonhos, mas com muito pouca história, nos arroubos dos anos 1970 – um punhado de estagiários muito jovens que trabalhavam com música, literatura, artes plásticas, e, eu com teatro. Com o decorrer dos anos, Maria se tornou minha mestra, minha orientadora, não só em termos de trabalho, mas na própria vida. Era uma mulher muito bem informada, tinha uma cultura vasta.

Ela transformou o centro de atividades da 713/913 Sul, onde hoje é o Teatro Garagem, em um centro difusor de cultura. Ela dava oportunidade para que todas as pessoas tivessem acesso às instalações, para desenvolver, ensaiar. Era uma mulher com os olhos no futuro, e confiava na gente. A peça que dirigi, que inaugurou o Teatro Garagem – A capital da esperança – foi uma sugestão dela para mim, para que nós criássemos um espetáculo e contássemos alguns fatos da história de Brasília.

Ela nos trazia material para ler, nos incentivava a fazer cursos, e cobrava que depois a gente repartisse esse conhecimento com a comunidade - uma visão de mestre, aquela pessoa generosa que reparte o conhecimento com outras pessoas.

Quando inaugurou o centro de atividade da 913 Sul, havia um espaço dedicado à garagem no subsolo. No entanto, havia uma dificuldade dos carros em descerem, pois é uma rampa muito íngreme, e eles sempre batiam a traseira do carro, o que inviabilizava que aquilo fosse usado como garagem. Começamos a ensaiar naquela garagem e maria teve a ideia de transformar aquilo num espaço cultural, num espaço de teatro, com bastante esforço."

Nivaldo da Silva, técnico de cenografia, responsável pela construção da estrutura de iluminação do Teatro Garagem quando foi construído

"Nosso relacionamento foi importante e foi muito bom para mim. Ela era uma pessoa muito boa, muito humana, e se preocupava com esses grupos de teatro que não tinham onde se apresentar, porque as salas de teatro ficavam caras para eles. Então, ela sonhava em fazer um teatro simples, para atender a essa comunidade.

O Teatro Garagem efervesceu na época. Ele atraiu muitos grupos que vierem de fora. Havia uma energia importante, uma energia boa que atraia as pessoas para aquele local, então o teatro estava sempre com uma plateia muito boa. Foi ótimo e a Maria ficou muito satisfeita, porque viu ali o sonho dela realizado. Foi muito importante para o meu conhecimento cultural da questão de teatro. E ela foi importante na minha vida, porque foi uma pessoa muito boa e me ajudou muito."

Paulo Mattos, ex-guitarrista e flautista da banda Mel da Terra

“O trabalho dela é marcante e vai ficar para o resto dos nossos dias aqui, porque ela é muito importante para Brasília. Mas eu queria falar do outro lado dela, da dimensão humana que ela tinha, porque ela era como uma mãe, mesmo, da cultura de Brasília. Ela tinha essa coisa maternal com os artistas, com a cultura, na forma como era carinhosa e respeitosa. Era uma pessoa muito na dela, mas superbatalhadora. Um exemplo para nós todos, pela visão de mundo, tranquilidade e toda uma forma de lidar com a gestão, muito consciente, com uma visão muito grande de todos os problemas da cultura.

Nós ensaiávamos, antes do Teatro Garagem ser inaugurado, no auditório do SESC, lá em cima, com todo o apoio e equipamento que eles podiam nos fornecer. Nos apoiaram em todos os sentidos, porque a gente era uma banda que, infelizmente, não tinha estrutura. Fizemos sucesso e tudo sem ter nem instrumento. A gente não tinha dinheiro para comprar instrumento importado, nada. No auge do nosso sucesso, a gente tocava com instrumentos da Giannini (marca nacional), para você ter uma ideia. Então a gente precisava daquele apoio mesmo. Sem aquele apoio, o Mel da Terra nunca teria sido o que foi.”

Alexandre Ribondi, ator e diretor de teatro

Maria Duarte sempre foi um dos pilares de Brasília. Ela está na raiz da cidade. A minha primeira peça, que eu escrevi, Filó brasiliense, foi dirigida por Humberto Pedrancini e apresentada no Teatro Garagem. O grupo LGBT Beijo Livre, que lutava pelos direitos e pela dignidade dos homossexuais durante a ditadura, encontrou apoio do Sesc por causa de Maria Duarte. Ela foi secretária de cultura na gestão do PT e foi uma das vezes em que realmente a secretaria de cultura conhecia a cidade, sabia das necessidades e estava lá para atendê-las – por isso ficou lá tão pouco tempo. Maria Duarte é a cara de Brasília. Se Brasília é o que é hoje, é por causa de mulheres como Maria Duarte.

Guilherme Reis, ator, diretor e gestor cultural, ex-secretário de cultura do Distrito Federal

Maria Duarte foi sempre uma militante da relação da cultura e da educação. Uma pessoa muito focada na formação de um público mais crítico, mais ativo, e uma pesquisadora também. O que eu acho que vai deixar saudade nas pessoas é que ela era uma mulher muito séria, mas que fazia tudo com muita ternura, com muito amor, e com ela eu aprendi uma coisa muito legal, muito importante para mim, que foi a maneira como ela conseguia manter o foco nas questões mais importantes e naquilo que realmente interessava.

Tive a sorte de ter a Maria Duarte por perto como um farol em várias situações, desde a época que ela dirigia o Sesc na 913 Sul até agora, recentemente, enquanto eu estava na Secretaria de Cultura. Ela me visitou tentando não deixar morrer um projeto muito bonito de turismo cívico e cultural para jovens estudantes da zona rural do entorno de Brasília. Ela estava batalhando por ônibus para trazer crianças e jovens. Extremamente prática e focada nessa relação de fazer um cidadão melhor através da arte e da educação.

No Sesc, quando a gente era muito jovem, ainda na década de 1970, eu e toda uma série de pessoas que se dedicam à arte e à cultura no Distrito Federal tínhamos a Maria Duarte como uma incentivadora, uma iniciadora de muitos processos. Uma batalhadora da arte, educação e cultura, e uma pessoa que tinha ternura e amor em tudo que fazia, e isso contagiava.

*Estagiário sob a supervisão de Nahima Maciel

 

 

 

 

 

 

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